quinta-feira, 30 de abril de 2015

As redes e as ruas: uma breve consideração sobre o ciberativismo

Ensaio
24 de abril de 2015
Por Bárbara Mota, bacharel em Ciências Sociais pela UFPE

Eles continuam online. Quando vem a repressão física, eles se retiram das ruas, rediscutem online. Não têm líderes nem programa, mas têm a capacidade de resistir e de renascer a qualquer momento. Isso só acontece porque há a capacidade de autocomunicação de massa que os permitiu existir.
Manuel Castells

As redes digitais fundamentadas na internet são cada vez mais presentes na intermediação da nossa comunicação, impactando em valores, julgamentos e interpretações acerca da realidade. Após a popularização da Web (a interface gráfica da internet) em meados da década de 1990, os usuários passam da condição de receptores das informações transmitidas na mídia para serem também potenciais produtores e emissores de ideias. Desse modo, não é necessário grandes conhecimentos técnicos para manipulação das plataformas digitais resultantes desse invento: blogs, fóruns de discussão, petições online, convocação para eventos, derrubadas de sites, dentre outros. Por isso, a Web potencializou a digitalização das nossas informações (culturais, financeiras e pessoais) e, consequentemente, o aumento do compartilhamento de bens simbólicos (músicas, filmes, livros, etc.) que não necessitam de um suporte físico para lhes conferir existência.
Nessa perspectiva, a difusão da Web evidenciou também a emergência de táticas de ativismo que ultrapassam as fronteiras geopolíticas.  O uso da rede para reivindicação de causas sociais, ambientais, de defesa da privacidade e do compartilhamento de bens simbólicos, igualmente se beneficiou da velocidade e do baixo custo da comunicação para ações de protesto no ciberespaço ou para a criação de espaços alternativos de comunicação. Este último é o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que possui o veículo online Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Segundo um dos ativistas do movimento, João Pedro Stédile, a classe trabalhadora deve construir novos meios de comunicação que sirvam para disseminação de informações "que expliquem o mundo e os fatos pelo olhar do trabalhador". O intuito é que iniciativas como essa propicie diante da opinião pública uma maior pluralidade nas representações acerca das reivindicações do movimento, sem a intermediação e subordinação dos meios de comunicação tradicionais, que comumente criminalizam o movimento.
Um dos primeiros famosos usos políticos da internet como evidencia Cleaver (1998) foi em 1994, quando os zapatistas utilizaram a Web para tecer um novo modo de disseminação da sua luta para além das fronteiras do México sem a intermediação e restrição de meios de comunicação comerciais, como a Televisa, estação de TV controlada pelo governo e campeã de audiência no país. Um dos desdobramentos desse acontecimento ocorreu em 1999, quando das manifestações contra o encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC), com adesão de ativistas em âmbito local e global mobilizados por meio das redes digitais. Essas manifestações, igualmente conhecidas como Batalha de Seattle [1], serviram também para ecoar críticas aos vieses de veículos midiáticos hegemônicos que criminalizavam as manifestações, como foi o caso do jornal The New York Times [2]. Os espaços híbridos – evidenciados pela conexão entre as manifestações nas ruas e a internet – se tornaram ainda mais notórios após o advento da Web 2.0 [3] na última década. Movimentos como Os Indignados, na Espanha, a Primavera Árabe, no Oriente Médio, e as Jornadas de Junho [4], no Brasil, permitiram organização, mobilização e tomadas de decisões, independentes de lideranças centrais ou de modelos programáticos consistentes. É com base nisso que autores como Castells (2013) destacam a importância da comunicação na formação e na prática dos movimentos sociais, permitindo as pessoas se conectarem através de redes interativas que condicionam a sobrevivência, a deliberação e a expansão das mobilizações autonomamente. Por isso, geralmente essas ações ocorrem no âmbito online em articulação com o espaço offline. É importante sublinhar que a quase instantaneidade na ocorrência das mobilizações não compromete a sua durabilidade seja no âmbito virtual ou físico. Castells acrescenta: "Eles continuam online. Quando vem a repressão física, eles se retiram das ruas, rediscutem online. Não têm líderes nem programa, mas têm a capacidade de resistir e de renascer a qualquer momento. Isso só acontece porque há a capacidade de autocomunicação de massa que os permitiu existir". O ciberativismo pode ser visto, portanto, como um modo de democratização da comunicação na medida em que se busca questionar o modelo de informação unidirecional da mídia comercial, exigindo espaços e voz próprios.

Notas
[1] As manifestações contra a “Rodada do Milênio” também são conhecidas como N-30.
[2] O jornal publicou uma notícia afirmando que os ativistas contrários à reunião da OMC atiraram pedras, coquetéis molotov e excrementos em policiais. Embora o jornal tenha admitido posteriormente que o fato não era verídico, o artigo foi reproduzido por outros veículos midiáticos de grande repercussão. A correção da informação também foi ratificada pela própria Câmara da cidade de Seattle. "Police Brace For Protests In Windsor And Detroit", 04 de junho de 2000. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2000/06/04/us/police-brace-for-protests-in-windsor-and-detroit.html>.  Acessado em 25/04/2014 e "Report of The WTO Accountability Review Committee Seattle City Council", 14 de setembro de 2000. Disponível em: <http://www.seattle.gov/archive/wtocommittee/arcfinal.pdf>. Acessado em 25/04/2014.
[3] Com a Web 2.0, termo cunhado por Tim O'Reilly, ocorre o aumento da interatividade e da produção de conteúdos por parte dos usuários através de sites de redes sociais, tais como Twitter, Facebook e Youtube.
[4] Esta é uma das denominações dada aos inúmeros protestos ocorridos pelo país em junho de 2013, que inicialmente contestavam o aumento da tarifa do transporte público.

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