segunda-feira, 11 de maio de 2015

Os dois Edilsons

Ensaio
09 de maio de 2015
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD/UFPE.

Nas eleições passadas para a Prefeitura do Recife tive uma experiência epifânica: ao sair na direção do terminal de ônibus da cidade universitária me deparei com o candidato do PSOL, Edilson Silva, fazendo campanha – na parada dos ônibus – a pé, com o megafone nas mãos. Imaginei a desigualdade de chances e recursos que separavam os candidatos naquela campanha eleitoral. Um, apoiado pelo rolo compressor da máquina pública – capitaneada pelo ex-governador do Estado – com muito dinheiro, farta propaganda eleitoral e a "ajuda" do padrinho político. E o outro, sem nenhum vintém além de suas convicções republicanas, sua coragem e sua determinação. Resultado: obteve ele o número inacreditável de 13 mil votos, mas infelizmente não foi eleito para a Câmara dos Vereadores do Recife, onde teria prestado um enorme serviço à municipalidade e a seus cidadãos contribuintes. Hoje, Edilson Silva é o primeiro deputado na Assembleia Estadual de Pernambuco, quase a única voz de oposição ao prefeito, eleito pelo ex-governador do Estado.
Pois bem. Relembro – com satisfação – esses fatos porque uma revelação semelhante ocorreu comigo, na última sexta-feira, às 22h. Ao sair de uma reunião com os meus bolsistas do NEEPD, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, encontro 3 colegas distribuindo panfletos aos transeuntes da comunidade universitária para a eleição do reitor. Mas o que me chamou mais a atenção foi o depoimento de 2 deles. Aproximaram-se e disseram: “professor tiramos R$ 2 mil dos nossos salários para confeccionar esses panfletos”. Fiquei tocado. Embora nunca tenha votado no partido do candidato, pois sou militante histórico do outro partido, não pude deixar de admirar aquele formidável esforço ideológico, republicano, cívico, daqueles militantes fazendo campanha boca a boca, 22h, numa sexta-feira, em ponto de ônibus.
Repliquei que a campanha deles já estava moralmente ganha. Não é necessariamente o resultado (muitas vezes duvidoso e fraudulento) de uma eleição que decide pela verdade, correção ou mérito dessa competição. Aí importam tanto os fins como os meios. Se os meios forem moralmente condenáveis – e muitas vezes o são de diversas maneiras – não haverá resultado justo que compense os deslizes morais, políticos e administrativos dos competidores. Numa eleição em que parece "valer tudo", um candidato que utiliza para se eleger apenas os próprios meios de subsistência e os de seus companheiros e apoiadores, sinceramente, esse já ganhou. Para mim, esse é o vitorioso da competição.
Quem quiser, use outros recursos, apoios, estratégias, pensando que a vitória redime todos os pecados cometidos durante a campanha eleitoral, mais ainda numa universidade pública. Para mim, a correção dos meios é parte integrante da qualidade moral, política, republicana da vitória. Quem quiser, suje suas mãos esperando obter cargos, nomeações, recursos, equipamentos, bolsas, etc. Mas não queira se iludir sobre o preço pago pelo esforço de eleger seu preferido. Sujar as mãos significa entornar na lama as virtudes cívicas, o caldo da democracia e do respeito às regras do jogo democrático.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.