segunda-feira, 27 de abril de 2015

Para onde vamos agora?

Ensaio
13-23 de abril de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista

O contexto e a lógica que viabilizaram o aparecimento da coligação Syriza na Grécia, especificamente, estão diretamente relacionados com a “crise humanitária” que se abateu sobre aquela nação europeia, diante da aplicação dos “programas de austeridade” impostos a alguns países do continente. Como já é sabido, neste processo de ajustes, sempre se “socializa” os prejuízos financeiros em detrimento das conquistas alcançadas pela classe trabalhadora, aposentados e pensionistas. Ou seja, nessas adequações são eles os que “pagam o pato” - a conta.
Com efeito, questões ainda pendentes, de ontem e de hoje, martelam as nossas cabeças cotidianamente. É uma circunstância extremamente vexatória para todos nós, pois enquanto a situação se agrava por toda a Europa, principalmente, os partidos de esquerda continuam reafirmando as mesmas concepções políticas, engendradas ao longo do tempo pelo burocratismo stalinista na União Soviética. Por conseguinte, em face desse espectro que vai se perpetuando, apesar de todas as críticas, as esquerdas de modo geral insistem em se intitular marxistas-leninistas. Mas, o que de fato quer dizer isto? Nada mais do que um “dogma” criado por Stalin e seus asseclas, para justificar serem eles os herdeiros de Lenin, do legado político deixado por ele, antes e depois do triunfo revolucionário de 1917. O que serviu para justificar a perseguição dos que se opunham a essa descabida hegemonia, através da qual se eliminou covardemente a maioria dos dirigentes políticos daquela insurreição, acusando-os de contrarrevolucionários e de estarem a serviço do imperialismo... Uma despudorada e indescritível ignomínia!
Agora, quando aparecem outras experiências políticas por fora dos partidos tradicionais da esquerda, principalmente dos PCs que ainda subsistem com alguma inserção mínima no movimento de massas, percebe-se que estes grupos são carentes de conteúdos teóricos. Nada tem a ver com as tentativas anteriores dos movimentos revolucionários dos séculos 19 e 20, a não ser com as deformações promovidas pelo stalinismo, que continua influenciando muita gente, estimulando o patriotismo e o nacionalismo até as suas últimas consequências.
Então, nesse sentido, as alternativas que vão surgindo, tais como o Podemos (Espanha) e o Syriza (Grécia) não tem perspectivas de evoluírem na direção de um programa socialista de transição, embora se intitulem a si mesmas de esquerda. São elas eco das insatisfações da maioria das populações grega e espanhola, com certeza, mas não numa condição de atropelar e desmantelar a estrutura e o funcionamento do sistema capitalista. Muito pelo contrário, querem gerenciá-lo, buscando saídas emergenciais. Isto está bem claro no reformista “Programa de Salônica” do Syriza (renegociação da dívida grega; fornecimento de energia para as casas que não tem como pagar pelo aquecimento no inverno; construção de moradias para os sem-teto; aumento do salário mínimo, redução do imposto sobre os pobres e a classe média; subsídio para a compra de comida e transporte; e a ampliação do alcance da saúde pública). Contradições essas sem possibilidades de soluções no momento em que o capital busca recompor os seus ganhos.
Todavia, é até muito louvável que apareçam novas experiências políticas por fora dos PCs e de outros partidos, que já não respondem mais às demandas das sociedades em desagregação continuada, inclusive as de “caráter humanitário”. Por isso, pode-se afirmar que, aos poucos, o capitalismo está nos levando à barbárie e as associações consideradas de esquerda nada tem a oferecer de novo. Consequentemente, isto se dá no interior de um vazio que se estabelece nas lutas de classes do dia a dia, representando um relativo avanço por soluções aos impasses que se apresentam, entretanto sem nenhuma possibilidade de desenvolvimento de uma possível teoria revolucionária que na prática nos leve a transformação da sociedade capitalista a médio e longo prazo. Este é “nó górdio” dos problemas com todas essas coligações esquerdistas.
Ora, depois de tantas décadas de crises e mais crises, ao surgirem outras formas de organização, elas não passam de experimentos de volta ao que foi a socialdemocracia europeia, nas décadas de 50 e 60. É, como sempre, a procura de meios para salvar o capitalismo em decadência, combinando isto com algumas concessões aos que são efetivamente excluídos, através de conhecidas políticas assistenciais direcionadas a áreas mais carentes. O que nos leva a nomear, sem dúvidas, este expediente de “social-liberalismo”.
Em decorrência disso, o vácuo que se instaurou ao longo do tempo é imenso, e o stalinismo ainda se faz muito presente, distorcendo e promovendo equívocos, tornando muito difícil a total superação da crise sistêmica do capitalismo por uma via revolucionária. Entretanto, uma coisa é certa: não se pode analisar o processo de lutas do presente, sem uma avaliação crítica sobre o que aconteceu com a revolução russa. Não por acaso, a partir daquela importantíssima experiência histórica se estabeleceram “preceitos” que ainda habitam as mentes dos militantes socialistas e comunistas, evidenciadas em linhas gerais nos seguintes pontos: a) a ideia de “tomada do poder” por uma organização específica que surge para “dirigir” a revolução, b) o funcionamento de um governo em nome das massas, exercido por um “partido único”, e c) a supressão de todas as liberdades democráticas, com o objetivo explícito de se evitar quaisquer questionamentos à estrutura burocrática. Uma tragédia sem fim, que se processa numa visão presa ao passado.
Mas, mesmo assim, será que haverá tempo hábil para a construção de uma nova (outra) esquerda, que seja de fato socialista, revolucionária e anticapitalista em todos os seus aspectos? Dúvida crucial, pois se constata que, quando menos se espera, os PCs e outros partidos que também se dizem “marxistas” estão trazendo de volta algumas teses stalinistas com o inconsequente propósito de alicerçar um conteúdo político teórico para o presente, justificando assim as suas deletérias ações como um recurso válido e ainda útil nos tempos atuais. E isto quer dizer que, de outro lado, ainda não se tem as condições objetivas e subjetivas suficientes para se superar e desentravar este processo de alienação por parte das esquerdas, embora existam sinais perceptíveis e contundentes da necessidade de se construir, com a máxima urgência, correntes de pensamentos críticos em direção de uma opção clara pelo socialismo, por uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

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