terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O populismo de ontem e de hoje e as suas insolúveis contradições

Ensaio
17 de fevereiro de 2015
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Com certeza, muitas são as questões para se “destrinchar” sobre o que se conhece do populismo em seus inúmeros aspectos, tanto de ontem como de hoje. Expressão política recorrente que teve ao longo do tempo e ainda tem muitas raízes por toda a América Latina, principalmente. Todavia, passados anos de ditaduras, retornou com todas as suas implicações, impingindo uma marca em governos que se dizem de esquerda e popular. Foi assim na Venezuela com o “chavismo” - inventando uma “revolução bolivariana” como se fosse possível um resgate histórico das “visões” de Simon Bolívar, em meados do século 19, para os tempos atuais. E partir daí outras tantas correntes políticas populistas latentes também passaram a se manifestar, sinalizando uma proposição aparentemente contrária ao imperialismo estadunidense, mas sem questionar a economia capitalista em seus próprios países. “Soberania e independência” mesmo que isto não passe de uma simples e surrada encenação.
Seja de direita ou de esquerda, o populismo atua com a mística de defesa dos pobres e oprimidos da sociedade em que vivemos, oferecendo-lhes algumas migalhas através de programas ou ações ditas sociais. Sabe-se que há uma margem razoável para uma exequível “redistribuição” de renda, que não afeta em nada os lucros dos setores econômicos e financeiros, que são, de fato, os apaniguados. As políticas econômicas aplicadas por esses tais governos considerados “populares” visam favorecer as diversas corporações empresariais em geral e dessa forma “possibilitar” um suposto “desenvolvimento” social, um provável crescimento econômico que seja até “sustentável” na atual situação de crise sistêmica do capitalismo, que continua afetando as principais economias. Entrementes, mudanças de fundo não são sequer viabilizadas, pois a manutenção do sistema tal como se encontra é o bastante, enquanto convém uma retórica meramente anti-imperialista, um discurso que seja absorvido como de cunho “revolucionário” e que justifique esta política conservadora, mas travestida de esquerda.
É nesse contexto de crises regulares que, apesar do aprofundamento dessas significativas alterações de curso, esse processo político se faz novamente presente, apresentando perspectivas nacionalistas e patriotas, ao mesmo tempo em que passa ao largo da luta anticapitalista do dia a dia. O “inimigo” é o Imperialismo tão somente. A ação nefasta do Capital na sua diligência para alcançar ganhos cada vez mais altos, destruindo o meio ambiente, reduzindo salários e extraindo mais valia a todo custo, não é levada em conta. Muito pelo contrário. Para o populismo o que importa é “vender” a ilusão de que o capitalismo pode ser bem administrado e que a “riqueza” pode ser distribuída entre patrões e empregados. Todos vão ganhar, com a amenização das “práticas econômicas abusivas” através de normas que “irão corrigir as distorções e promover reformas”.
De modo geral, é exatamente isso o que as esquerdas oficiosas defendem no presente: uma enganosa concepção de “avanços” pautados pelo compromisso de combinar “políticas sociais” dirigidas aos segmentos mais vulneráveis da sociedade junto com o apoio explícito aos grandes monopólios, visando a sustentabilidade da economia e o gerenciamento de obstáculos que se contrapõem ao projeto. É dito e repetido que mais pessoas estão sendo incorporadas ao circuito econômico, saindo de um estado de pobreza crônica. O que em parte é uma verdade, conquanto questionável em face da impossibilidade de continuarem a aumentar a capacidade de consumo. Isto tem um limite que não poderá ser ultrapassado, uma vez que a melhoria na renda de cada um não será suficiente para alcançar patamares mais altos no estágio em que se encontram. Mas, o que importa isto? Ora, para o populismo o mais importante é continuar “alimentando” ilusões e estimulando sonhos que não serão possíveis de se realizar. O resto é “intriga” das oposições, de quem não ganha eleições ou gosta de “contestar” governos.
Com efeito, nesse sentido, não é possível aceitar essa perniciosa rotina de distorcer os fatos e taxar os críticos de esquerda como se estivessem a serviço da direita quando, no entanto, quem constitui e viabiliza as alianças fisiológicas com a centro-direita são eles mesmos, os populistas. Fato incontestável que deveria causar um amplo e forte rechaço por parte da esquerda autêntica e revolucionária contra todo um conteúdo predominantemente autoritário, uma nociva intolerância às manifestações populares independentes e um reacionário antipluralismo, isto sem se falar da continuada corrupção endêmica, embora isso venha explicitar o caráter danoso e o retrocesso político que está implícito no populismo como uma prática em evidência, persistente, mesmo que ultrapassada. Circunstância que, apesar de toda a dissimulação que se estabelece, fica cada vez mais clara e perceptiva para quem procura exercitar o senso crítico como um contraponto essencial, uma anteposição conceitual imprescindível aos dias de hoje.
Isso, em termos históricos, tem tudo a ver com a herança stalinista que se estabeleceu por mais de 90 anos no seio das esquerdas em todas as partes do mundo. Metodologia esta que adquiriu uma expressão universal e impingiu às lutas da classe trabalhadora a exacerbação do sentimento nacionalista, sedimentado num patriotismo inconsequente desde que a “pátria” não é e nunca foi das massas exploradas, mas sim dos capitalistas - estes, os “verdadeiros” donos dos meios de produção e de todas as riquezas produzidas em todo e qualquer país.
Sem essa leitura e compreensão críticas dificilmente vamos superar os impasses que se apresentam e muito menos organizar conscientemente os trabalhadores e os demais excluídos do sistema, que não tem como ser reformado. Um dilema a ser superado através de saídas que se fazem necessárias.

Recife (PE), 21 janeiro de 2015.

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