quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ainda sobre a "onda conservadora"

Ensaio
14 de janeiro de 2015
Por Coletivo ContraCorrente [Bahia], corrente política independente

Desde as jornadas de junho de 2013, o debate sobre a composição das forças sociais tem sido travado de maneira apaixonada. O objetivo deste texto é compreender o termo “onda conservadora”, como ele é usado e por quem ele é usado. A partir disso, contribuir com o referido debate, colocando sobre a mesa a análise do Coletivo ContraCorrente.
Há uma diferença entre a “onda conservadora” que esteve presente nas manifestações de junho de 2013 e a chamada “onda conservadora” que foi enunciada por forças políticas governistas no processo eleitoral de outubro de 2014. De qualquer forma, não nos parece que há uma ascensão organizada (nacionalmente) de forças fascistas no país, embora não ignoremos que no Brasil sempre existiu, desde os tempos de Plínio Salgado até hoje, os degradados defensores do fascismo ou algo muito próximo. Inclusive, não negamos que existem como grupos organizados e agem violentamente contra as chamadas “minorias”.
Embora não seja o nosso objetivo específico fazer um balanço das “jornadas de junho/2013”, não podemos deixar de versar umas linhas a fim de entender o que se chamava de onda conservadora naquele processo. Havia, como há na maioria dos Estados brasileiros, uma luta a ser encarada no Estado de São Paulo: a luta pela redução da passagem e pela tarifa zero. Essa luta, embora seja de caráter defensivo, ou seja, contra alguma medida do governo e das empresas, também vem tentando ser propositiva, inclusive se debruçando sobre o sistema de transporte e estudando a logística estabelecida para propor a efetividade do passe-livre [1].
Acontece que a luta que seria travada em São Paulo tinha alguns ingredientes que não podem ser ignorados. O primeiro é que a luta mais expressiva do ano de 2013 até aquele momento tinha sido também uma luta contra o aumento de passagem e pelo passe-livre, só que em Porto Alegre e no início do ano [2]. Entre outros ingredientes podemos destacar a proximidade dos jogos da Copa das Confederações, a atenção das mídias de todo mundo, a desproporcionalidade das forças de repressão com relação ao movimento, a criminalização do movimento, tanto pela grande mídia como pelos agentes públicos.
A repressão pesada por parte da polícia e a campanha difamatória por parte da mídia fez com que crescesse uma forte onda de solidariedade por todo o país, nacionalizando o que era uma luta local. Nesse processo de expansão da luta social, as redes sociais cumpriram um papel importante, fazendo o contraponto das mentiras espalhadas pelos veículos burgueses de informação e ajudando a difundir o movimento para um número cada vez maior de pessoas.
Essa expansão do movimento vem acompanhada de uma forte despolitização, fato percebido inclusive pelos agitadores da burguesia, como o idiota [3] do Arnaldo Jabor. Essa percepção vem acompanhada de uma tentativa de dirigir o movimento via a própria mídia burguesa, dividindo o movimento entre “cidadãos conscientes” e vândalos. Nesse ponto, é importante observar o forte sentimento antipartido que um setor grande das passeatas exibia, majoritariamente composta por uma juventude que não vivenciou experiências de lutas de classes, dando a possibilidade de setores fascistas se inserirem nesses atos e também tentarem disputar esse processo. Além do fato de existir uma desconfiança com os partidos, havia um outro setor também desconfiado com os partidos, mas que se colocavam como linha de frente na “proteção” das manifestações, conhecidos como Black Blocs. Esse setor, mais combativo e aguerrido que o primeiro, foi pauta de um extenso debate na esquerda.
A perspectiva antipartidária que permeava as mobilizações de junho e julho abria possibilidade aos militantes fascistas de aparecerem nos atos como setores nacionalistas e patriotas. Podemos caracterizar que uma parte dos defensores dessa perspectiva não viveu outras experiências além do governo “popular e democrático” do PT. Não se organiza, exceto pelas redes sociais e tem verdadeiro horror a ser massa de manobra, mas acaba sendo massa dos dirigentes do status quo.
Esse conjunto de característica foi associado a uma possível “onda conservadora”, mas nem de longe pode ser considerada uma ofensiva de grupos da extrema-direita. A definição sobre a ascensão de uma fração fascista à frente do Estado dependerá da correlação de forças entre o capital e o trabalho, além das necessidades do capital, de sua reprodução.
Outra situação em que surgiu com bastante força a denominação de “onda conservadora” foi no processo eleitoral de outubro de 2014. Nele, em que se polarizou a disputa entre PT e PSDB houve, por parte de ideólogos ligados ao PT, uma campanha para fazer crer que o PT representava a esquerda, os trabalhadores e a juventude, ao passo que o PSDB representaria a parte mais reacionária da sociedade. Essa falsa polarização entre esquerda e direita, resultado do suposto acirramento das lutas de classes e de um levante da “onda conservadora”, de cunho fascista, como nos queria fazer crer os petistas nestas eleições presidenciais de 2014, pode ser facilmente refutada na composição ministerial do novo governo Dilma, em que todas as frações da classe burguesa estão representadas nas figuras de Kátia Abreu, Gilberto Kassab, Joaquim Levy e Cid Gomes, por exemplo.
A verdade, porém, é que basicamente as mesmas corporações financiaram as duas candidaturas. As mesmas frações da classe burguesa estiveram representadas em ambas. Não há, nesse sentido, nenhuma ameaça da direita ou da chamada extrema-direita. A burguesia compõe e dita as regras do governo petista, em suas diversas frações, seja o agronegócio, o capital industrial ou o capital financeiro.
Há ainda aqueles ideólogos governistas que não acreditam em uma “onda conservadora” como uma ascensão fascista, mas como um movimento de certas frações burguesas associada ao imperialismo americano para compor um governo bonapartista. Essa tese parte da premissa de que as outras frações da burguesia que compõem o governo do PT não estariam associadas ao imperialismo. No fundo, isto vem pra justificar sua postura de alianças de classes, de traição à classe trabalhadora.
Para nós, militantes do Coletivo ContraCorrente, a defesa da existência de uma onda conservadora serviu fundamentalmente para tentar afirmar setores que capitularam como sendo setores de esquerda ou em disputa, no caso o PT. Mas não deixamos de acreditar que a ascensão de uma “onda conservadora” pode estar por vir. Essa possibilidade está fortemente vinculada com a crise que se avizinha, identificada tanto pelos economistas burgueses como pelos críticos da economia política. Esta onda conservadora pode ser formada pelos germes fascistas que uma fração da burguesia aponta como necessária para estabelecer um governo despótico/militar que lhes proporcionaria mais lucros. Cabe à esquerda em geral, e às (aos) comunistas em particular, propagandear na classe trabalhadora, especialmente no operariado, as contradições viscerais entre seus interesses e os interesses da burguesia, bem como o projeto histórico da classe operária, a saber, a revolução socialista, com o consequente fim da exploração do homem pelo homem.

Notas
[1] Pode-se verificar o que foi afirmado nos seguintes sites: http://revistarever.com/2014/01/15/transporte-publico-em-salvador-o-que-vem-e-o-que-ja-esta-por-ai/ e http://passapalavra.info/2014/07/97354
[2] http://jornalismob.com/2013/04/02/a-cronologia-de-uma-violencia-midiatica-a-cobertura-dos-protestos-de-porto-alegre-em-zero-hora/
[3] http://blogdaboitempo.com.br/2014/01/23/o-socialismo-o-idiota-e-a-ideologia/

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