quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Bom dia! Prazer em conhecer. Lenin.

Ensaio
18 de dezembro de 2014
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT.

A revolução de Outubro em 1917 inaugurou uma nova etapa nas lutas de classes internacional. Um estudo sobre o assunto resultaria incompleto se não incluíssemos aquele que foi o maior polemista, estrategista e organizador de vitórias até sua morte. Essa personagem obscura até os dias de hoje ressurge de maneira implacável diante de nosso tempo colocando-nos frente a frente com temas centrais nas lutas de classes: o partido como instrumento fundamental de organização e a tomada revolucionária do poder pelo proletariado.
Não é de à toa que passados noventa anos de sua morte, obras capitais dentro do marxismo como ‘O que fazer?’, ‘Imperialismo, fase superior do capitalismo’, ‘Teses de Abril’ e ‘O Estado e Revolução’, escritas no calor dos grandes acontecimentos, entre guerras e revoluções, estão agora sendo revisitadas. Em todos os seus aspectos, revelam-nos a genialidade de um indivíduo que construiu ao longo de sua vida argumentos contundentes em defesa das classes trabalhadoras utilizando o método científico do materialismo histórico, que em essência é a teoria da revolução proletária. Porém, logo após sua morte, uma muralha se ergueria em torno de sua literatura. Ele passou a ser interpretado por uma série de intelectuais que apresentaram seus escritos como verdadeiras encíclicas canônicas em nome das mais variadas concepções de socialismo durante o século XX e início do XXI. Esses intelectuais se igualaram aos detratores de sua obra, que não perderam tempo em identificá-lo como responsável pelo fracasso da experiência de construção do socialismo e que transformou o leste europeu em ditaduras sanguinárias de partidos únicos.
Sendo assim, seria instrutivo analisar o papel que essa personagem cumpriu no contexto social da época. As várias oscilações, as tendências progressivas e regressivas que teve que enfrentar. Certamente, não se pode explicar a vitória do bolchevismo sem levar em conta uma situação histórica excepcional que teve lugar no maior metro quadrado do planeta, as planícies do leste europeu. O clima rigoroso que castigava o camponês no inverno e na estiagem, uma relação social de semi-escravidão no campo, com a velha estrutura pré-capitalista, e simultaneamente uma expansão de um capitalismo moderno que concentrava milhões de trabalhadores em grandes fábricas dando origem a um proletariado no qual Lenin vai concentrar toda sua atenção. Essas duas comunidades coexistiam com o monopólio industrial e do capital financeiro. Um Estado que era produto desse desenvolvimento desigual. De um lado, a caducidade cultural e o atraso econômico. De outro lado, a necessidade de expansão industrial, da livre concorrência e do mercado que tinham seu obstáculo maior na autocracia czarista dos Romanov. Essa autocracia exercia um poder coercitivo de controle sobre a vida econômica baseado numa ideologia da qual "o Czar teria uma missão divina". Entretanto, no verão de 1914 uma tempestade caiu sobre a Europa e marcou o começo de uma época que, com efeito, levaria ao mais profundo sofrimento vivido pela humanidade. As consequências seriam devastadoras, inclusive para a Internacional dos trabalhadores. Diante da guerra mundial, apenas os partidos russo e sérvio se opuseram à guerra. Todos os partidos socialistas, incluso o Partido Social Democrata Alemão (SPD), o mais importante partido no interior da II Internacional, apoiaram os créditos de guerra. A importância desse partido é descrita assim por um revolucionário russo em 1914: "Somos unidos por numerosos laços à socialdemocracia alemã e aprendemos tanto as lições de seus êxitos como a de seus fracassos. A socialdemocracia alemã era para nós não somente um partido da Internacional. Ela era um partido por excelência".
A história da revolução russa é produto dessa combinação de fatores que por sua vez fez saltar etapas inteiras de desenvolvimento social na Rússia. Mas a pergunta é: seria possível um indivíduo exercer uma força capaz de mudar os resultados históricos em curso? A pretensão não é construir uma cronologia fidedigna dos acontecimentos, mas ajudar o leitor a ter outro olhar desse protagonista. A percorrer outro caminho, longe de fazê-lo um mito ou herói, como a ideia de que sem ele o destino do proletariado na revolução russa teria sido um fracasso. Não vemos assim. Buscamos entender o lugar de Lenin na história.

1901 - É publicado pela primeira vez o jornal Iskra (A centelha). Os seus membros percorrem o país fazendo contacto com grupos locais e recrutando quadros que passariam para a clandestinidade, constituindo uma organização em escala nacional com enfoque nas lutas gerais.

1902 - Aparece pela primeira vez o material teórico com o título ‘O que fazer?’, polêmica com os socialistas denominados "economicistas". O eixo central girava em torno do problema da organização partidária. O texto afirma de maneira categórica: "A ação espontânea dos trabalhadores limitada às reivindicações econômicas não levaria à consciência socialista e que precisamente a tarefa do Iskra seria introduzir na classe trabalhadora as ideias socialistas através da construção de um partido operário integrado por revolucionários profissionais, rigorosamente centralizado, com círculos de militantes clandestinos".

1903 - Em julho e agosto os Iskristas se dividem no II Congresso do partido em Bruxelas e depois em Londres. Após o Congresso, Martov reagrupa a maioria dos socialdemocratas e restabelece o antigo comitê de redação do Iskra. Plekhanov e a maioria dos bolcheviques se inclina pela conciliação com os mencheviques. Lenin fica em minoria. É afetado por uma crise. A decepção é tamanha que sofre uma depressão nervosa. Ficado isolado e posteriormente é excluído da equipe de redação Iskra.

1904 - No interior da Internacional, Rosa Luxemburgo ataca violentamente a concepção de Lenin sobre a organização, que qualifica de "absolutismo russo" e "ultracentralista". Surgia a polêmica: Questões organizativas da socialdemocracia russa (Die Neue Zeit, 1904, n° 22). Com ajuda fundamental de Krupskaia, Lenin lança-se à reconquista dos comitês. Forma o primeiro esboço da fração bolchevique.

1905 - O comitê central permite à assembleia denominar-se III Congresso e nele Lenin enfrenta um grupo de militantes da Rússia, sendo novamente derrotado em mais duas ocasiões: (1) o comitê teria que incluir uma maioria de operários; (2) o controle político do jornal ficaria a cargo do comitê central. Consolida-se, assim, a cisão. Na revolução de 1905, surgem os sovietes. Lenin e os bolcheviques não tem nenhum destaque. Em dezembro do mesmo ano, Lenin e Martov discutem a reunificação das organizações locais de ambas as frações.

1910 - Bolcheviques e setores dos mencheviques publicam conjuntamente dois novos jornais: Gazeta Operária (ilegal) e A Estrela (legal).

1912 - Conferência de Praga entre exilados. Nova cisão. Os bolcheviques e setores dos mencheviques declaram que atuam em nome de todo partido. Expulsões são feitas e um comitê central com maioria bolchevique é eleita. Aprofundam-se as polêmicas e Lenin organiza a cisão da fração socialdemocrata dos deputados no parlamento.

1913 - Os principais colaboradores do Pravda, incluindo Trotski, rompem com os bolcheviques e deixam o jornal.

1914 - Tem início a 1ª guerra mundial. A Internacional dos trabalhadores capitula. Os grandes partidos, como o alemão, passa a apoiar seus governos. Um pequeno grupo se opõe à decisão. Entre eles, estão: Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Franz Mehring. Lenin encontra-se na Suíça e ao tomar conhecimento do fato, pensa se tratar de uma falsificação feita pela polícia czarista para confundir os trabalhadores. Os bolcheviques ficam dezesseis meses sem direção efetiva. Centenas de militantes são presos e outros são deportados. A reação reduz a força do partido e os indivíduos ficam completamente isolados. Porém, diante da catástrofe, Lenin é capaz de perceber o momento como uma tendência progressiva na qual a guerra se transformaria em “guerra revolucionária”. O seu desfecho conduziria o proletariado ao poder na Rússia. Naquele momento, muitos dos trabalhadores militantes se encontravam no exército.

1916 - Escrita em meados de 1915, Imperialismo, fase superior do capitalismo tem sua edição impressa entre janeiro e junho de 1916. Essa é, sem dúvida, dentre tantas outras, a mais significativa obra teórica de contribuição de Lenin ao marxismo. Por vários motivos. Primeiro, ele analisou a teoria econômica do capitalismo e elaborou uma teoria dos novos fenômenos a partir do esgotamento dos ciclos, que o levou à teoria da situação mundial, com o surgimento do imperialismo. Segundo, investigou a essência do capital monopolista e chegou à conclusão da existência de outra fase ou algo por vir, o que viria a ser decisivo em toda sua teoria: "a essência do imperialismo como capital monopolista e sua guerra são determinadas como desenvolvimento e exteriorização necessária da tendência de concentração ainda maior, de monopólio absoluto, e a estratificação da sociedade torna-se mais clara em sua relação com essa guerra". Terceiro, sua superioridade teórica em relação aos outros socialistas da época consiste em localizar e responder a questões políticas tomando como referência a situação mundial em sua totalidade. O desenvolvimento desigual capitalista dos países atrasados e a política colonialista desenvolvida pelo capitalismo em explorar os povos coloniais de outro modo, não como o modo clássico inicial das formas pré-capitalistas. Ao mesmo tempo em que desenvolve suas estruturas sociais, o imperialismo realiza seu objetivo que é a extração cada vez maior de mais-valia. Quarto, e por fim, ele parte da análise concreta da situação concreta ao ponto em que a teoria se constitui em verdade realizável. Por essa razão, transforma-se em prática revolucionária. No entanto, não há registro de que seus escritos tenham conhecido grande impacto, até mesmo nos círculos da esquerda. Certamente o trabalho encontrou poucos leitores. Até certo ponto isso é compreensível, em se tratando de um imigrante russo e uma figura quase anônima e que se informava sobre os acontecimentos na Rússia através da imprensa suíça.

1917 - É marcada pela primeira etapa da revolução, popularmente conhecida como Revolução de fevereiro, que fez desmoronar a monarquia czarista dos Romanov. Em seu lugar um governo de coalizão encabeçado por Kerenski, representante do Partido Socialista Revolucionário, assume o governo. Em março, ainda no exílio, Lenin escreve cinco cartas para o comitê central do partido bolchevique nos dias 7, 12, 20 e 25. São enviadas através de Alexandra Kollontai. A quinta é escrita nas vésperas de sua partida da Suíça. A resolução do comitê central foi publicar a primeira carta com abreviações e modificações feitas pelo conselho editorial. As outras não foram sequer publicadas. Vale frisar que da primeira carta, um quinto de seu conteúdo foi suprimido. Nelas havia toda uma análise e interpretação da nova situação mundial e qual a estratégia que os bolcheviques tinham que adotar diante do governo provisório. Na carta, esboça pela primeira vez a importância do papel que deveriam cumprir os sovietes no que ele chamou “a segunda revolução”. Em abril, ao chegar da Suíça, propõe ao comitê central modificar a linha geral do partido frente à política de apoio ao atual governo. Sua proposta é colocada em votação. Sofre uma derrota por doze votos a um. O comitê central estava preso à velha fórmula de uma revolução democrático-burguesa. Sendo assim, as Teses de abril foram publicadas apenas em seu nome. Nenhum grupo, organização ou militante as subscreveu. E até mesmos os seus mais próximos colaboradores comentavam as teses com frases do tipo: "Mas, afinal de contas, isso é delírio de um louco!". Os adversários também fizeram declarações: "Está isolado, de nada sabe, vê tudo das lunetas de seu fanatismo". Até mesmo sua mulher, Krupskaia, ao se referir às teses, indagava: "Temo que Lenin tenha enlouquecido". Mas se é verdade que a direção bolchevique o ignorou, não foi isso que aconteceu em outras camadas do partido, nos bairros operários. No distrito industrial de Viborg, a vanguarda bolchevique tomou as Teses de abril para si. Em julho, irrompe uma semi-insurreição intitulada "jornadas de julho" e segue-se um novo governo de coalizão. O general Kornilov assume o posto de comandante-chefe do exército. Prisão dos membros bolcheviques e restauração da pena de morte no exército. Lenin passa à clandestinidade e refugia-se na Finlândia. Em agosto, fracassa tentativa de golpe de Kornilov. Em setembro, na Finlândia, Lenin envia carta ao comitê central. Ele dizia: "Deveríamos de uma vez por todas começar a planejar os detalhes práticos de uma segunda revolução". Os dirigentes bolcheviques ficaram horrorizados e por unanimidade decidiram queimar todas as cópias das cartas de Lenin. Em 20 de outubro, retorna contra a orientação do comitê central. Instala-se no subúrbio de Petrogrado. Convence os bolcheviques a dar início à insurreição e é votada a resolução. Por mais de uma vez, entre 28 de outubro e 2 de novembro, nada acontece. Zinoviev e Kamenev ambos bolcheviques, tornam público através de um jornal as decisões do comitê central. O governo provisório empastela o jornal Pravda. O Soviet de Petrogrado reage, reabre o jornal e toma para si a tarefa da insurgência. Na madrugada do dia 7 de novembro, Lenin, olhando para os ponteiros do seu relógio, balbucia: “Começou!”.
Voltemos ao centro do nosso debate. Eu advogo que a interpretação do marxismo subordina as características de um indivíduo ou mesmo de um grupo social aos fatores mais objetivos em sua totalidade. Isso não significa, entretanto, incorrer numa visão unilateral ou em determinismo histórico. Mas entendo as ações objetivas e subjetivas no processo histórico como fatores múltiplos e não como processos de inevitáveis etapas numa construção evolutiva. Os fenômenos sociais se estabelecem independentemente das vontades e capacidades individuais ou mesmo das de um coletivo. Vejamos: sabemos que desde a Revolução de 1905 as condições objetivas para a revolução socialista estavam dadas na Rússia. Porém, para todos os socialistas russos da época, era inevitável a etapa da revolução burguesa. E isso incluía os mais próximos colaboradores de Lenin até abril de 1917.
Isso explica a postura que a direção do comitê central tomou diante das cartas do próprio Lenin envidas do exílio. A maré baixa, que Lenin enfrentou dentro do partido ao longo de sua trajetória, demonstra que ele estava longe de ser uma unanimidade ou de "ser dele" o partido bolchevique, como se encontram em muitos comentários. Porém, a direção individual ou coletiva traduz todos os elementos conscientes na história. Foi essa importância que Lenin teve dentro dos acontecimentos na Rússia pós-fevereiro. Sua ação no ponto crítico desse desenvolvimento combinado não mudou a relação de força entre as classes em favor do proletariado, pois ela já era um fato. Mas podemos afirmar que sincronizou os fatores objetivos com os subjetivos. A grande sacada vem das Teses de abril, onde ele abre mão de sua concepção de tomada do poder exclusivamente pelo partido e passa à agitação da palavra de ordem de "Todo poder aos sovietes!". Lenin não foi um acidente de percurso da história. Mas entre fevereiro e outubro foi sem dúvida a expressão qualitativa do conhecimento científico do materialismo histórico.
(...) Quando o metalúrgico conhecido como Belenin atravessou a porta com seus passos pesados e levantou a cabeça, seus olhos semicerrados deram de encontro com aquele homem, que com a mão estendida, exclamou: “Bom dia! Prazer em conhecer. Lenin”.

Referências
Pierre Broué. El partido bolchevique, volume 1. Editora Sundermann.
Pierre Broué. História da Internacional Comunista, volume 1. Editora Sundermann.
Leon Trotsky. História da Revolução Russa, volumes 1, 2 e 3. Editora Paz e Terra.
V. I. Lenin. O que fazer? Coleção Pensamento Socialista. Editora Hucitec.
Slavoj Zizek. Às portas da revolução. Editora Boitempo Editorial.
John Reed. Dez dias que abalaram o mundo. Editora Companhia das Letras.


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