domingo, 1 de fevereiro de 2015

A pantera dos olhos dormentes

Ensaio
01 de fevereiro de 2015.
Por Paulo Magon, servidor público e poeta.

“Terça-feira gorda! É Carnaval! Brinquemos! Todos estamos nos nossos líricos blocos. Somos todos brincantes, delirantes dos mil encantos. Uma vez por ano: liberdade, sonho e desejo...”.
Anayde Beiriz

Em 18 de fevereiro de 2015, quarta-feira de cinzas, lembremos os 110 anos de nascimento e 85 do “encantamento” da poeta paraibana Anayde Beiriz. Libertária e feminista, escandalizava a retrógrada sociedade da Paraíba dos anos 1930. Anayde não era bem-vista por conta das ideias progressistas que alimentava. Participava ativamente dos movimentos políticos e intelectuais e envolvia-se em acontecimentos artísticos frequentando saraus literários. Defendia a participação das mulheres na política, numa época em que sequer tinham direito a voto. Em 1928 inicia romance com João Dantas, jornalista ligado ao partido republicano paulista, opositor de João Pessoa então Presidente (Governador) do Estado da Paraíba. Invadido o escritório do Dantas, a mando de João Pessoa, são encontradas - não armas como se esperava - cartas amorosas e poemas eróticos de Anayde ao seu amante. Visando atingir a honra de João Dantas, o jornal governista "A União" e outros órgãos da imprensa estadual, ligados à situação, publicam o conteúdo das correspondências e poesias. Em 26 de julho de 1930, Dantas entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara três tiros contra o peito de João Pessoa. Detido em flagrante é recolhido à casa de detenção daquela cidade onde em 3 de outubro de 1930 é encontrado degolado em sua cela. Dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente por suicídio através de envenenamento, Anayde Beiriz é sepultada como indigente no cemitério de Santo Amaro na cidade do Recife.

Vai um exemplo da verve da poeta:

Não! Eu não hei de chorar
Tu me conheces bem pouco.
Dizes que procurarás me esquecer
Desafio-te que o consigas.
As marcas das minhas carícias não foram feitas pra desaparecer facilmente.
Mil outros lábios que se encrustarem na tua boca,
Não arrancarão de lá a lembrança minha.
Apraza-te que eu guarde meus beijos?
Guardá-los-ei, por enquanto...
Advirto-te, porém, que beijos são como vinhos raros
Quanto mais velhos, melhor embriagam...
E tu, que fizestes pra mim muito mais desejada
Porque tenho que te arrancar do domínio de outra mulher.
Tens medo do meu amor?
O meu amor é impulsivo, é torturante, é estranho, é infernal.
Ouve contudo o que te digo:
Hás de experimentá-lo ainda uma vez...
Então veremos, quem de nós dois chorará.

Anayde Beiriz

Homenagem à poeta - chamada por seus opositores: "Mulher-Macho"

"O meu coração é um vulcão encoberto por uma geleira".
Anayde Beiriz

Paraibana, forma-se professora em 1922. Destaca-se como primeira aluna da classe. Aos 17 anos alfabetiza os pescadores e seus filhos na Vila de Cabedelo-PB. Em 1925 ganha concurso de beleza e dá vazão a uma sensibilidade poética que choca modelo de moralidade na conservadora sociedade local. Causa escândalo com sua maneira de vestir-se, uso de decotes e corte de cabelos muito estranhos - 'à lá garçonne'. Incita desprezo e furor na maioria das mulheres da província. Incompreendida, ansiosa, eternamente insatisfeita - de acordo com suas próprias palavras - chama atenção por seus olhos negros que lhe valem apelido, em círculo dos seus poucos admiradores amigos: a pantera dos olhos dormentesO romance secreto entre Anayde Beiriz e João Dantas, inadvertidamente para os dois amantes, vai ser o estopim da revolução de 30 com a morte de João Pessoa, assassinado pelo amado da poeta.

Pequeno poema para Anayde e João:

Beiriz e Dantas

Sim! Romeu e Julieta!
Sim! Tristão e Isolda!
Sim! Muito Vênus, pouco Marte!
Arte e morte: Beiriz e Dantas.

Tantas cartas e poesias
Heresias dos tontos quanto
Violaram segredo lírico
Verídico encontro tanto

Não! Grécia e Troia!
Não! Aquiles e Heitor!
Não! Muito Ares, pouco Afrodite!
Morte e sorte: João e Anayde.

Juntos, amor e guerra e amantes
Constantes da vera moderna fera
Ainda verão nos poemas de primavera
Os olhos dormentes de Anayde... A Pantera!

Paulo Magon

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.