sexta-feira, 17 de julho de 2015

A grande mídia brasileira e a revolução cubana

Ensaio
17 de julho de 2015
Por João Pedro Holanda, estudante de História da UFPE e militante do Diretório Acadêmico de História Francisco Julião (DAHISFJ).

Pode parecer estranho, mas a Revolução Cubana já foi apoiada e vista com bons olhos por boa parte da grande mídia brasileira. Do assalto ao Quartel Moncada (1953) às movimentações guerrilheiras em Sierra Maestra (1956-1958) e a tomada do poder pelo Exército Rebelde (1959), os jornais nacionais cobriam os fatos sem tecer duras críticas ao grupo armado e, na maioria dos casos, apreciava a coragem e a bravura de “Fidel e seus barbudos” na luta pela queda de mais uma ditadura na América Latina. Acreditavam que o ideário de Castro de uma Cuba livre e democrática serviria de exemplo para outras lutas anti-ditatoriais no nosso continente. Enaltecia a importância da busca pela volta à democracia (democracia liberal era obviamente o que queria a grande mídia). A partir do momento que Fidel anuncia a reforma agrária, as grandes nacionalizações e posteriormente declara o caráter socialista da revolução, inicia-se a sistemática política de hostilidade frente à ilha, que dura até os dias atuais. Neste ensaio, pretendo apresentar de forma rápida a maneira como a mídia se posicionou perante esses três fatos marcados. As notícias difamatórias e hostis à ilha que surgem a partir de 1960, e com força total em 1961, não serão examinadas aqui.

Decidiu-se que o último dia do carnaval seria uma grande oportunidade para assaltar o quartel moncada, já que boa parte de seus soldados provavelmente estaria de ressaca ou ainda comemorando o festejo: 26 de julho de 1953. Tomar o quartel, distribuir armas para a população, estimulando a insurgência, tomar as centrais de rádio e levantar o povo contra Batista: esse era o plano de Castro.
O fator surpresa era a espinha dorsal do ataque, e sua perda foi justamente o motivo para o fracasso da tentativa. Alguns militantes que se dirigiam ao Moncada foram surpreendidos por tropas militares do governo, e entraram em conflito. O barulho dos disparos alertou os soldados que guardavam o quartel, que se colocaram em posição de batalha para o enfrentamento que parecia estar por vir. Liderados por Raul Castro, os revoltosos tomaram o hospital que ficava defronte ao quartel, na intenção de tratar os feridos em combate, contudo, esta ação de nada adiantou, já que o quartel em si continuava em posse dos militares, que entraram em confronto com o grupo “fidelista” nas ruas próximas ao posto do exército. Oito mortos em confronto, cinco feridos e setenta presos e torturados, posteriormente assassinados pelo governo.
Em setembro de 1957, no bojo da articulação da guerrilha em Sierra Maestra, o jornal carioca “Diário de Notícias” se mostra entusiasmado com o Movimento 26 de julho, e publica uma série de nove artigos intitulados “História da Vida de Fidel Castro”, escrito pelas duas irmãs do guerrilheiro. Destes nove textos, há um dedicado exclusivamente ao acontecimento de Moncada, descrito minuciosamente e de forma poética, mostrando o sofrimento dos revolucionários, as intempéries encontradas, a crueldade do governo Batista. Desde os motivos do fracasso militar até a fuga dos líderes para as montanhas de Sierra Maestra, as mortes nas sessões de torturas e as prisões dos que tinham conseguido recuar com êxito, como Fidel, ou “Fidelito” como publicou o jornal. O periódico também relata a tentativa frustrada de invasão à Cuba a bordo do iate Granma e a organização dos rebeldes na Sierra Maestra, que seria agora o foco das ações guerrilheiras de Castro e companhia. Sobre Moncada:

“Os mortos não falam: No ataque ao Moncada, os mortos em combate foram o de menos. Muito mais foram os que caíram depois. De início Batista dissera que os atacantes haviam tido trinta e duas baixas, mas ao finalizar a semana os mortos já passavam de setenta. (...) E quando tiverem passado os anos, e que o céu da pátria se tenha descarregado; quando se tiverem aquietado os ânimos exaltados e o medo não mais perturbe os espíritos, começar-se-á a ver em toda a sua espantosa realidade a enormidade do massacre contra os que se renderam nos dias fatídicos de 26, 27, 28 e 29 de julho de 1953”.

Outro periódico, o Diário do Paraná (órgão dos Diários Associados, a maior rede de jornais do país à época), fez menção ao acontecimento de Moncada apenas em 1957, tratando-o como “assalto fracassado” e noticiando o pedido por parte dos revoltosos de uma greve geral de 15 minutos para comemorar o quarto aniversário da tentativa de tomada do quartel. O jornal não se propõe a esclarecer os motivos e as pautas dos revolucionários, e dá coro ao posicionamento de parte da oposição que pede que não se forme uma frente revolucionária em Cuba:

“Convém reiterar novamente - disse Grau [ex-presidente cubano] - que para solucionar a grave crise cubana a única via sensata é voltar à lei e ao cumprimento restrito da Constituição. Toda fórmula que se aparte dessa linha logicamente tem que parecer perigosa e desnecessária. Não é criando outro foco de perturbação politica, mas sim eliminando o existente, que se resolvem nossos problemas”.

No Brasil, a vitoriosas movimentações em Sierra Maestra foram noticiadas pela mídia de uma forma geral. Na coluna do Diário de Notícias sobre a vida de Fidel Castro, o último texto publicado foi justamente sobre a guerrilha, intitulado “Desembarque e combates na Sierra Maestra”, e apresenta, assim como as outras publicações da coluna, uma visão positiva e até romântica de Fidel e seu movimento. De forma poética, as irmãs do líder cubano narram os detalhes de sua partida do México, a angústia por elas vividas ao não obter notícias claras sobre o sucesso ou fracasso da invasão, e por fim a certeza (repleta de otimismo) de Fidel de que seu movimento lograria êxito: “De uma coisa, porém, estava seguro: sua rebelião seria a centelha que faria despertar o patriotismo dos cubanos. Esta centelha já havia se comunicado e o paiol não tardará a explodir”.
O Última Hora do Rio de Janeiro apresenta uma postura diferente do Diário de Notícias que vê o movimento como uma profícua luta anti-ditadura. O periódico em questão se contém em publicar as informações oficiais do governo cubano acerca dos vários confrontos entre suas tropas e os guerrilheiros. Com a chegada do ano de 1958, o tablóide começa a mostrar simpatia pelo movimento de Castro, e faz uma grande matéria intitulada “Fidel Castro: O Garibaldi das Antilhas”. Nela constrói-se a trajetória de Fidel desde o começo dos anos 50 e afirma-se que ele teria a intenção de se lançar candidato a deputado, mas fora surpreendido pelo golpe de Batista, que o motivou a atacar o quartel Moncada, ato classificado como “uma loucura consciente e organizada”. Narra também a sua estadia no México e a preparação da luta revolucionária e o desastre da travessia a bordo do Granma, quando “somente uns vinte dos oitenta conquistadores ficaram vivos”. Conquistadores, note-se a palavra usada pelo tablóide. Suas matérias meramente reprodutoras das notícias oficiais do governo de Batista já não serviam mais. O jornal se assume agora como simpático ao M26-7. A matéria continua exaltando a bravura do “Robin Hood moderno”, que conseguiu estabelecer um Estado independente na província do Oriente, que já tem condições de se manter com os donativos que lá vão chegando de toda a ilha. Fidel, aponta o jornal, também extirpa juridicamente quaisquer tentativas de se especular financeiramente, como a venda de produtos e serviços acima do preço da tabela à população.

“Êstes (...) acabaram por ocupar um território de cerca de 3000 quilômetros quadrados, onde instituíram uma república independente. Castro, o democrata, é ali o senhor absoluto. É um Estado-miniatura com polícia, exército, transportes, comunicações (...) e até serviço de controles de preço (...). Não é por acaso que esse Robin Hood moderno passou tantos anos estudando o Código. Os traficantes não prosperam muito tempo na “Livre República de Cuba”. As sentenças do tribunal civil dos insurretos são proferidas muitas vêzes por Castro em pessoa, debaixo de uma “majagua”, árvore que é o símbolo da justiça”.

Até as movimentações na Sierra, a mídia brasileira de forma geral via com bons olhos o M26-7 e o próprio Fidel Castro. Quando não exaltavam suas qualidades revolucionárias, tentavam ao menos repassar as informações noticiadas por correspondentes do The New York Times, ou mesmo do governo cubano. Todos os jornais pesquisados denominam o governo de Batista como “ditadura”, e talvez por este motivo, enxergavam realmente o Exército Rebelde como combatentes engajados numa luta justa. Ora, segundo os próprios conceitos liberais, já cunhados por John Locke no século XVII, um governo tirânico pode ser deposto pelo povo, quando aquele não garante à população a manutenção de seus direitos inalienáveis. O próprio John Kennedy, Presidente dos Estados Unidos, admitiu, em entrevista ao jornalista Jean Daniel Bensaid em 1963, que as políticas de seu país foram fundamentais para criar uma humilhação e colonização econômica em Cuba como nunca vistas em outro país, e saudou a proclamação de Fidel na Sierra Maestra, quando defendeu uma Cuba justa e livre da corrupção. Claro, saudou os revolucionários da Sierra, mas condenou Fidel por ter dado o direcionamento socialista à revolução.
No dia 3 de Janeiro, chegam as notícias cubanas aos jornais brasileiros: “Fôrças de Fidel Castro entram ontem em Havana”, é a manchete do Diário de Notícias; “Fidel Castro hoje em Havana com o Presidente Urrutia: o fim de (mais) uma ditadura”, proclama o Jornal do Brasil; “Fidel Castro lutou cinco anos para derrubar F. Batista e restaurar a democracia em Cuba: proclamado Presidente Provisório o Dr. Manuel Urrutia Lleo”, noticia o Diário de Pernambuco. A Folha da Manhã publicou na sua primeira página uma longa reportagem, com o título: “Entrada Triunfal das Forças Rebeldes na Capital de Cuba”. O tablóide Última Hora já no dia 2 de janeiro mostrava-se entusiasmado com a provável vitória das forças revolucionárias: “Cuba: fuga espetacular de Batista com todos os membros do governo!”. E no dia seguinte: “Declara Fidel Castro: ‘É agora que começa a Revolução em Cuba!’”.
A mídia nacional, reitero, via com bons olhos o movimento “dos barbudos de Fidel Castro”. Um grupo de jovens que foi à luta a fim de derrubar uma ditadura sanguinária, para reestabelecer a ordem e a democracia, era visto pela imprensa brasileira como a esperança de democratização não só daquela ilha, mas de muitos países caribenhos que viviam situação semelhante. “A democracia (liberal) há de vencer!” Era como se resumiam os pensamentos daqueles editores. Porém, à medida que Cuba dava passos em busca de uma democracia social, uma democracia distante dos padrões estadunidenses, a imprensa brasileira retirava o apoio, passando mesmo a demonizar aquela conquista, e mais ainda seu líder, Fidel Castro. Situação parecida também acontece quando essa mesma imprensa, em boa parte, apoia o golpe de 1964, aderindo ao discurso de que a democracia brasileira estava em xeque, ameaçada pelo “perigo vermelho”. O mais conhecido crítico do regime cubano é o jornal O Globo, órgão fundado e controlado pela família Marinho, conhecido até hoje pelos seus posicionamentos reacionários e de direita.

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