terça-feira, 26 de maio de 2015

Duas faces de uma mesma moeda

Ensaio
21 de maio de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Muita confusão se tem feito sobre as lutas que devem ser realizadas pela classe trabalhadora e demais setores explorados da sociedade capitalista, sejam elas reivindicatórias ou não. Entretanto, o devido conhecimento sobre esta importante questão passa por uma melhoria na compreensão das coisas e, consequentemente, pela necessária absorção de uma consciência política revolucionária radical que vise a transformação da sociedade.
Por conseguinte, sabe-se muito bem que a existência de potências imperialistas é uma verdade que não se pode negar, em hipótese alguma. Mas, é preciso que se explique também que estes “países desenvolvidos” derivam exclusivamente da sobrevivência do regime capitalista, independentemente das formas pelas quais se caracterizam os seus respectivos e variados governos (parlamentarista, monarquista, presidencialista, etc.).
Todavia, passa-se “ao largo” sobre o que são os imperialismos como uma fase de ascensão do capitalismo, o que sempre resultará no surgimento de grandes e poderosas nações, de verdadeiros “impérios”. Trata-se, enfim, de um processo histórico que foi devidamente analisado em 1916 por Vladimir Lênin, no seu livro “Imperialismo, etapa superior do capitalismo” - ressaltando a predominância do capital financeiro em termos globais.
Nesse sentido, portanto, precisa-se esclarecer de uma vez por todas que a hegemonia do stalinismo como burocracia – até hoje ainda pouco assimilada como uma ideologia contrarrevolucionária – estabeleceu através das Academias e Institutos Soviéticos o conceito ambíguo de “nação opressora” contra “nação oprimida”. Metodologia esta que reduziu a luta de classes a uma mera situação de conflitos entre regiões em condições sócio-econômicas bem distintas, desiguais entre si. Uma lástima para todas as esquerdas, que sem questionarem esse princípio inócuo e distorcido defenderam “com unhas e dentes” a União Soviética, como expressão do “socialismo” num só país, chegando a ignorar a luta anticapitalista em outras partes do mundo. E, por isto mesmo, passaram a viabilizar alianças programáticas com as burguesias ditas nacionalistas e progressistas, ao mesmo tempo em que propunham uma ilusória conciliação entre as classes, entre o Capital e o Trabalho. Isto posto como se fosse possível se ter uma convivência harmoniosa entre empregados e patrões, onde os primeiros deixassem de ser explorados de uma hora pra outra, sem mais nem menos... Uma quimera, ou pura má fé política.
Em complementação a isso, deve-se também elucidar que o principal argumento para se efetivar uma luta contra os imperialismos é a defesa da “autodeterminação de todos os povos”. Ou seja, não se trata de se defender (abstratamente) a soberania nacional e a liberdade econômica dos países que possam estar sendo “submetidos” às nações imperialistas, pois a noção de “pátria” em si nada tem a ver com os interesses da burguesia e das suas corporações empresariais, que se apossam (de fato) das riquezas de um determinado país. A “pátria” tal como ainda é compreendida pelo povo não é a mesma dos capitalistas, que são de fato os reais possuidores das terras, das construções, das indústrias, das empresas em geral e, especificamente, de todos os meios de produção. São os donos e senhores, enfim, da propriedade privada e do Estado. Outra verdade que há de ser dita sem rodeios!
Com efeito, não se deve esquecer nunca que o Capital não tem pátria... Nunca teve! O que o move, em dúvida nenhuma, é o lucro e, na sua essência, ele já manifesta um caráter transacional, para além das fronteiras territoriais de qualquer região. Representado, de forma bastante eficaz, pelas empresas multinacionais espalhadas por todas as partes, bem como através dos negócios, e negociatas, globalizados. Assim sendo, não se pode ignorar esta condição inerente ao sistema que se dá em ciclos variados de expansões econômicas junto com a exploração forçada da mais-valia.
Sem esse providencial esclarecimento não adianta nada se propor uma luta “anticapitalista e anti-imperialista” através de uma frente única. Qual o objetivo dela se a proposta não se traduz numa amplo entendimento do está em jogo? Serve tão somente aos partidos políticos “que ainda se dizem de esquerda”? Ora, uma ação política intitulada como tal traz muitas dúvidas quanto à importância (relativa) do imperialismo como uma consequência natural do sistema, em detrimento da luta de caráter anticapitalista, que deve ser levada em todos os níveis, dia a dia. Embate este que deve ser colocado em primeiríssimo lugar, sem nenhuma hesitação.

Pela autodeterminação dos povos! Fora com o Capitalismo!

Esses chamamentos têm que ser explícitos em seus conteúdos, com a maior clareza possível, evitando-se cair em evasivas e dissimulações. Tendo por direcionamento a luta pela construção do Socialismo em bases essencialmente democráticas, sem a indevida tutela de “partidos únicos”.

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