sexta-feira, 20 de março de 2015

“O samba do criolo doido"...

Ensaio
12 de março de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Nos últimos anos, temos sido bombardeados por discursos de que o Brasil hoje está bem melhor, com algumas pessoas saindo do alarmante nível de miséria absoluta e outras mais se inserindo no mercado consumidor, devido a uma mínima redistribuição da renda através de programas assistenciais. Isso que acontece não deixa de ser “uma meia-verdade” viabilizada pelo populismo de plantão, que combina uma “atuação social” com apoio explícito aos grandes grupos econômicos, os quais sustentam o capitalismo brasileiro, apesar da crise sistêmica em escala mundial. Sabe-se que existe uma margem financeira para isso, que não coloca em xeque a lucratividade dos negócios do dia a dia, visto que outras formas de abusos empregatícios e de extração da “mais-valia” serão criadas, aberta ou sutilmente, em sentido contrário.
Por ironia da História, saiu-se, depois de décadas, dos regimes ditatoriais para se vivenciar de novo populismos de vários matizes, que fundamentam as premissas de uma esquerda ufanista e inconsequente na defesa do “estado de coisas” em benefício dos apaniguados de sempre, que não são os trabalhadores e os demais segmentos da população que, na maioria, ainda continuam vivendo em precárias condições. Para esses tais governos, híbridos, basta se apresentarem como “anti-imperialistas” mesmo sem promover nenhuma mudança estrutural e, assim sendo, encontrar meios para respaldar a economia capitalista nacional, em termos de um “social-liberalismo” fortemente desarticulador das associações populares. Política essa que é direcionada a minimizar os problemas crônicos de uma sociedade que se encontra em plena desagregação, tanto do ponto de vista social como econômico, num processo que tende a piorar ao longo do tempo.
Mas, mesmo assim, alguns grupos, sejam ou não partidários, deixam de se aperceberem que, essas políticas de atendimento aos setores em condições de exclusão, visam tão somente mantê-los em estado de letargia. Não interessa aos “donos do poder” político-administrativo, de fato, que eles sejam estimulados a se rebelarem e questionarem o Estado de classe que organiza e determina, de certo modo, as nossas vidas, sob a tutela dos capitalistas e das suas várias corporações empresariais. E, neste sentido, não há nenhuma possibilidade de se estabelecer uma administração de “representantes” dos trabalhadores, submetendo o capital ou os seus agentes aos interesses da população em geral. Impossível isso ocorrer neste contexto histórico de não transformação sócio-econômica. Ora, o que se dá é o gerenciamento explícito por parte de alguns gestores que “se dizem” de esquerda, mas que se colocam a serviço do sistema e pactuam as migalhas que a centro-direita já aceita serem atendidas, sem maiores problemas.
É, por conseguinte, a extrapolação da indigência política-ideológica em que sobrevivem as esquerdas brasileiras, instalando uma confusão de princípios e estratégias, resumida na utilização de uma política ilusória e contraproducente, em detrimento de avanços mais significativos e consistentes frente à exploração recorrente das massas, que é parte da essência extremamente egoísta e gananciosa do sistema capitalista.
Diante dos desmandos nos serviços públicos e nas empresas estatais, alguns grupos políticos, incluindo a CUT, o MST e a UNE, que apoiam o atual governo intitulado de popular e de esquerda, mas dependente de alianças com os mais variados setores conservadores da sociedade brasileira, apregoam a ideia de que existem pessoas “infiltradas” no seio da administração pública federal. Assim, segundo este raciocínio, o banqueiro Joaquim Levy e a ruralista Kátia Abreu, por exemplo, não foram (?) convidados a serem ministros por quem se reelegeu presidente, ou seja, eles simplesmente “desceram de paraquedas” e assumiram os ministérios da Fazenda e da Agricultura “por conta própria”. O que é até hilário, sem dúvida... Se não fosse trágico!
E se vivo estivesse, o reconhecido e inigualável humorista Stanislaw Ponte Preta, autor do oportuno título em destaque, com certeza iria ironizar essa “pretensa esquerda” que vive de ilusões políticas e ainda repete os equívocos do passado, enganando a si mesma e, ao mesmo tempo, a todo o povo que sempre busca encontrar “alguma luz no fim do túnel” independentemente de governos.
Com efeito, em face disso, urge que se construa desde já uma nova (outra) esquerda que seja verdadeiramente, socialista, revolucionária e anticapitalista, e que esteja disposta a apoiar e promover novas formas de organização pela base, alicerçando um possível poder popular local em todas as comunidades, com total autonomia e independência. Isto é, sem amarras, controles ou aparelhamentos, que só desvirtuam essas iniciativas.

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