terça-feira, 31 de março de 2015

A saída é pela esquerda. Mas qual esquerda?

Ensaio
24 de março de 2015
Por Renato Correia, ativista social, operário e estudante de Direito.

Em meio à turbulenta e complexa conjuntura que passa o Brasil é necessário realizar algumas reflexões, tirar ações concretas para as lutas de classes e renovar nossos sonhos e esperanças. Não se trata de um simples esforço reflexivo. É necessário um processo crítico e autocrítico desde as grandes greves operárias no fim da década de 1970, já que foi nesse período que a classe que vive de seu trabalho, o sujeito do processo emancipatório social, superou a luta social foquista que vinha dominando parte da esquerda revolucionária no Brasil e abriu caminho para reorganização das forças sociais contra-hegemônicas, estabelecendo assim novas bases de atuação contra as classes sociais dominantes.
Esta análise inexoravelmente passa pelo Partido dos Trabalhadores (PT), já que esse partido foi o resultado organizativo das lutas da classe operária brasileira. Junto com o partido, no âmbito urbano das relações de trabalho, também se consolidou um novo sindicalismo materializado nacionalmente na Central Única dos Trabalhadores (CUT). No campo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) cumpriria esse papel. Já nos anos 1980 o PT, ou pelo menos sua corrente majoritária ligada a Lula, apontava para caminhos opostos aos que pensavam muitos militantes. Mesmo durante parte da década 1980, o PT ainda se apresentava como única alternativa institucional para os que lutavam contra o capitalismo e sociedade de classes. Organizações como o Partido Comunista do Brasil (PCB), que durante décadas hegemonizaram as forças de esquerda brasileira e que optaram em ficar fora do PT, lograram por décadas a marginalidade, convertendo-se apenas em uma espécie de ‘satélite’ do Partido dos Trabalhadores.
Com os anos 90, as adaptações do PT ao regime burguês se aprofundaram. Diversas concessões foram realizadas pelos dirigentes nacionais do partido para se manterem na gestão do Estado (seja em âmbito municipal, estadual e recentemente federal). O partido que outrora fora fundado por operários, camponeses, militantes socialistas e intelectuais de esquerda, agora acolhia empresários, burgueses e políticos carreiristas. Ainda assim, suas bases sindicais e populares mantinham um verniz de classe à agremiação.
Os anos 2000 chegaram e com eles mais uma crise capitalista. As burguesias nacional e internacional já não podiam governar o Estado brasileiro sozinhas, e para seguir a maximização de sua mais-valia, recorreram a um PT já completamente oposto a uma organização fundada por homens como Florestan Fernandes, Mario Pedrosa, Sergio Buarque de Holanda e outros: já estava profundamente inserido no jogo da democracia burguesa.
Foram necessários 12 anos de governo do PT para que os trabalhadores realizassem suas experiências e assim tirassem suas conclusões. Registre-se, contudo, que esse processo ainda se encontra em curso. Mas a verdade é que os trabalhadores esperavam muito mais do PT na condução do Estado brasileiro. Todavia, pouco foi feito. O que deu errado? Por que deu errado? O que fazer agora? Que novos caminhos trilhar e que lições nos deixa o PT? Pode não parecer, mas também precisamos responder a antigas indagações: é possível mudar o PT? Existem condições de modificar o PT e transformá-lo em algo absolutamente diferente do que ele é hoje? Por fora do PT, que alternativas viáveis temos? Também se faz necessário uma reflexão autocritica das forças socialistas de esquerda, ou seja, dos setores sociais comprometidos com as causas emancipatórias de classe, que pensam e lutam por outro mundo para além do capitalismo.
Desde a primeira eleição de Lula em 2003, os agrupamentos que não aderiram ao governismo petista foram jogados na marginalidade, tendo muitas vezes que buscar meios táticos para romper com o isolamento. Essa situação levou – e ainda leva – muitas dessas organizações e militantes de um extremo a outro, entre o oportunismo e o sectarismo.
A conjuntura do Brasil, principalmente depois das últimas eleições combinadas com a crise estrutural do capital em âmbito internacional, tem levado diversos setores combativos, bem como as massas de trabalhadores, para diversas alternativas. As esquerdas socialistas desde as jornadas de junho de 2013 ainda tentam lentamente se localizar na nova situação apresentada. As forças sociais hegemônicas organizadas da direita e da extrema direita também tentam se apresentar como alternativa política para os trabalhadores.
Este é um dos momentos ainda embrionários do embate por outra sociedade, em que as lutas de classes chegam numa encruzilhada e cobram dos ativistas sociais, dos militantes combativos e dos socialistas revolucionários respostas e soluções organizativas. Parece-me que está na hora de juntar os cacos, olhar para frente e construir novas alternativas de lutas, obviamente percebendo os erros do PT e sempre debatendo uma perspectiva revolucionária para a crise.
Concretamente, não há uma opção de esquerda que possa apresentar-se como alternativa aos trabalhadores. As existentes como PCB e PSTU ainda sofrem de um grande sectarismo. Para além do PCB e PSTU, a alternativa de esquerda em âmbito nacional que se tem é o PSOL. Contudo, ele caminha sobre os mesmos trilhos do PT.
Cabe saber se estas organizações – PCB, PSOL e PSTU – terão condições de se modificar. Caso contrário, uma nova alternativa de classe, de esquerda e que seja anticapitalista e diferente do PT, mas também diferente do PCB, PSTU e PSOL, terá que surgir inevitavelmente da construção de algo novo. Ou seja, uma nova organização que tenha a capacidade de abarcar os sonhos e as tarefas históricas de todas as classes sociais que vivem de seu trabalho.

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