sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Stalin e o stalinismo

Ensaio
03 de dezembro de 2014
Por Gilvan Rocha, militante socialista, membro do Diretório Estadual do PSOL-CE e presidente do Centro de Atividades e Estudos Políticos – CAEP.

Esses anos de hegemonia “marxista-leninista” engendraram uma profunda confusão, inclusive dentre alguns muito bem letrados. A maioria dos que se reivindicam de esquerda, ou apoiam o próprio Stalin, imaginam que o stalinismo foi um fenômeno posterior à morte de Lenin. Há uma diferença entre o fenômeno do stalinismo e a figura de Stalin. O stalinismo é produto da derrota do movimento socialista em escala mundial. Não é, pois, algo nascido das cabeças de delinquentes como pretendem as análises idealistas. O surgimento do stalinismo, enquanto fenômeno político começa a se gestar bem antes da ascensão de Joseph Stalin.
O insucesso do socialismo, na Europa Ocidental, levou a que a derrota se estendesse à nascente URSS e, a partir desse fato, deram-se as condições materiais e teóricas para que a contrarrevolução se consolidasse em território russo, pois ao invés dos bolcheviques assumirem a derrota, empenharam-se em se manter a qualquer custo atropelando as leis básicas da História.
Há um princípio universal nas artes da guerra de que quando se vislumbra uma derrota, o mais correto é promover a retirada de forma a permitir menores danos. Pois bem, esse princípio não foi levado em consideração e mesmo quando a causa se mostrava perdida, houve um obstinado propósito de não aceitar a derrota. Pior ainda, tudo que se construiu em prol da contrarrevolução foi apresentado como vitória do socialismo vendendo-se “gato por lebre”.
Um dos fatos que deram respaldo teórico ao stalinismo foi a adoção de medidas de exceção tomadas no X Congresso em 1921, apesar das advertências proféticas de que aquelas medidas sepultariam o socialismo, e isso de certa forma aconteceu, mesmo que não tenha sido definitiva.
Enganam-se aqueles que imaginam que Kruschev, quando denunciou os crimes de Stalin, rompeu com o stalinismo. Isto é, que ele foi antisstalinista. Na verdade, só o reformou, porém não rompeu com os princípios básicos da contrarrevolução, levada avante em nome do “marxismo-leninismo”.
No rol dos eruditos, que pensaram ser Kruschev um antisstalinista, estão figuras de prestígio como Eric Hobsbawm e outros tantos doutos. Por sua vez, existem aqueles que julgam ser o trotskismo o contrário do stalinismo, e isso também é um profundo engano.
Leon Trotski poderia ter feito o papel de analista crítico da Revolução Russa e ter procedido a uma autocrítica, deixando claro que a contrarrevolução triunfara. Para se desincumbir dessa tarefa, esse senhor tinha prestígio e qualidades intelectuais suficientes para fazê-lo. Ao invés disso, Trotski e os trotskistas não romperam com as resoluções do X Congresso do PC Russo e venderam a falsa ideia de que existia um Estado Operário burocratizado, ao invés de denunciar a sua não existência e, sim, a construção do capitalismo de Estado dirigido por uma casta burocrática.
Em função desses fatos, criou-se um empobrecimento político de profundas consequências. Há que se repetir, como se repete o Pai Nosso entre os cristãos, a seguinte verdade: Stalin e stalinismo são coisas diferentes embora simbioticamente ligados.
Como exercício de uma reflexão política, devemos colocar essas questões, que causam arrepios entre os beatos “marxistas-leninistas” e os trotskistas, de maneira que possamos resgatar o socialismo revolucionário. Porque assustadoramente a velha esquerda ficou reduzida a um antiamericanismo insano e inconsequente, quando deixam de ver que o inimigo é o capitalismo. Não se deve reduzir a luta a uma posição estritamente anti-ianque, chegando ao cúmulo de se ver, com simpatia, o fascismo islâmico, desvairado e selvagem, porque eles têm um sentimento contrário aos infiéis do “Império”.


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