segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sobre a chacina de 8 corinthianos da torcida organizada Pavilhão 9

Ensaio
19 de abril de 2015
Por Marcio Soares, torcedor organizado do Sport Recife e bacharel em Ciências Sociais pela UFPE.

Ontem 8 torcedores foram executados na sede da torcida organizada Pavilhão 9 do Corinthians. A polícia acredita que o crime não foi motivado por rixa de torcidas organizadas. Investigam a relação com o tráfico de drogas como uma das hipóteses das execuções. Diretamente, acredita-se que os homicídios não têm a ver com torcida organizada. Mas, sim, tem a ver em alguma medida. A lógica que vem se consolidando nas TO's do Brasil está abrindo espaço para desfechos dessa natureza. Muitas tragédias. Muitas famílias chorando a morte de jovens. As Torcidas Organizadas estão perdendo o foco a cada dia. Acabou-se o tempo da "trocação". Tem mais respeito em algumas torcidas quem tem o "dedo nervoso", e não mais o cara que representa fora de casa, pinta bandeira, toca na bateria, etc. Por tal lógica do crime ganhar espaço nas torcidas, essa chacina também tem a ver com torcida.
Geral deixando a bancada de lado pra fazer "pista" na covardia, envolvendo crimes e violência sem limite. Não existe mais o "caiu, passa pra outro". O cara pega o outro no chão e quer chutar a cabeça até matar. Esquece que assim como ele, o cara tem família, o cara assim como ele está fazendo torcida. Vai matar o cara no chão?
Por outro lado, não existem políticas legitimadas pelos integrantes das organizadas e eficazes no enfrentamento da violência. Que não vai acabar, mas pode ficar em níveis toleráveis. Hoje está demais. Infelizmente as instituições que "organizam" o futebol se recusam a colaborar com a reeducação das Torcidas Organizadas. Além de não contribuir de forma efetiva com o enfrentamento da violência, apostam em ações equivocadas. Ações que são as mesmas desde a "batalha do Pacaembu" em 1995 e que não dão certo.
Basicamente, apostam na proibição da entrada de materiais nos estádios (a melhor parte da torcida organizada) e a perseguição às lideranças legitimadas pelos componentes das torcidas. Poderiam compreender que os componentes de uma Torcida Organizada respeitam suas figuras de liderança. Às vezes, até mais do que a Polícia de Choque. Mas as autoridades desconsideram que essas lideranças podem ser parceiros capazes de conduzir um processo de mudança nas TO's e também coresponsáveis.
Jogar as torcidas na clandestinidade, discriminar, perseguir, criminalizar, etc. é se recusar a trabalhar na regulação, no controle, no ordenamento, e mais: é mostrar a incapacidade do Estado de agir de forma eficiente. Perseguir sem nenhum processo formativo é aprofundar a relação das torcidas com o crime e a violência. Na clandestinidade, vale tudo. Ver a Torcida Organizada como um lugar de bandido (isso a mídia faz muito, mas não só a mídia) colabora apenas para consolidar espaços de violência e afastar das TO's pessoas que não querem sua imagem associada à delinquência.
Estudos do Sociólogo Maurício Murad indicam que apenas 7% dos torcedores organizados praticam atos de violência. Mas com essa exclusiva difusão de informações negativas das TO's, daqui a pouco ninguém "de bem" vai querer fazer parte de torcida. Aí sim, perderemos a disputa.
Enquanto as Federações, Ministério Público, Polícias, Clubes, Imprensa etc. apostarem na solução do problema via invisibilidade, silenciamento, proibição e sufocamento, estaremos longe de vencer esse jogo.
As Torcidas Organizadas nunca vão acabar. Sempre haverá porrada nos jogos porque a sociedade brasileira é violenta e o futebol é bélico. Mas podemos minimizar, e muito, os índices de violência e evitar situações lamentáveis como a vivida pela família Pavilhão 9. E o futebol? Acabei nem falando dele no texto... Ele, razão da existência das Torcidas, mais uma vez foi derrotado. Solidariedade e conforto aos familiares das vítimas.

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