terça-feira, 24 de março de 2015

Existencialismo, ética e marxismo: A obra de Sartre

Capa da mais recente edição brasileira
Resenha [1]
24 de março de 2015
Por Mauricio Gonçalves, militante social e doutorando em Ciências Sociais pela Unesp [Araraquara-SP].

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Em 1957 Mészáros se encontrou com Sartre em Paris. Tentou colocar em andamento, o que infelizmente acabou não acontecendo e que serviria para um enriquecimento mútuo, um diálogo sincero entre Lukács e o existencialista pouco depois da repressão soviética na Hungria e quando os dois estavam em vias de desenvolver os seus grandes projetos de síntese, posteriormente materializados na Ontologia do ser social e na Crítica da razão dialética. A obra de Sartre adquire inteligibilidade como uma possível expressão desse encontro falhado.
Nos dias de hoje, em tempos de crise estrutural do capital em cronificação, a mensagem de Sartre de que “[...] deve haver uma alternativa; como indivíduos, devemos nos rebelar contra esse poder, esse monstruoso poder do capital” é não só atual, mas urgente. E, como “os marxistas, de modo geral, não conseguiram dar voz a isso”, Mészáros, que não adota “as ideias filosóficas de Sartre, mas compartilha plenamente de sua meta” (p.11) realiza uma rigorosa análise da trajetória do filósofo francês.
Todavia, parece que uma das dimensões mais importantes do livro reside provavelmente no que podemos considerar como a exposição de um método dialético de avaliação histórica da práxis que engloba uma profunda investigação teórica aliada a uma rica consideração prática, ambas enquadradas no processo histórico em que se inserem. Desnecessário dizer: para a execução desse método somos colocados necessariamente em contato com alguns dos pressupostos fundamentais da dialética materialista de Mészáros. Para além dos impressionantes comentários sobre a obra de Sartre que encontramos no decorrer da leitura, esses elementos metodológicos tornam o livro ainda mais instigante.
Ainda que contenha alguns episódios da vida pessoal de Sartre, não se trata, evidentemente, de uma biografia. A presente publicação é uma reedição ampliada e revista da versão de 1991 publicada no Brasil pela Editora Ensaio e que teve como base a edição original em inglês de 1979. Está dividida em três partes. As duas primeiras evidenciam o desenvolvimento de Sartre e sua busca pela liberdade. A terceira pretende responder: “até que ponto pode Sartre chegar, em seu desenvolvimento do pós-guerra, na resolução das tensões com que nos defrontamos em seu quadro ontológico e em que extensão é possível para ele modificar sua concepção ontológica original através da “experiência da sociedade” e do desafio da história?” (p.210).

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Sartre realizou autocríticas em relação a algumas de suas obras e fases anteriores. Ele diz, por exemplo, que “diante de uma criança moribunda, A náusea não tem valor algum” (p.23) ou “considero o marxismo a insuperável filosofia de nosso tempo e [...] julgo a ideologia da existência e seu método ‘compreensivo’ como um território encravado no próprio marxismo que a engendra e, simultaneamente, a recusa” (p.239). Qual a natureza dessas autocríticas? São rupturas? É possível avaliar o desenvolvimento de Sartre de modo mais totalizante e dinâmico? De que maneira? O autor de Para além do capital nos diz que

“Para considerar o conjunto de uma obra global, é preciso integrar a totalidade de cada um dos pontos e fases num movimento dinâmico, sem eliminar a vitalidade existencial dos elementos individuais. [...] o único modo de proceder propriamente histórico é utilizar o próprio movimento como princípio de seleção aplicado a todos os pontos e fases específicos. Consequentemente, esses elementos serão iluminados em todas as particularidades do desenvolvimento de um autor, as quais representam os elos do movimento global e, assim, mostram a tendência fundamental de seu desenvolvimento” (p.99).

Mészáros realiza uma análise que contém duas dimensões: uma interna e imanente, que capta o evolver da filosofia de Sartre e seus distintos momentos em conexão, e outra externa, que avalia as vicissitudes do tempo histórico em que o filósofo viveu e as ações que ele desenvolveu frente a elas. As duas dimensões estão em reciprocidade dialética: o engajamento de Sartre e os problemas da história com que se depara influenciam sua obra teórica e, por outro lado, sua obra teórica dá direção às suas ações. Mas, há um elemento predominante e integrador que estrutura, dá unidade e torna inteligível todo o desenvolvimento. Assim, as “rupturas” e autocríticas são colocadas em uma perspectiva determinada. Na dialética da continuidade e descontinuidade, Mészáros afirma que em Sartre “o traço mais notável é a predominância fundamental da continuidade através de uma multiplicidade de transformações” (p.79). O que ele faz, portanto, é mostrar como essa dialética da continuidade e da descontinuidade ocorre especificamente no caso de Sartre. Para o filósofo húngaro,

“Sartre – não só como jovem, mas também como autor de uma obra ética escrita aos sessenta anos – cita a afirmação de Kant “você deve, logo você pode”, e insiste na primazia e na centralidade da práxis individual face a face com as estruturas coletivas e institucionais. Uma afirmação como essa atribui, com toda a clareza, um lugar proeminente ao mundo da moralidade. [...] Essa primazia e centralidade atribuídas à práxis individual, intimamente relacionada com a problemática da liberdade é que define a especificidade do projeto fundamental de Sartre com toda a variedade de suas manifestações” (p.29-30).

O livro é uma aplicação por Mészáros do método dialético anteriormente citado.

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O existencialista é um filósofo total. Ele não apenas escreve filosofia, mas procura realizá-la em sua vida durante todo o tempo. Sartre, ao seu modo, não “apenas interpreta o mundo, mas busca transformá-lo” para, assim, “abolindo sua filosofia, realizá-la”, ainda que essa abolição ocorra durante um momento extático infinitesimal. Os elementos fundamentais da filosofia de Sartre que são marcados pela “unidade de sua intransigente busca do absoluto” (p.91) vão se elucidando por suas diversas fases. Mészáros assim as divide: dos anos de inocência (1923-1940) e heroísmo abstrato (1941-1945), passando pelos de militância por conta dos impactos da guerra [tendo como núcleo o intercâmbio entre política e moralidade] (1946-1956), desenvolvendo-se pela tentativa de fundamentação de uma dialética da história (1957-1962) e, finalmente, buscando uma via para demonstrar o “universal singular” (1963 em diante). A estrutura dinâmica do sistema filosófico de Sartre, segundo Mészáros, é formada, principalmente, pelos seguintes elementos combinados e em desenvolvimento: (a) concepção ontológica subjetivista de matriz fenomenológico-existencial [herdada em certo sentido de Heidegger]: “Aliás, Sartre tem de pagar um alto preço por adotar grande parte da ontologia truncada de Heidegger, que só pode descobrir a si mesma e, por isso, retornar em círculos para dentro de si própria” (p.39); (b) moralidade como lugar privilegiado e que tem como base imperativos de viés kantiano: “[...] a liberdade de nossa ação é tornada subjetivamente plausível meramente em termos da possibilidade de uma escolha autêntica – a escolha de nosso ser. A filosofia kantiana “persegue” O ser e o nada do começo ao fim (e, por certo, não apenas O ser e o nada) [...]” (p.189), “Contudo, essa ligação com o legado kantiano e seus corolários não se dá sem sérios problemas” (p.258) ; (c) negatividade de fundo: “[...] a negatividade categórica de seu pensamento torna-se inteligível como uma filosofia moral latente que jamais alcança um ponto de repouso” (p.132), “A tarefa inventiva de “construir a humanidade” é explicada “não como a construção de um sistema (ainda que seja o sistema socialista), mas como a destruição de todos os sistemas” (p.61); (d) falta de uma categoria adequada de mediação: “Devemos nos lembrar, a esse respeito, de seus opostos categoriais e categóricos: [...]  “liberdade” versus “contingência”, “ordem cultural” versus “ordem natural”, “indivíduo” versus “coletivo” etc. – todos esses pares categoriais de opostos são, na visão dele, irredutíveis” (p.309); (e) dualismo ontológico e metodológico: “A humanidade é amiúde subsumida na ontologia subjetivista do indivíduo sartriano. Esse entrelaçamento de “indivíduo” e “humanidade” – sistematicamente predisposto a favor do “indivíduo singular” – tem consequências de longo alcance. A ontologia de Sartre é dominada por uma forma de dualismo extremo” (p.309); (f) centralidade da práxis individual: “Dada a determinação ontológica inerentemente individualista de tais multiplicidades [individualistas], sua “unificação” nos grupos-em-fusão só poderia ser transitória e historicamente insustentável” (p.320).
A combinação específica desses elementos, e de alguns outros, impele Sartre a um compromisso radical e sem concessões com sua própria filosofia em processo de totalização. As antinomias existentes não o imobilizam. Ao contrário, levam-no adiante. O seu dualismo ontológico longe de paralisá-lo, move-o. Seu sistema de pensamento é ativo. É dinâmico.

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Entre 1948-49, Sartre busca fundar um “agrupamento democrático revolucionário” independente [RDR] com “quem quer que se distanciasse abertamente dos partidos políticos” (p.221) e que buscasse a unificação das “exigências revolucionárias com a ideia de liberdade, [...] ainda que não indicasse as maneiras de conseguir isso e que se baseasse em um apelo irreal e direto à consciência dos indivíduos” (p.84). Depois dessa experiência fracassada, tenta estabelecer relações com o PCF, que nunca chegam a ser tranquilas. Diz que “a colaboração com o PC é tão necessária quanto impossível” (p.223). Procura influenciá-lo “de fora”, e sua relação incômoda com o partido gera rupturas com outros intelectuais conhecidos: Albert Camus e Merleau-Ponty. Essa relação tensa com o PCF se encerra em 1968, com o Maio francês. Ele entende, então, que a ruptura é “absolutamente necessária” (p.223).
Em alguns dos episódios mais importantes do pós-guerra as posições de Sartre e do partido sempre tiveram diferenças fundamentais: (a) a vitória da revolução cubana (1959); (b) a repressão soviética ao Outubro Húngaro de 1956; (c) a guerra colonial francesa na Argélia (1954-62); (d) a primavera de Praga de 1968; (e) o Maio francês do mesmo ano.
Quando levamos em conta os dois lados desta equação, percebemos que a relação de Sartre com o marxismo hegemônico de sua época não podia deixar de ser contraditória. Especialmente porque o marxismo oficial do pós-guerra com que se defrontou era, ele mesmo, muito problemático, mesmo depois do XX Congresso de 1956, e fundamentalmente antagônico à busca de Sartre pela liberdade. Além da conhecida frase “o marxismo é filosofia insuperável de nosso tempo”, há outra sobre Guevara atribuída a Sartre: “O mais completo ser humano de nossa época”. Vinculando ambas ao Sartre diante do “desafio da história”, percebemos certos princípios que podem fornecer chaves de análise para futuros estudos acerca da relação entre a filosofia de Sartre e alguns pressupostos marxistas: o humanismo, a radicalidade militante e o antiburocratismo. A frase sobre Guevara não está presente no livro. Mas o que fica muito claro após sua leitura é que o “marxismo existencialista” ou o “existencialismo marxizante” de Sartre é interna e necessariamente anti-stalinista. De fato, teria sido um acontecimento histórico da mais alta relevância, especialmente para a “renovação do marxismo” após a segunda guerra mundial, se esses elementos anti-stalinistas da filosofia e da práxis de Sartre se encontrassem com o marxismo teoricamente rigoroso de Lukács.

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Como já dito, a terceira e última parte do livro trata do confronto de Sartre com a experiência da guerra e suas consequências. Ainda que não haja uma análise robusta sobre a Crítica da razão dialética, como a que existe sobre O ser e o nada na segunda parte, Mészáros segue com seu método dialético de avaliação histórica da práxis e nos apresenta um diagnóstico verdadeiramente crítico. As conclusões a que chega não dão margens a subterfúgios: não há “nós-sujeito” em Sartre (p.260); ele “acreditou em uma viabilidade histórica continuada para o mal chamado ‘capitalismo organizado’” (p.260); “ele nunca submete os fundamentos materiais da ordem social do capital a uma crítica sólida”, pois “direciona suas observações críticas somente às dimensões política e ideológica/psicológica” (p.252); “Sartre formula a crítica mais radical da burguesia enquanto permanece dentro do horizonte da classe burguesa” (p.250). Mas ainda não é aqui que tal método encontra, ele mesmo, a sua síntese.
Mészáros nos mostra que mesmo com todos os problemas filosóficos de seu sistema [e de sua interferência dialética em suas práticas] Sartre contribuiu, e é bom que seja dito, muito mais do que a maioria dos marxismos do pós-segunda guerra para a causa da emancipação humana. O aspecto truncado e insuperável de suas antinomias e de todos os elementos combinados de sua ontologia continham virtualidades para desenvolvimentos relativos amplos, ainda que perspectivados por limites absolutos intransponíveis, que o conduziram à frente e fizeram com que passasse uma mensagem de engajamento total e de responsabilidade humana compartilhada contra as consequências cada vez mais desumanizadoras do sistema sócio metabólico do capital. Para Mészáros, Sartre não superou as balizas limitantes das bases de sua própria filosofia. Mas, paradoxalmente, foi a partir dessa mesma filosofia, que sempre desenvolveu e levou às últimas consequências em cada contexto, através da “experiência da sociedade” e do “desafio da história”, que ele nos deixou uma das mais grandiosas contribuições no século 20 na busca pela liberdade.
É por ter conseguido realizar uma análise com tamanha profundidade e perspicácia dialética que podemos dizer que Mészáros realizou uma aufhebung em relação a avaliações marxistas anteriores sobre Sartre: conservou, negou e elevou a um patamar superior. A partir de agora, torna-se bastante difícil entender de modo efetivamente crítico, com seus limites e suas virtudes, a filosofia do existencialismo humanista de Sartre, “nosso mais extraordinário companheiro de armas” (p.328), sem considerar seriamente A obra de Sartre.

Notas
[1] Resenha do livro A obra de Sartre: busca da liberdade e desafio da história, de István Mészáros. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012. 332p. Publicada originalmente em Contra a Corrente n° 11, Revista marxista de teoria, política e história contemporânea, ISSN 1984-5898, Edições Centelha Cultural, 2014.

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