domingo, 22 de fevereiro de 2015

Paraná transbordante, a cavalos

Ensaio
20 de fevereiro de 2015
Por Betto della Santa, é jornalista, tradutor, trabalhador em educação na Universidade Estadual de Londrina (UEL), recém-doutor em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e leciona Mundo do Trabalho, Comunicação Popular e Cultura Operária no Centro de Educação, Comunicação e Arte (CeCa).

Paraná; braçada de rio-Mar. Do tupi-guarani: Pará+Nã (semelhante ao Mar).
Para Raquel Varela

O governador do Paraná, Sul do Brasil, é Playboy que surfa férias no Caribe. Um exemplar da espécie que nunca trabalhou um só dia na vida. Ao Norte do Estado, no interior pioneiro (e pé-vermelho) onde nasceu, fez por merecer a alcunha “Piá de Prédio”. Tal qual gurizinho que é não – propriamente – o dono da bola mas, antes, privadíssimo proprietário de campos de futebol. Fôsse emoldurar figura tão particular para o fundo típico dessa determinada casta dirigente, diria tôdo contrário do quê asseverou o antropólogo social David Graeber sobre a classe trabalhadora [1]. Ele não se importa.
Seu prenome é Carlos Alberto e, por razão que razão alguma explica, a população aceitou de bom grado chamá-lo por apelido carinhoso, Beto, antes do que pelo austero sobrenome, Richa. Quiçá o tom algo beligerante tenha ferido buliçosa suscetibilidade ao cordial cidadão brasileiro? Pois bem. A dita “americanalhização” da política, de-há muito, converteu o sistema eleitoral da ordem em alternância de poder entre Partido da Socialdemocracia Brasileira (PSDB), que nunca fora socialista, e Partido dos Trabalhadores (PT), que já faz tempo deixou de ser proletário. No Paraná, igual ao desidratado São Paulo, tocou reeleição “tucana”. Apodo injusto, de bela ave. Nomes fora de lugar.
O “pacote de maldades” – aprovado em regime de tratoraço, fast-track ou comissão geral – sequer foi a debate público, em plenário aberto e comissões específicas, antes de sua votação. O Parlamento – literalmente, “lugar para se falar” – fora, então, amordaçado. As medidas incluíram um calote salarial a 1/3 das férias, o assalto armado à previdência social de 200 mil servidores, a destruição final da educação escolar, brutal (e invulgar) restrição orçamentária em Ciência e Tecnologia, ataque frontal à autonomia universitária, não-pagamentos e não-contratações. O grau de desfaçatez (e de cinismo) necessário para se fazer passar por natural ao descalabro é algo já muito sintomal.

Começo da onda
O cálculo da relação de forças em cena previa o curso à governança + passividade política. Escorados nas altas votações do partido do assim-chamado Mal Maior (se é que existe tal coisa como um Mal Menor) para o governo (e a presidência), é justo inferir que asseclas, epígonos e sefandijas da comitiva a mando (ou a soldo) do Estado (ou do mercado) tenham se equivocado. A história social de grupos subalternos e o povo que vive para trabalhar é tal qual a água dos rios. Cheios de curvas inescrutáveis, caídas d’água e céleres correntezas a que se sucede a tarda calma da paragem, a qual, porém, também se faz mover; lenta, mas irreversivelmente. Não são simples, daí, seus gestos.
Do outro lado do Oceano, como cartas de longe, assistia-se ao tiquetaquear da Puerta Del Sol madrilenha e à insurreição da Plateía Syntagmátos ateniense. O Sul do Norte pôs o mundo de pernas para o ar. A ousadia antiausteridade pode ser contagiante. Não é possível aferir até que ponto os multitudinários atos do Estado espanhol e grego foram notícia relevante ou combustível para a real detonação da rebeldia dos trabalhadores em educação, saúde e bem-estar social mas, juntamente ao obsceno autorreajuste de rendas do governador Richa (R$ 33,7mil), benefícios de cargos comissionados, auxílio-moradia e bolsa-gasolina, é algo improvável pensá-los como algo “à parte” do tôdo.
Se espezinhar aos servidores perante a opinião pública era feijão-com-arroz dos anos mais duros à ofensiva neoliberal – para mídias, governos e patrões –, seu esporte predileto foi atacar educadores. Após cumprir jornadas de trabalho extenuantes e vil ritmo laboral professores eram obrigados a assistir, nos noticiários de TV, que o dilema social e a demora cultural da Nação repousavam sobre as suas já douridas costas. Não à-tôa altíssimas taxas de doenças psíquicas, síndromes de “burn-out” e o absenteísmo ao lugar de trabalho figuram já estatísticas oficiais. A destruição do público e o declínio do docente fizeram educadores uma categoria vulnerável mas, também, combativa.

Cavalos soltos
Não só se mostraram a vanguarda enraizada, na greve geral do funcionalismo público, como protagonizaram momentos a ver, literal e literariamente, surreais e surrealistas. O Centro Cívico, onde fica o Legislativo do Paraná, não deixa de ser uma mostra arquitetônica nada fortuita do quê Curitiba, a capital, quer representar face à federação. Curitiba é regional e (inter)nacionalmente reconhecida por uma sua não-tão-moderna tradição: gentrificação, higienização e contrarreforma urbana que, racional e instrumentalmente, afastou das pessoas o controle dos fluxos e lugares da cidade. (Diga-se de passagem; a prefeitura de Curitiba foi a sua antessala para daí ascender ao Palácio Iguaçu).
A maré de gentes que realizou ato de ocupação da assim-chamada “casa do povo” fez também adjudicar novo sentido à sede legislativa. O simples ato de apropriação (e ressignificação) de loci públicos, que toma assento na ocupação agenciada pelo novo sujeito coletivo, é desafio à ordem que se impõe sobre o espaço social (e o tempo histórico). Afirma-se aí (e ora) a soberania sobre lugar antes vedado à pulsão plebeia, revelam-se confidências de Estado cochichadas à “sombra do poder” e se faz genuinamente público o espaço que se ia, progressivamente, con-fundindo ao privado. Derrubam-se as grades a separar: a casa do povo, do povo da casa. Nomes retomam o devido lugar.
Primeira cena: PMs recusam-se exercer ordem de reintegração de posse subscrita pela Justiça. Segunda cena: parlamentares instalam sessão secreta, clandestina e ilegal no refeitório do prédio. Terceira cena: um camburão, escoltado, é destinado a transportar deputados estaduais do Paraná… Quando o impossível se torna inevitável um divisor de águas se faz. Avizinham-se os perigos (e oportunidades) das esquinas perigosas da história. Um colega de departamento fez-me recordar, por meio do realismo fantástico das letras polonesas, o quanto cavalos (sim, cavalos!) tem a ver com tais horas. Uma short-story literária a indagar reinado, súdito e “arqui-homem de Estado” [2]. Insólita fábula de debates mudos, sinecuras matrimoniais e jogos de espelhos. Eis o seu arremate:
No lombo do cavalo, o melindre derradeiro, se disfarça de glória final. O mandatário em fuga infame travestiu-a, por redução ao absurdo, num triunfal galope. A metanarrativa historiográfica da política soviética relampejou-me à memória tal qual uma vigorosa antítese; da vida à arte. No Tomo I de História da Revolução Russa de Leon Trotsky narra-se a gênese em devir do momento decisivo da quebra de hierarquia militar, face à multidão insurrecta, na Praça Znamenskaia. O princípio da “marcha à vitória”, em São Petersburgo, foi quando os rebeldes investiram por entre as patas dos cavalos do bloqueio cossaco [3]. Massas anônimas, antes que grandes homens, Império em ruínas e o destino coletivo em acto. A revolução não elegeu o seu passo à vontade. Seu início?

Sob o “ventre dum cavalo”, isto é, a história feita «de baixo». Feita por mulheres e homens livres.
.essa é sua tarefa e desejo:
. os cavalos soltos
.       desejam tornar-se
.                    e tornar-nos, em trote,
.                                    cavalos de areia, praia,
.                  solo,
.                           soltos,
.                      mar
Trecho final do poema de Danilo Gusmão, cavalos soltos:
https://poemismo.wordpress.com/tag/roberto-della-santa/.

Witold Gombrowicz. O Banquete. Bakakai. Rio de Janeiro: Ed. Expressão & Cultura, 1968.
Leon Trotsky. Cinco Dias. História da Revolução Russa. São Paulo: Ed. Sundermann, 2007.

1. GRAEBER, David Rolfe. Caring too much: the curse of the working class. The Guardian: London, Mar. 26th 2014.
2. DEMETRIO, Silvio Ricardo. A galope, direto ao coração da escuridão. Londrina: Jornal de Londrina, 11 Fev. 2015.
3. O termo, Cossaco, chegou ao português através do nome francês, Cosaque, o qual deriva, de expressão polonesa – de origem ucraniana –, Kozak. Esta palavra advém de termo utilizado em turco, Qazaq, que significa “aventureiro”, “intempestivo” ou “homem livre”; pela primeira vez referida – por escrito – em crônica rutena de 1395. Os Cossacos (Russo: каза́ки; Ucraniano: коза́ки; Polonês: kozacy) são povos oriundos de estepes e regiões do Sudeste eurasiático, principalmente Ucrânia e Sul da Rússia, que se estabeleceram mais tarde em zonas do interior da Rússia oriental. Os Cossacos são conhecidos por sua ousadia, coragem e aptidões militares – especialmente na cavalaria –, mas também por sua autossuficiência. A sua relevância política – durante sua integração na Rússia – demandou a criação de uma unidade militar própria. Originalmente o povo da Rutênia era constituído por fugitivos do campo, que escapavam ao domínio dos warlords, varsovitas e moscovitas, rumando assim às estepes do Sudeste eurasiático onde se radicaram. A narrativa historiográfica de Leon Trotsky ressalta a insubmissão aos oficiais do Czár, e simpatia pelos revoltosos, no excerpto acima, mas também a sua brutalidade e selvageria, em outras passagens, em situação não-revolucionária.

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