terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Je suis hypocrite!

Ensaio
19 de janeiro de 2015
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

Qual seria a reação da comunidade cristã internacional e dos judeus, se um pasquim publicasse a charge de Jesus Cristo ou Maria ou do profeta Moisés em decúbito dorsal, de nádegas para cima, nu, deixando à mostra o saco escrotal e o membro viril? Imediatamente o Vaticano, o Patriarca de Constantinopla, o Estado de Israel ou o Conselho Mundial das Igrejas Cristãs protestariam veementemente contra o insulto e a humilhação praticada contra os símbolos sagrados de milhões e milhões de fiéis no mundo inteiro.
Pois foi exatamente isso o que ocorreu com o semanário satírico francês. As igrejas muçulmanas na França já tinham pedido à justiça francesa medidas punitivas contra outras charges publicadas pelo jornal anteriormente. Mas, baseada no princípio da "liberdade de expressão", o poder judiciário da França negou qualquer tipo de censura ou recriminação contra os editores da revista. Naturalmente, o jornal se sentiu encorajado a continuar sua campanha de ridicularização dos símbolos sagrados do islamismo, contrariando um de seus principais postulados: a proibição da reprodução iconográfica dos símbolos religiosos do Islã. A França tem hoje o maior contingente de imigrantes africanos, árabes e muçulmanos.  Ela própria foi potência colonial na África e na Ásia. Depois da descolonização, vários desses "súditos" franceses do além-mar emigraram para a nação francesa, em busca de melhores dias. A situação desse enorme contingente de imigrantes negros, pobres e islamitas piorou muito com a crise econômica e social provocada pela união macroeconômica, também conhecida como "Tratado de Maastrich”. Com a autonomia limitada para enfrentar os problemas decorrentes da aplicação do tal tratado em seus países, produziu-se o que o autor português Boaventura Santos intitulou de "fascismo social", ou seja, atribuir aos imigrantes tudo de ruim e desgraçado que ocorre na Europa. Uma modalidade de neofascismo disseminou-se na Alemanha, na Holanda, na Itália, na Espanha e na França estimulado pelo crescimento político e eleitoral da direita francesa, resultando em xenofobia, fundamentalismo e eurocentrismo. Um discurso chauvinista que dizia: “a Europa para os europeus (do norte e do centro)”; “Fora com os imigrantes, eles vem tomar os empregos dos nacionais, rebaixar o salário dos empregados, sobrecarregar a seguridade social, [...]”. A consequência é o que estamos assistindo hoje na França: o ataque dissimulado contra os imigrantes estrangeiros mascarado de uma guerra de civilizações. A cultura judaico-cristã contra a barbárie do mundo árabe e muçulmano. Discurso muito conveniente para os partidários de Marie Le Pen, da política externa norteamericana e dos que pensam que a globalização só pode ser feita com a livre exportação de bens, serviços e capitais, não de pessoas e ideias.
Quem entende de cruzadas e perseguição religiosa é o cristianismo e o judaísmo. Um, porque perseguiu muita gente. E o outro, que carrega a eterna imagem da vitimização, embora hoje o Estado de Israel é quem persegue os palestinos. É uma ironia do destino que perseguidores e perseguidos se juntem contra o islamismo e seus símbolos sagrados. Querem desencadear uma nova cruzada contra o Oriente? Pois assumam as consequências dessa política de intolerância e xenofobia, porque a tensão só vai aumentar cada vez mais. E a sensação de insegurança dos cidadãos cristãos, judeus e europeus vai se tornar real, quando pipocarem os atos de reação contra essa cruzada no mundo inteiro.
Não haverá paz verdadeira entre os povos e as culturas, enquanto não for respeitada e valorizada a diversidade cultural e religiosa que caracteriza essa mundialização das culturas. Ou se exercita o diálogo inter-religioso, intercultural, procurando somar aquilo que de bom e positivo cada um tem a oferecer à humanidade, ou todos nós perdemos.

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