sexta-feira, 8 de maio de 2015

Adversidade Federal de Pernambuco

Ensaio
03 de maio de 2015
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD/UFPE.

Estava eu saindo da UFPE, à noitinha, procurando me esquivar dos cabos eleitorais das diversas candidaturas à reitoria, quando fui abordando por um companheiro ligado a uma das chapas que, em tom de súplica, me pediu que o ouvisse. Tudo bem: dizia que estava estarrecido diante do circo de horrores em que tinha se tornado a eleição para reitor da instituição de ensino público. Apoiador, como era, de uma candidata que não estava na primeira linha das chapas majoritárias (pelo apoio e os recursos), passou ele a relatar as práticas escabrosas utilizadas na campanha pelos candidatos, escabrosas de fazer corar o mais atrasado chefe político do interior. Ora era o gestor/candidato que estava trocando cargos - de uma futura reestruturação administrativa da UFPE, por apoio eleitoral. Ora era o uso desbragado da máquina administrativa para arrastar diretores, chefes, coordenadores, etc.
Ora era a cabala descarada de votos por servidores da administração universitária, devidamente uniformizados, formando grupinhos em torno das urnas e sessões de votação, num declarado movimento de indução do voto de seus subordinados. Segundo o colega, ocorreu até mesmo o episódio do candidato/gestor comparecer ao núcleo de aulas da graduação/CFCH para "mandar os alunos descerem para votar (nele)". Será que a universidade tornou-se caudatária e herdeira de tudo que não presta na política partidária do país? Ou seja, ao invés de ser um centro irradiador da mudança, da inovação, do espírito crítico, virou o museu de cera de madade tussauds das velhas práticas clientelísticas dos currais eleitorais do interior? Mais lamentável é ver colegas que se intitulam de esquerda, revolucionários e tal, ostentando no peito o nome de candidatos que se transformaram em meros gerentes do governo federal no interior da UFPE.
De nada adianta argumentar que uma pessoa que chama a Polícia Militar e Federal para o campus, que privatiza a gestão do HC, que criminaliza o movimento estudantil, jamais poderia ser eleita por uma comunidade democrática e republicana. Muito menos de docentes e acadêmicos. Mas prevaleceu o corporativismo, o troca-troca, as promessas ocultas e não reveladas daqueles que ocupam a administração universitária, prometendo o céu, a terra e o mar. Seja qual for o resultado dessas eleições, o processo está comprometido, muitas faltas foram cometidas contra a administração pública, pela partidarização, o uso da máquina, dos cargos, das hierarquias e até mesmo dos canais oficiais da comunicação universitária - usados sem cerimônia para propaganda oficial. Numa disputa como essa, só tem perdedores. Não existe ganhador. Toda vitória será de Pirro. E as consequências do troca-troca vão se revelar depois para a vida universitária, solapando a autoridade moral e acadêmica de seus membros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.