quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sobre a “depressão aguda” e suas consequências imprevisíveis

Ensaio
21 de janeiro de 2015
Por Leal De Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Prólogo
Estou lhe enviando um texto escrito por mim há três anos sobre a "Depressão aguda e suas consequências imprevisíveis" que tem tudo a ver com a morte do companheiro de lutas Gilvan Rocha. Desde 2009 quando teve confirmado um diagnostico de "diabetes nível 2" ele ficou muitíssimo abalado, pois isso representava um quadro de inúmeras limitações em sua vida e militância política. E associado a esta "nova situação" logo se instalou um processo depressivo exacerbado pelas precárias condições objetivas das lutas atuais, que não encontram os meios para superar os impasses político-ideológicos. A herança nefasta do stalinismo ainda reforça as distorções e os conflitos insolúveis entre as classes, sem se ter uma resposta que leve à melhoria da consciência política da classe trabalhadora e dos demais excluídos do sistema. Portanto, ao perceber que a doença, o peso da idade e falta de tempo hábil para construir uma corrente de pensamento socialista revolucionária e anticapitalista, não lhe era nada favorável, ele foi aos poucos perdendo a esperança em continuar vivendo. Sabe-se que, às vezes, é muito difícil se entender tal gesto, tal ato desesperado, porém a depressão é uma doença gravíssima e altamente destrutiva.

Sobre a “depressão aguda” e suas consequências imprevisíveis
(Uma visão pessoal sobre esta nefasta doença, principalmente no seu estado mais crítico e altamente destrutivo)

Muito se tem falado, ultimamente, sobre os tais processos depressivos, que envolvem pessoas de todas as classes sociais e também de todas as faixas etárias, indistintamente. Doença silenciosa e traiçoeira.
Agora, o fato, em si, está se tornando uma verdadeira “praga”. Uma propensão do mundo globalizado do presente, no qual o Brasil é hoje o país que mais tem casos de depressão, em toda a América Latina.
Num esforço para se entender o que se passa com as pessoas acometidas dessa nefasta enfermidade, estudiosos têm buscado inúmeras respostas. Já se identifica cerca de uns 15 tipos, e outros tantos poderão vir a serem descobertos, desde que se vão esclarecendo alguns de seus aspectos mais marcantes, que passam a ser mais facilmente perceptíveis. Uma descoberta repleta de surpresas.
Todavia, a que nos causa maior apreensão e contrariedade é a sua manifestação no seu estado agudo e, consequentemente, mais grave. O que poderíamos chamar popularmente de “depressão aguda”. Situação limite, de conteúdo altamente destrutivo, fatal, na maioria dos casos.
Quando uma pessoa se encontra em tal condição depressiva, ela expressa uma angústia recorrente, contínua, ininterrupta, que aprofunda a sua “sensação” de vazio interior e de total perda da sensibilidade diante da vida, do conviver socialmente. Ao mesmo tempo em que, passa a ser “vítima” de uma dor incessante, insuportável, intensa, que esgarça e dilacera a sua alma, em mil pedaços. Que destrói a sua resistência física e mental em todos nos níveis.
Muitas delas passam a “viver” num estado de letargia, de falta de apetite e ansiedade, associado a crises de pânico. Sempre oscilando entre um ou outro momento de aparente “tranquilidade” e de forte “agitação” interiores, impedindo-as de encontrar um ponto de equilíbrio. E, nessas ocasiões, o sentimento de culpa a domina em todos os sentidos.
Situação essa que, exacerbada, as levarão ao desespero e ao ato extremo de tentar parar a angústia e a dor através de sua própria morte, numa ação suicida inconsciente. Parece até que somente vai encontrar lenitivo, um alívio, matando-se, pois outras possibilidades não a tocam mais, nessa crucial circunstância de insanidade. É um processo autodestrutivo, sem alternativas aparentes.
Quando isso vem a ocorrer, nem sempre os familiares e amigos se apercebem do que está acontecendo e, mesmo percebendo alguma coisa estranha, muito pouco podem fazer a respeito nessas situações, porque não têm um conhecimento básico sobre assunto e não sabem distinguir sequer um caso de outro. Passam a dizer coisas intempestivas, sugerir ações inviáveis, emitir críticas desnecessárias e até mesmo cobrar um comportamento racional, que não “atingirão” nenhum objetivo prático, visto que a pessoa em crise não está apta a reagir “normalmente”. Não tem discernimento de nada. Não se encontra em condições de entender o que se passa ao seu interior e reagir positivamente.
Então, precisamos admitir que o procedimento possível e razoável - para cada caso em si - é o de se tentar convencer a pessoa a fazer um tratamento clínico, sistemático, que pode começar com uma simples ida a um (a) psicólogo (a), inicialmente. A partir daí, pode ser que esse profissional (da área da psicologia) ganhe a confiança dela e venha a encaminhar para um (a) médico (a) psiquiatra, desde que é mais do que necessário o uso de medicamentos, sob orientação específica. Cada caso é um caso a ser estudado.
E, em continuidade, é também preciso que todos (as) criem ao seu redor um ambiente de aceitação e tolerância, carinho e afeto, compreensão e bondade, para que o tratamento venha a ter um bom resultado. Válido, também, a busca espiritual e outras coisas mais, como as práticas holísticas etc, porém sem deixar jamais, de lado, os remédios e o acompanhamento médico permanente.
Bom, o resto vai depender da sensibilidade de cada um (a) que conviva com uma pessoa atingida por essa doença, sabendo usar a tolerância necessária e se utilizar das relações sócio-afetivas no seio familiar, principalmente, baseadas no amor incondicional ao próximo, que se expresse em todas as suas manifestações plurais e variadas. Mas, tendo-se sempre em mente a gravidade do problema e a consciência da nossa impotência frente a um processo incontrolável.
Antes de tudo, portanto, é preciso criar um ambiente acolhedor e saudável em torno do ente depressivo, permitindo que ele (a) sinta que se tem um sentimento amoroso verdadeiro por ele (a), como um passo para se procurar “resgatar” a sua confiança no “viver e conviver” com o mundo à sua volta, mesmo em adversidade constante. Algo mais, que o (a) estimule a uma possível superação.
Isso será possível? Ora, pelo menos, vale à pena tentar...
Embora, em pauta, esteja sempre em evidência o suicídio como uma consequência dos impasses e das impossibilidades, que se apresentam, causados pelo acentuado e enfático descontrole psicoemocional. Condicionado a uma tristeza sem fim.

Recife (PE), setembro de 2011.
Antônio Carlos Leal

PS – Em qualquer situação, alerta-se para que não se menospreze “as ameaças” de morte, pois mais do que “chamar a atenção” é, muitas vezes, um desesperado pedido de socorro. Um apelo contraditório por ajuda.

Um comentário:

  1. Antônia Elizabete21 de janeiro de 2015 13:30

    Talvez seja no último parágrafo deste valioso texto que se encontra o alerta mais urgente: não menosprezar esse silencioso grito que expressa dor, e simplesmente pede ajuda. O "Sofrimento da Alma" supera qualquer dor ou doença física, e nenhum mortal esta isento de senti-las... Estender a mão, compartilhar o silêncio e não deixar só quem esta em tal fase são, ainda que aparentemente em vão, excelentes "remédios".

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