terça-feira, 23 de junho de 2015

Rumo à barbárie

Ensaio
23 de junho de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

As imagens registradas e veiculadas pela mídia internacional são todas elas estarrecedoras, sejam de precárias embarcações apinhadas de gente ou de corpos inertes trazidos pela maré. Milhares de imigrantes africanos chegam às praias da Itália e da Grécia, em busca de uma condição de vida melhor. Mas a Europa os rejeita pois dos seus países de origens só querem as suas riquezas e o comércio livre de barreiras de qualquer espécie.
Essa é uma das faces de um flagelo que está nos levando na direção de uma desumanidade sem fim. Com efeito, essa situação dramática e desesperadora é consequência direta de séculos de colonização e exploração dos países europeus na África, impondo tratados e limites territoriais que lhes interessavam, sem levar em conta as etnias e os variados aspectos culturais de cada povo. E ao ter que sair de lá, forçados por várias rebeliões e lutas pela libertação nacional, a partir da década de 60 em diante, os colonizadores foram obrigados a negociar e também implantar alguns governos títeres. Desse modo, se fechou um ciclo anterior de dominação direta e se estabeleceu um novo processo - “até mais eficaz” - com o não uso de tropas militares, mas sempre em conluio com as elites locais.
Assim sendo, o capital financeiro, através de suas corporações empresariais, têm procurado manter o continente africano sob seu predomínio e dependência, viabilizando inserções econômicas para a produção de cereais transgênicos, bem como de extração de minerais, especialmente em países que se encontram em acentuada desagregação política e social. Novas formas de espoliação... Ações baseadas, sobretudo, na atuação do agronegócio que combina o cultivo em larga escala com tecnologia avançada em máquinas e equipamentos, utilizando muito pouca mão-de-obra. Circunstância na qual se vai estabelecendo um processo de total desarticulação de comunidades que são forçadas a vender as suas terras, piorando as condições de sobrevivência de um grande contingente de pessoas, num caótico estado de extrema pobreza e miséria quase absoluta.
Nesse contexto insensato, levas e mais levas de imigrantes cruzam o Mar Mediterrâneo com o apoio de traficantes (coiotes), em condições de total penúria e incertezas. Com alguns sendo jogados no mar ao apresentarem sintomas de doenças ou ao não terem mais recursos para atender a desapiedada sanha dos “responsáveis” por essa travessia clandestina, num círculo vicioso que se repete sempre. De outro lado, vivendo uma crise sistêmica, que vem se arrastando por anos, os países europeus recusam os imigrantes, sejam clandestinos ou não. Ou seja, a restrição à entrada imigratória é uma das bandeiras dos partidos europeus de extrema direita. Opção exaltada por suas lideranças, cujos partidos avançam em seus respectivos países, refletindo uma forte guinada à direita de eleitores das classes médias que passam a sentir, com maior intensidade, um manifesto temor quanto às perspectivas futuras de possíveis perdas de seus privilégios.
Cerca de 100.000 imigrantes “ilegais chegaram à Europa desde o início deste ano. A onda de conflitos no Oriente Médio (em especial o caos na Líbia), a pressão demográfica na África, a crescente capacidade dos traficantes de fretar barcos, a emigração econômica procedente dos Balcãs e as próprias dificuldades da União Europeia (UE) para administrar de forma homogênea suas fronteiras, se sobrepõem para gerar estatísticas de pesadelo e horror macabro: “Um naufrágio junto à costa da ilha de Lampedusa, na Itália, deixou mais de 350 mortos em Outubro do ano passado”. Eram todas elas vítimas das guerras que assolam a África e tentavam ingressar clandestinamente no país, na sua maioria oriunda da combalida Eritréia. Consequentemente, neste semestre mais de 2.500 já se afogaram no percurso das travessias em barcos improvisados.
Sabe-se que “Além da miséria crônica dos países subsaarianos (localizados na região Sul do imenso deserto do Saara), os conflitos que se espalharam pela Síria, Líbia e Iêmen, nestes últimos anos, esfacelaram governos e amplificaram as perseguições raciais e religiosas no norte da África e no Oriente Médio” - segundo identificam as pesquisas sobre essa nefasta crise humanitária. Incluindo também, nestes casos escabrosos, a ação predatória do fundamentalismo islâmico através do seu pretenso califado fascista e de seus fanáticos jihadistas. Uma conjuntura dramática que só favorece a burguesia imperialista na sua busca gananciosa por lucros incessantes a todo custo, com muito maior infiltração, especificamente, nas regiões onde faltam recursos financeiros ou nas quais se esteja sempre à mercê de estruturas de poder que servem tão somente a alguns grupos políticos.
Por conseguinte, em face dessa atual e de outras tragédias que nos levam à barbárie sem volta, pode-se concluir que se tem que batalhar, incessantemente, pela transformação da sociedade em que se vive hoje, tendo por compromisso a construção de um socialismo de caráter inovador, democrático e plural, pois é mais do que preciso se erradicar de uma vez por todas o capitalismo da face da terra. Trata-se, enfim, de uma necessidade histórica, imprescindível e urgente. A qual irá nos exigir lutar com muito mais clareza e consequente determinação, em todas as partes do mundo, dia a dia, país por país. Sem as ilusões de que é possível reformar o sistema, tornando-o menos agressivo e até mesmo solidário.
Mas, esta complexa tarefa só terá um sentido completo se for realizada por uma nova (outra) esquerda, que sendo radicalmente socialista e revolucionária, se defina, de fato como anticapitalista e combata a ordem burguesa vigente em todos os níveis. E Isto nos remete à necessidade de se estimular a conscientização política das massas em geral e da classe trabalhadora em particular, no sentido de propiciar os meios para que elas sejam as reais protagonistas da História.


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