segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

“Coração valente”

Ensaio
31 de dezembro de 2014
Por Gilvan Rocha, militante socialista, membro do Diretório Estadual do PSOL-CE e presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

A jovem Dilma Rousseff demonstrou ter um coração valente quando enfrentou as câmaras de tortura. Dessa mesma forma comportaram-se milhares de jovens dispostos a sacrificar a vida, a liberdade e a submeter-se à tortura insana dos seus algozes. É lamentável, entretanto, que agora o coração valente da senhora Dilma tenha derretido diante do grande capital. Não estamos falando de coisas fantasiosas. Veja as escolhas da presidente reeleita para o ministério da agricultura. Nada mais, nada menos do que a emblemática Kátia Abreu, legítima representante do agronegócio. Veja, por outro lado, onde a senhora, agora de coração acovardado, foi buscar a sua equipe econômica: entre os mais confiáveis quadros existentes entre os grandes banqueiros.
Coração valente seria dizer não ao capitalismo e não somente demonstrar bravura, como demonstraram os cristãos primitivos diante das feras que lhes estraçalhavam as vísceras. Não basta um coração valente. É preciso que ele esteja a serviço de uma boa causa. A jovem Rousseff tinha como bandeira a luta pelas reformas e pela soberania nacional, ao mesmo tempo em que propugnava um modelo de país onde reinasse um discurso único, um partido único, uma imprensa única, uma polícia política, como era o modelo da então URSS e hoje permanece sendo o de Cuba, Coréia do Norte e China, para citarmos alguns exemplos.
O coração valente daqueles jovens tangidos pela má informação e pela ingenuidade, não se levantava contra o capitalismo. E tão logo se deram as oportunidades, vimos muitos deles se agacharem diante do grande capital, propondo-se gerenciar o capitalismo e garantir a paz social necessária para que a burguesia auferisse, sem traumas, seus grandes lucros.
Os “corações valentes” que se alocaram no governo petista, engessaram as centrais sindicais e estudantis transformando essas instituições em meros aparelhos burocráticos. O socialismo, a luta direta e sem sofisma contra o capitalismo precisam de corações valentes. Mas não bastam a bravura e o martírio para tornar legítima uma pretensa militância quando tudo termina em um estúpido engano. Queremos, sim, homens e mulheres destemidos. Empunhando a causa da verdade e não cultuando apenas a bravura e o martírio sem atentar para quão inócuos foram tantos sacrifícios.


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