sábado, 13 de dezembro de 2014

Das jornadas de junho ao pós-eleições no Brasil

Ensaio
11 de dezembro de 2014
Por Leal De Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Avalia-se a conjuntura atual, do pós-eleições, como sendo de continuidade dos impasses que se acomodam por inércia e que ainda refletem as movimentações cíclicas anteriores entre os projetos políticos interligados ao neopopulismo latino-americano, os quais se reproduzem em “frentes populares” ou não, mas tendo por consonância a repetição de alianças espúrias com os setores mais conservadores e fisiológicos da sociedade.
De outro lado, a crise sistémica do Capitalismo persiste e, apesar de algumas recuperações mínimas das economias europeia e estadunidense, o processo de perdas recorrentes para a classe trabalhadora e a população em geral se aprofunda ainda mais em direção ao caos e à barbárie, situações extremas, onde as conquistas do passado são continuadamente anuladas no dia a dia em benefício da manutenção da lucratividade capitalista. Recompor as taxas de exploração permanente da “mais valia” e reforçar os altos ganhos de rentabilidade dos investimentos, que se fazem cada vez mais predatórios e inconsequentes, é a saída (comum) que novamente se apresenta no âmbito mundial.
No caso brasileiro, pagamos um alto preço pelo retorno a um novo populismo disfarçado de esquerda, numa desavergonhada simbiose com fisiologismo mais descarado que se conhece nos dias de hoje. E esta fusão de interesses entre o lulo-petismo e o pemedemismo nos leva a “um beco sem saída” e, na prática, a uma mistura de políticas sociais assistencialistas com amplas concessões ao Capital, o que se pode chamar de um “social-liberalismo” - isto é, uma variação híbrida altamente destrutiva e desagregadora da organização popular.
As manifestações de Junho de 2013, como um marco de “quebra” da letargia de muitos anos, colocaram em evidência a imensa indignação da população diante do sucateamento dos serviços públicos e do aprofundamento da corrupção desenfreada em todos os níveis das administrações e até em grandes empresas de capital misto, destacando-se também uma profunda rejeição aos partidos políticos convencionais e, consequentemente, à coligação governamental federal, liderada pela “troikaPT/PCdoB/PMDB. Entretanto, isto não se reproduziu nas eleições de forma mais consistente, a não ser numa reaglutinação da oposição tradicional de centro-direita, que na sua atuação realimentou movimentos mais conservadores. E, de outro lado, levou o governo em campanha pela reeleição a apresentar um enganoso discurso de giro à esquerda sem nenhum fundamento explícito, incluindo a falácia de uma proposta de “reforma política” e de uma “assembleia constituinte soberana” para fortalecer a democracia representativa no país, como uma resposta ao que tinha sido cobrado nas mobilizações. Uma balela.
E que diferença isso faz, desde que movimentos sociais, centrais sindicais e uniões estudantis passam a ser cooptadas e atreladas aos governos, que se revezam a cada eleição? Não têm autonomia nem independência! Ao mesmo tempo, verifica-se que se forja uma nova leva de “neopelegos” todos eles descompromissados com as causas populares e que se alternam sempre no movimento sindical e estudantil, especificamente, visando candidaturas legislativas eventuais e até mesmo cargos em secretarias e ministérios. Entretanto, o que não se pode deixar de ter em conta é a vulnerabilidade de uma ampla camada da população, carente e muito pobre, que se move na linha do desespero, numa situação de precariedade que a leva a se vender por qualquer coisa de valor ou até mesmo pelas migalhas que recebem através dos programas “ditos sociais” os quais lhes são úteis de alguma forma.
Por conseguinte, a esquerda "autêntica e revolucionária" não tem muito espaço para se expressar nesse contexto e se encontra fora desse "jogo de cartas marcadas" e do “toma lá, dá cá” descarado. Há um falso dilema de disputa entre a "esquerda" e a “extrema direita" que veio justificar a permanência do PT e seus aliados no governo da União, sem romper com as questionáveis parcerias da governabilidade, ao mesmo tempo em que mantém uma aliança de centro-direita travestida em esquerda. A tão propalada “onda conservadora” - como uma ameaça “a tudo o que foi realizado até agora” - não se reveste, na prática, de grande força política, independentemente das manifestações de setores mais extremados, uma vez que as montadoras, os bancos, as empreiteiras e o agronegócio, principalmente, continuam sendo favorecidos e beneficiados pelas políticas macro-econômicas de governo - alcançando assim altos lucros em seus negócios.
Por isso, nada têm a reclamar nem estão dispostos a estimular e apoiar “um novo” golpe de Estado, sem nenhum sentido. Pra quê? A troco de quê? Ora, o contexto do presente nada tem a ver com da década de 60, embora caiba sempre rechaçar com veemência certas ideias fascistas ou fascistóides, pois se está numa luta político-ideológica sucessiva, numa luta de classes permanente. E não somente, ao contrário, num superficial e tão vulgarizado conflito entre “ricos e pobres”. Luta-se, essencialmente, pela transformação radical da sociedade capitalista.
Não obstante, pode-se sinalizar desde já que outras manifestações típicas e semelhantes às que ocorreram no ano passado podem voltar com muito mais força e intensidade a qualquer momento, diante dos inúmeros problemas não resolvidos, e que continuam latentes. Condição esta que deveria servir de lição para as esquerdas em geral, que não tiveram nenhum protagonismo naquele período e até agora ainda não apresentaram um discurso claro e objetivo dirigido ao movimento de massas como um todo. Uma situação vexatória em todos os sentidos.
Refletir criticamente sobre isso, e outras coisas relacionadas, é mais do que uma necessidade premente para todos nós... É, antes de tudo, uma busca por novas alternativas de atuação sem atrelamentos, rechaçando as formas equivocadas de aparelhamento dos organismos de classe, bem como das organizações de base e dos movimentos populares, os quais devem ter total autonomia e independência para crescerem livremente, sem amarras e condicionamentos partidários. Mas, tudo isso só poderá acontecer se houver uma superação das condenáveis práticas de instrumentalização de todas as lutas.

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