sábado, 17 de janeiro de 2015

Desintegrados às últimas consequências

Ensaio
06 de janeiro de 2015 [1]
Por Maíra Honorato e Mauricio Gonçalves, estudantes de graduação em Ciências Sociais pela UFPE.

Nós vos pedimos com insistência
Não digam nunca: isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que corre o sangue
Em que o arbítrio tem força de lei
Em que a humanidade se desumaniza

Não digam nunca: isso é natural!

Para que nada possa ser imutável!
Bertolt Brecht

Exagerar é a minha profissão!
Max Weber

Intróito
Os suicídios do CFCH não se evidenciam somente na materialidade crua existente nos cadáveres frios e quebrados dos corpos daqueles que deram seus últimos saltos. Porque nós sabemos muito bem que nenhuma morte é apenas física. Existe uma “dimensão de morte” que acabou por dominar as mentes, os espíritos e os corpos das pessoas que fazem o CFCH. Em Ciências Sociais isso se mostra particularmente evidente. Somente aqueles mais cínicos, lerdos, embebidos de má-fé ou autistas não a percebem.
Alguns estudantes, especialmente aqueles que se encontram nos períodos iniciais do curso, carregam uma determinada concepção do mesmo. Essa concepção atribui ao curso um espaço privilegiado à ebulição e efervescência teórico-social, especialmente por tratar-se de um curso que se caracteriza fundamentalmente pelo estudo dos homens em suas relações com os outros homens nos seus mais variados aspectos. Por consequência, proporciona descobertas e movimentos em busca de uma desnaturalização do mundo. Bem colocada essa concepção, o cotidiano trata tranquila e friamente de quebrá-la em mil pedaços e de empiricamente colocar o curso em um patamar eminentemente letárgico. Mas a letargia do curso é a letargia das pessoas que o compõem. Para que o curso tenha se materializado dessa forma, entretanto, fatores de ordem social se processaram e em combinação levaram as pessoas a construí-lo e mantê-lo dessa maneira.

A alienação na sociedade contemporânea
É necessário estabelecer um grau de ligação entre o curso e o caráter mais geral de nossa sociedade, posto que se encontram em interação recíproca. Percebemos que essa relação é tensa e que de alguma forma o próprio espírito da sociedade se imbrica, através das pessoas, no movimento do curso. Que “espírito” seria esse? Para encontrarmos esse espírito devemos atentar para o próprio processo que mantém a sociedade coesa e unida enquanto tal.
O processo de integração social é aqui compreendido como a articulação das pessoas em torno de uma ordem social dominante que orienta uma conduta instrumental de comportamento. Essa conduta de comportamento é decorrente de uma sociedade que levou ao extremo a ordem de troca das relações mercadológicas acabando por equalizar instrumentalmente as próprias relações sociais, tornando-as mensuráveis e embebidas pelo processo de calculabilidade. A vida universitária não escapa a essa premissa, e nesse sentido as próprias relações dos estudantes e dos professores com a concepção de ciência, conhecimento e academia passam pelo sentido instrumental da troca.
Assim, os cientistas se tornam pseudo-cientistas (professores e alunos), que pautados por essa orientação, fazem com que o processo de conhecimento perca seu caráter libertário e emancipatório, próprio da racionalidade não instrumental. Podemos perceber isso na tentativa de separação do departamento, onde se evidencia(ou) o seu caráter eminentemente mercadológico, na falta de debates das aulas monologas e principalmente na falta de vida teórica e social do curso de Ciências Sociais. Infelizmente, esse não é um privilégio da UFPE.

Os desintegrados
A apatia produzida pela estrutura desse processo atinge algo de mais importante na alma do curso. O sentimento crítico e vivaz dissipa-se, produzindo uma sensação de desagregação coletiva em que os movimentos de mudança sucumbem à lógica individualista e produtivista.
No processo de sobrevivência tanto material, emocional, político e social, há em imanência um movimento de integração espiritual à ordem existente, fazendo com que os indivíduos aceitem passivamente as determinações imputadas pelas estruturas do mercado. Podemos dizer que esse espírito integrativo impulsiona os indivíduos a enxergar na vida um sentido de sobrevivência e trocar, por isso, a liberdade pela segurança. Encontramos vários efeitos do mal-estar causado por essas estruturas de mercado que já estão incrustadas na própria estrutura psíquica dos indivíduos.
Apontando as implicações acima esboçadas, as contradições são também imanentes. Encontramos então indivíduos que optam pela disfuncionalidade como uma práxis sensata e “desintegram-se” procurando evitar a morte em vida. Estes indivíduos pelo seu estranhamento à ordem social distanciam-se das formas e fôrmas geradas pela própria racionalidade sistêmica da integração vigente. Exemplo dessa desintegração diz respeito ao distanciamento tanto físico, quanto espiritual de estudantes com o corpo do curso, uma vez que o ambiente universitário foi restrito a uma mera experiência profissional.
O paradoxo do desintegrado é que este verdadeiramente está preocupado com a agregação, não mais do tipo usual, a integrativa, que prima pela opção de garantir sobrevivência, mas um tipo de agregação que emancipe os estudantes da morte intelectual. O intuito do desintegrado não passa meramente pelo cursar ou atravessar as disciplinas das Ciências Sociais, mas principalmente pela construção de uma possibilidade de curso, uma forma libertária de ciência. A preocupação com a agregação vem da concepção de que as mudanças só acontecem no movimento coletivo, entendendo o conhecimento como um processo de totalidade.
Por isso, o desintegrado ao trocar a vida (as formas normativas de luta pela sobrevivência) pela liberdade, ganha com isso o direito à existência, entendida aqui como oposição à mera sobrevivência integrativa à ordem dominante. O desintegrado sai da categoria de coisa e passa a acreditar num sentido próprio para sua existência, optando pelo sentido da liberdade, e torna-se uma consciência de si, mais livre para transformar as determinações sociais. Por isso, o mesmo não está completamente preso às condições cerceadoras das relações de troca do mercado.
A integração a uma ordem social dessa natureza proporciona nos indivíduos, consciente ou inconscientemente, uma traição: a abdicação da própria capacidade histórica da liberdade. E aqueles que compreendem a irracionalidade social e psíquica que os envolve, sofrem irremediavelmente por parte dos indivíduos integrados, dois processos complementares: o primeiro, de estranhamento e o segundo, de estigmatização. Para os integrados não os basta entender (os desintegrados) como diferentes, o que realmente são, mas caminham quase que inexoravelmente para o processo de estigmatização, atribuindo aos segundos, os rótulos de loucos, utópicos ou exagerados.

Radicalidade
Existindo entre as pessoas o caráter de traição que elas se auto-submetem, quando pensamos nos cientistas sociais chegamos à constatação de uma dupla-traição: a traição anteriormente colocada é acrescida da traição ao próprio propósito da constituição das Ciências Sociais enquanto tais. Lembremos aqui a emancipação do homem, os valores fundamentais sob os quais jaz a promessa de nossa época. Os cientistas sociais traíram a própria razão de ser das ciências legadas pelo projeto original da modernidade, para citar Habermas. A traição dos cientistas sociais é apenas a traição da modernidade em relação a si própria em um âmbito reduzido. A nossa época social é uma época de auto-traição.
Por isso o curso de Ciências Sociais da UFPE é um curso tranquilamente integrado à cultura hegemônica burguesa e à sua correspondente ordem estabelecida. Se não fosse por poucos, pouquíssimos, diga-se de passagem, professores e alunos, que teimam em discutir, inquirir e desconfiar da aparente harmonia da organização das coisas, esse curso seria totalmente tragado pelo marasmo e pela inércia a que está fundamentalmente submetido.
O desintegrado muitas vezes não consegue, apesar de sua negação ao processo de integração social burguês, encaminhar-se em um processo emancipatório. Sucumbe em um isolamento que acaba por mostrar que sua negação não foi levada às últimas consequências. Porque esse tipo de negação se submete, imperceptivelmente para ele, em um dos processos fundantes da própria ordem social atual: o individualismo. E assim, na busca de uma negação individual, se vê, apesar dela, cada vez mais integrado e fraco. Nesse sentido, o desintegrado deve levar o processo de desintegração que o acomete às últimas consequências e compreender que não há saídas individuais para o processo de rapto, traição e alienação proporcionado pela nossa sociedade.

Homenagem a Isabel Sougarret, Bel Burleta, além de várias coisas, estudante de Jornalismo da UFPE.

Nota
[1] Publicado originalmente no Polifonia – Jornal do Diretório Acadêmico dos Estudantes de Ciências Sociais da UFPE – em maio de 2005. 

Um comentário:

  1. 1979, estudante de engenharia, visitando amigo do departamento de geologia, deparei-me com bela jovem ao parapeito, não lembro o andar, do CFCH. Ela olhava fixamente para baixo. Parei e disse: "bela vista!"; ela falou sem me olhar: "nem tanto!"; retruquei: "dois andares acima a paisagem é bem melhor". Prossegui no corredor e nunca mais vi a bela jovem. Naquele dia, não houve suicídios no CFCH. Hoje, ao ler o texto de Maíra e Maurício, na lembrança daquele breve instante, sinto-me ternamente um pequeno super-herói. Paulo Magon.

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