segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bóris Schnaiderman, uma vida para o século XX

Ensaio
30 de março de 2015
Por Alberto Luis, mestrando em Sociologia pelo IESP/UERJ.

O ano é 1925. O cenário é a entrada oficial da cidade de Odessa, a monumental Escadaria Richelieu para ser mais preciso. Numa tarde de nevoeiro, mais movimentada que de costume, a rua que dá acesso às escadarias está tomada por homens, mulheres e crianças, com seus lenços, toaletes e chapéus. Alguns parecem obedecer às orientações gestuais de um homem de fronte avantajada e alta estatura que pela gravidade da expressão certamente não notara a presença de animadas crianças a brincar displicentemente nas proximidades. Era um ano difícil em Odessa como em toda Rússia, que sete anos antes vivera um surto de otimismo e agora estava suspensa sobre sua própria sorte. Os transeuntes eram, na realidade, atores amadores e profissionais provenientes do Teatro de Moscou em ação para uma película. O homem de fronte avantajada e franzida, Serguei Eisenstein. A película, O encouraçado Potemkin. Uma das crianças, o nosso Bóris, com apenas sete anos de idade.

Um ucraniano nos trópicos
A imagem do pequeno Bóris a presenciar a filmagem do clássico soviético é quase uma das imagens dialéticas do próprio Eisenstein com sua capacidade alegórica de expressividade total. Sem afetações na fala ou na escrita, discreto e tímido, a imagem parece reproduzir uma tensão essencial e definidora de sua vida e personalidade: a de ter sido talhado para ser coadjuvante na vida ao mesmo tempo em que a História teima em empurrá-lo para os grandes acontecimentos. Schnaiderman é uma das figuras mais extraordinárias saídas da segunda onda de emigração desencadeada na Rússia no pós-1917 (a primeira foi em 1905). Muitos russos emigraram para a França, mas a família Schnaiderman veio para o Brasil onde um de seus membros, um primo do pequeno Bóris, já havia se estabelecido. Com o fim da NEP, ficou difícil para o patriarca da família, Salomão Schnaiderman, manter sua ocupação principal: o comércio. De ascendência judaica, a escolha do país acabou sendo determinante para a família, conforme se comprovou depois com a ascensão do nacional-socialismo na Europa. Nas décadas subsequentes, movidos por causas diversas, uma onda de emigração europeia para o Brasil cruzaria os destinos de figuras como Jacó Guinsburg, Anatol Rosenfeld, Otto M. Carpeaux, dentre outros que assim como Schnaiderman dariam contribuição inestimável às letras nacionais.
Nascido em 1917 em Úman, na Ucrânia, entre as duas revoluções, a de fevereiro e a de outubro, em uma família pequeno-burguesa, viveu desde cedo a condição de estrangeiro. Já na escola em Odessa, Bóris lembra ter sido marginalizado por não saber cantar a Internacional: “De início, eu frequentei o jardim de infância onde as crianças cantavam a Internacional, eu não sabia cantar a Internacional, então eu era um marginal. Marginal porque eu vinha de um ambiente burguês e lá as crianças não cantavam a Internacional. Depois eu comecei a frequentar a escola e tinha um amigo que era pioneiro, que usava lenço vermelho no pescoço. Lembro que eu tinha vergonha de andar com ele, e quando ia chegando perto de casa eu desviava dele. Desviava dele porque todo mundo falava mal, era um ambiente em que se estava esperando a queda do regime bolchevique […] Contaram que muita gente lá em Odessa ficava de binóculo olhando, esperando a esquadra inglesa vir para acabar com os bolcheviques” [1].
Bóris cresceu no Brasil em um ambiente hostil. Na escola, enfrentou dificuldades com a língua e a cultura locais. Em casa, no fim dos anos 20 e nos anos 30, falava russo. Desde cedo habituado a ler clássicos como Púchkin e Gogol – leituras que talvez fossem consideradas adultas no Brasil, mas que na Rússia do pequeno Bóris encontravam calorosa acolhida entre as crianças e adolescentes – apegou-se logo à literatura brasileira, criando gosto por José de Alencar e Machado de Assis. Encaminhado para o estudo da Agronomia, tornou-se, meio a contragosto, engenheiro agrônomo. A salvo de Hitler e Mussolini, judeu russo que é, não passou contudo ileso pelo Estado Novo varguista. Serviu na FEB durante a Segunda Guerra, experiência que relataria somente nos anos 60, após longas ponderações, em seu reeditado pela Cosac Naify Guerra em Surdina. Trajetória insólita nas forças expedicionárias brasileiras: nas poucas folgas durante a estadia italiana, ia ao cinema, frequentava antiquários e tornou-se amigo de um dono de castelo que lhe fornecia livros da sua biblioteca senhorial. Ligou-se e desligou-se do Partidão, ruptura desencadeada pelo escândalo que foi a torpe invasão da Hungria pela URSS. Caminhos tortuosos até a realização literária.
Somente nos anos 40 iniciaria uma contribuição efetiva para a crítica e a tradução encaminhando-se definitivamente para o trabalho literário. Fez sua estreia com pseudônimos, período a que se refere apenas en passant, e somente em 1959 imprimiu seu nome em uma antologia de contos de Tchekov. Mas antes disso já colaborava com jornais, como, por exemplo, a coluna “Letras Russas” do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, dirigido por Décio de Almeida Prado. Foi uma importante porta de entrada para o mundo literário brasileiro: nessa fase conheceu Jacó Guinsburg, Roberto Schwarz e Anatol Rosenfeld, a quem assistiu aos seminários livres de filosofia que durariam até a morte do alemão radicado. O sempre vivo interesse pela literatura russa no Brasil o levou a Universidade de São Paulo na condição de professor entendido em letras e literatura russa, envolvimento cultural que no contexto de fins dos anos 60 era incompatível com a obtusidade histérica dos militares: foi intimado e manteve-se sempre eticamente firme.
Nunca parou de estudar, escrever e traduzir. A inquietude intelectual o levou ao encontro da semiologia e da fenomenologia, e foi um dos principais responsáveis pela introdução de Bakhtin, Lotman e Jakobson no Brasil, tendo este último vindo ao país pelas suas mãos. Mesmo depois, quando do surgimento de outros tradutores do russo para o português, como Paulo Bezerra, a figura de Schnaiderman continua a ser a principal referência para os estudiosos de língua e cultura russa bem como para os apaixonados leitores dos clássicos entre nós.

Miséria e esplendor da tradução
A abertura teórica e a capacidade de diálogo preservada por Schnaiderman foi responsável por encontros memoráveis. Foi na ocasião de um Congresso Literário realizado na Faculdade de Assis que, por intermédio de Anatol Rosenfeld, veio a conhecer o jovem kamikaze da literatura Haroldo de Campos, já um entusiasta do seu trabalho. Em seguida, vieram visitas domiciliares e a frequência a um curso de russo na USP, ao qual se somou o mais novo dos Campos, o Augusto. A identidade parece ter sido imediata e as afinidades eletivas deram vazão às até hoje melhores traduções da poesia russa para o português do Brasil bem como ao desenvolvimento de uma teoria da tradução. Os irmãos Campos apresentaram a Schnaiderman gente como Pound e Joyce. Schnaiderman lhes apresentou as genuínas poesia e literatura russas.
Desenvolveram uma técnica de tradução que se não era inteiramente nova – e eles próprios remontavam a origem da concepção sustentada a Pound - causava espanto aos olhares e ouvidos mais tradicionais. Sendo um dos temas mais instigantes e problemáticos que atravessa a teoria literária, a filosofia da literatura, a linguística e a semiótica, o tema da tradução foi objeto de reflexão por figuras tão díspares quanto Walter Benjamin e Ortega y Gasset, para ficar apenas em dois nomes da primeira metade do século XX. A perspectiva da tradução como recriação do original por eles sustentada, é audaciosa por contestar a literalidade e pelos recursos utilizados. Uma espécie de atualização da tradução na modernidade pós-vanguardas históricas, com inovações formais dantes inconcebíveis. O resultado do primeiro trabalho do trio foi a publicação em 1968 pela Civilização Brasileira do volume Poesia russa moderna. O conhecimento do russo, da semiótica e da literatura por Schnaiderman; o cosmopolitismo linguístico de Haroldo (que conhecia a fundo o grego clássico e koiné, bem como o hebraico e o inglês); e o tino musical de Augusto deram vazão a peças antológicas como a tradução do poema de Maiakóvski “Sobre isto – a Balada do Reading Gaol”, em geral o calcanhar de Aquiles dos tradutores, que em língua alguma (até então) haviam conseguido conciliar uma sonoridade minimamente aprazível com o sentido original. A solução não poderia ser mais criativa como se pode constatar na versão assinada por Augusto [2].
O fato é que Bóris Schnaiderman manteve uma proximidade e uma relação horizontal de colaboração com jovens artistas e escritores incomum em nosso meio intelectual, onde graça o cabotinismo. Certa feita foi apresentado a Paulo Leminski pelos mesmos irmãos Campos, companheiros que eram na Revista Invenção. Leminski fora desde sempre um leitor dos russos e fora encaminhado à casa do velho ucraniano para uma conversa amena. Na segunda visita, o poeta voltou sozinho e levou consigo uma tradução de poema de Maiakóvski de sua própria lavra, a que Schnaiderman teceu elogios tanto da métrica quanto da tradução em si. Quando publicou o Catatau, incluiu Bóris na lista daqueles para quem enviaria um exemplar, ao lado de Octávio Paz. Algum tempo depois, quando do lançamento de Agora é que são elas e sua áspera recepção pela crítica, o já estabelecido professor universitário resenhou o não-romance leminskiano destacando as inigualáveis qualidades estéticas do “romance enjeitado”. A avaliação de Schnaiderman diz tanto sobre a obra resenhada quanto do crítico: o romance (ou não-romance?), tal como ocorrera com o Catatau, era obra inovadora, criativa mesmo para os padrões da vanguarda da época e Bóris foi o único crítico sensível às suas inovações formais, as mesmas que fizeram muitos dos seus pares torcerem o nariz diante de um “português que não vem somente dos livros, mas da rua, dos bares, dos conjuntos musicais jovens, dos auditórios de televisão” [3], de um português impuro, mas por isso mesmo pulsante. Ressalvas semelhantes às sacadas de seus manuais empoeirados pelos críticos do mainstream contra o livro de Leminski seriam elencadas contra nomes como João Antonio que não teve a sorte do contato com Schnaiderman e quase apodreceu nos escombros da marginália literária nacional.

Dos escombros da URSS, uma nova literatura russa
A recepção da literatura russa no Brasil remonta a fins do século XIX e início do século XX. Por uma via francesa – país que viveu sequenciais “modas russas”, primeiro no século XIX, em parte por estratégia político-diplomática, e depois no século XX, em grande parte decorrente da presença de imigrantes do leste europeu no pós 1917 – houve sempre um público leitor dos clássicos russos no Brasil. De Monteiro Lobato a Lima Barreto, passando por Machado de Assis, há referências a nomes como Puchkin, Gogol, Tolstoi e Dostoievski. As traduções, contudo, eram em sua maioria precárias, feitas a partir de traduções francesas ou de outras línguas. Foram muito difundidas as traduções de Rachel de Queiroz para a José Olympio nos anos 50. Pode-se pois considerar o trabalho de  Schnaiderman como um marco na história da literatura russa no país, na medida em que imprimiu um tom profissional e de qualidade indiscutível às suas traduções.
Foi novamente ele quem nos aproximou dela pela segunda vez, após a crise do Leste. Com o fim da URSS houve a revelação de artistas e trabalhos em diversas áreas que estavam sufocados há décadas pelo regime político soviético (a perspectiva das artes é, aliás, privilegiada na análise da sociedade russa sob o socialismo de Estado sobretudo durante e pós-Stálin). Grande parte da produção intelectual teve que ser feita nos subterrâneos da vida cultural do país por mais de cinquenta anos, conforme relata Bóris em seu Os escombros e o mito. Ele esteve na Rússia em 1987 e notou um clima diferente, mas só em 1991 iniciou a redação do livro.
De uma situação culturalmente explosiva nos primeiros anos da transição ao socialismo, com o florescimento das vanguardas (suprematismo, cubo-futurismo, construtivismo, abstracionismo, etc.), passou-se nos anos 30 ao dirigismo político das artes e a uma estetização da política. Com o afastamento das esferas de decisão de figuras de alta competência intelectual e grande sensibilidade no trato com questões culturais - como o Ministro da Instrução Pública dos primeiros anos da revolução Anatole Lunatcharski, o comunista da galícia austríaca Karl Radek e o assíduo frequentador dos cafés franceses durante o exílio, León Trotsky - restou a inépcia dos funcionários do Estado.
O resultado não poderia ser outro. Escritores foram duramente perseguidos e até assassinados. Afora os casos até hoje não esclarecidos das súbitas mortes de Maximo Gorki e Serguei Eisenstein, na conta da burocracia dirigente da URSS e o seu braço policial, a KGB, constam a destruição de escritos inéditos de Isaac Babel, preso e fuzilado pelo stalinismo; poemas de Óssip Mandelstam, um dos melhores da sua geração, também preso e fuzilado por ter feito um poema satírico contra Stálin, no qual o carrasco aparecia com imensos bigodes de barata com pessoas chaleirando em entorno; Joseph Brodsky foi condenado por vadiagem porque não tinha emprego definido e fazia poesia.
A fotografia, que teve grande desenvolvimento no ocidente, foi prejudicada pela ideologia do realismo socialista e sua concepção ingênua e vulgar de “real”: um dos mais talentosos fotógrafos soviéticos, Rodtchenka, teve problemas por fazer um retrato de um jovem pioneiro olhando para o alto, postura inaceitável em um revolucionário que deveria “olhar para a frente”! E o fotógrafo oficial de Stálin, I. S. Nappelbaum, reprimiu-se a ponto de seus melhores trabalhos terem sido encontrados apenas após a Glasnost. Muitos outros passaram anos em campos de trabalhos forçados, condenados por “pornografia” (leia-se: retratos artísticos de corpos humanos). O humor, que tinha atrás de si a inexprimível figura de Nicolai Gogol, teve sua continuidade trágica com Mikhail Zoschenka, considerado pelas autoridades um “hooligan”, e Ana Akhmatova, caracterizada pelos informes oficiais da KGB como uma mistura de “prostituta e freira”. Um aperitivo do tratamento dado às mulheres pela polícia política da URSS [4]. As obras tinham tiragens limitadas e a maioria dos leitores em potencial liam de fato somente a crítica da obra publicada nos veículos do partido. Quadros de artistas como Malheveci, Kandinsky e Chagall eram guardados no depósito do Museu Hermitage em Leningrado até os anos 70 por não atenderem aos critérios arbitrados pela burocracia (redundantemente) leiga e ignóbil que na curta duração de 1917 a 1930, como na imagem de Saturno por Goya, devorou os filhos da própria revolução e vomitou excrescências por meio século.
A lista de obscenidades é grande, e Bóris nos põe em contato com um universo subterrâneo de renovação das letras russas. É graças a esse trabalho que podemos hoje saber da existência da poesia de Guenadi Aigui ou da pintura de Filonov, artistas cuja distância espaço-temporal não é nada perto da misteriosa afinidade entre nossos povos [5]. Mais uma vez, é pelas mãos de Schnaiderman que a Rússia se-nos abre.

Simplesmente, Bóris
Bóris Schnaiderman está próximo de completar cem anos. O fará no entremeio das comemorações do aniversário da Revolução Russa. Grande tradutor, grande escritor, intelectual já consolidado no meio acadêmico no Brasil, Schnaiderman é um herói para os da minha geração. Sua figura, do alto do seu quase um século de vida, exprime para nós o mesmo fascínio inexplicável que nutrimos pelas vastas estepes russas, pelas perturbadas e perturbadoras personagens de Dostoiévski, pelas impagáveis caricaturas de Gogol (que finalmente me fez entender a proximidade etimologicamente vital entre húmus e humor), pelo amor vulgar, mas por isso mesmo tocante e verdadeiro das páginas do último Tolstoi de Senhor e servo, pela sensibilidade amarga dos vagabundos incuráveis de Gorki cuspindo seus rancores na cara espessa das noites perterburguesas.
A simplicidade de Bóris contrasta com o perfil arrogante e autocomplacente de parte daqueles que compõe o quadro da intelligentsia brasileira, radicada (exilada) em grande parte nas universidades. Nas entrevistas, é direto e sincero, não floreia as palavras e reconhece quando não é capaz de aprofundar um tema. Conta que foi um estudante do ensino médio que o fez refletir mais a fundo sobre certos aspectos da tradução ao questionar uma sua leitura de Tchekov em que traduziu um determinado termo russo por “pamonha”. Afora isso, há mais de cinquenta anos, todas as vezes que pegamos um desses russos para ler estamos em sua companhia, que tenta ser silenciosa e discreta, mas que por força do espírito é sempre marcante. Por isso que, semana passada, transitando pelo bairro da Tijuca aqui no Rio de Janeiro, quando uma colega esticou o dedo, oferecendo-me o tema deste texto e apontando para uma casa de frente suntuosa, dizendo: “Vê Alberto, o professor Schnaiderman morou ali”, repliquei imediatamente, entre pasmo e emocionado, uma retificação: “O Bóris morou ali”. Porque pra mim é assim: Bóris, simplesmente Bóris.

Notas
[1] SCHNAIDERMAN, Bóris. Série Encontros. Azougue Editorial. Organização de Sergio Cohn. Págs. 101-102.
[2] No original russo, a transliteração do poema é: “Niemólod ótchen lad balád/no ecli slová boliát/ i slová govoriát pro to, tchto boliát/ molodiéiet i lad balád”. Diz-nos Augusto: “há todo um trabalho de elaboração em torno desses 'L' que percorrem todas as linhas. É interessante ver como Maiakóvski trabalhava a forma. Sua tradução literal seria mais ou menos essa: 'As baladas não são nada jovens/ mas se as palavras que estão sentindo dor/ falam daquilo que as faz sentir dor/ então isso rejuvenesce o modo das baladas' […] Eu traduzi assim: 'Velha é a melodia das baladas/ mas se as palavras combalidas/ falam daquilo que as abala/ de novo soam belas as baladas'. Tentei preservar toda aquela música do poema […] Talvez esse exemplo dê uma ideia do trabalho de tradução que nós três realizamos juntos” (SCHNAIDERMAN, Bóris. Série Encontros. Azougue Editorial. Organização de Sergio Cohn).
[3] SCHNAIDERMAN, Boris. Em torno a um romance enjeitado.
[4] No recém-publicado livro Ano zero – Uma História de 1945, pela Companhia das Letras, o escritor e jornalista Ian Buruma traça um quadro da situação das mulheres e da ação dos soldados aliados na Alemanha e no Japão recém-conquistados. Com uma prosa ágil e farta documentação, vale a pena leitura. Quando o assunto eram os aliados, mas, sobretudo o Exército Vermelho, que tinha ordens expressas de seus superiores para se “divertir”, o estupro era uma maldição que acompanhava a derrota de um povo. Mulheres preferiam o suicídio praticado em larga escala em ilhas do Japão. Stálin declarou que “os soldados que tinham cruzado milhares de quilómetros a sangue e fogo tinham o direito de se divertir um pouco com as mulheres”. De pensar que vinte anos antes o criador do Exército Vermelho, L. Trotsky, estava preocupado com a linguagem, modos e higiene das suas tropas, dá uma dimensão do fosso que passou a existir entre o projeto de 1917 e aquele efetivamente implementado na URSS pós-1930.
[5] Foi Maiakóvski quem manifestou certa vez uma percepção melancólica do Brasil: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. E Luiz Gonzaga, com a consciência luminosa do compositor popular, apontou as semelhanças entre o frevo e a dança cossaca.

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