segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Balanço político de 2014

Ensaio
19 de dezembro de 2014
Por Henrique Carneiro, professor Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

Já sei que o ano não acabou, mas como de hoje até 14 de janeiro entro em férias, vou fazer já o meu balanço de um ano péssimo, diria até annus terribilis. Não que eu seja um pessimista, pelo contrário, nem que tenha tido apenas razões pessoais para não ter muitas saudades do ano que finda. Cada um destaca os fatos que lhe parecem mais relevantes no todo geral. Para mim este ano foi o da eclosão da guerra mais ameaçadora na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, que é o conflito em curso entre Ucrânia e Rússia. A Chechênia e a Iugoslávia foram muito piores, mas o potencial no caso em curso é assustador. A derrubada de um avião civil holandês foi só um incidente emblemático do que está por vir.
A proclamação do califado pelo "Estado Islâmico" é outro sintoma de profunda degradação de uma região inteira, submetida a guerras contínuas desde as invasões do Iraque e agora com um setor fundamentalista cada vez mais intolerante e assassino. O ataque deliberado para matar crianças na escola paquistanesa é só um entre muitos massacres, porém emblemático no grau de crueldade espetacularizada. Entre o ditador genocida Assad e os fascistas religiosos do EI ainda restam heroicos combatentes rebeldes na Síria, mas a destruição desse país continua a ser uma das piores tragédias do século XXI.
A extrema-direita na Europa teve resultados eleitorais espantosos, do UKIP na Grã-Bretanha, do FN na França, mesmo que as eleições do parlamento europeu sejam menos concorridas. O eixo Putin-Le Pen ameaça a Europa e o mundo. Apenas na Grécia e na Espanha, alguma esperança política de movimentos progressistas por mudanças.
No Brasil, vimos também uma extrema-direita sair às ruas e expoentes do conservadorismo militarista e fundamentalista religioso terem expressivas votações. Em São Paulo, além do deserto de alternativas políticas ao quase um quarto de século de domínio do PSDB, talvez o ano corrente tenha sido o último em que ainda há água disponível. A tragédia hídrica em curso vai realmente ficar catastrófica no ano que vem e nos próximos.
A frustração com o governo Dilma, veículo de um pacto macabro com a burguesia só vai levar a uma insatisfação crescente. A esperança é que haja mobilização popular para criar uma alternativa real de esquerda na luta social objetiva. Na Europa, o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha são um auspicioso polo de reunião da oposição de esquerda. Com todas as críticas que se devam fazer aos seus projetos, são, objetivamente, o principal ponto de apoio para uma reorganização de uma esquerda socialista.
No Brasil, o pequeno espaço de esquerda eleitoral que principalmente o PSOL ocupou deverá se vincular com a luta objetiva e com a busca de uma unidade, já obtida em muitos estados com a frente de esquerda com o PSTU e, em menor medida, com o PCB. A direção do PSOL, entretanto, assim como muitos dos seus parlamentares são um obstáculo para isso – vide as declarações do recém-eleito cabo Daciolo no RJ. Espero que o PSTU tenha aprendido a necessidade de superar o sectarismo e de buscar a unidade objetiva da esquerda nas lutas e nas eleições. O levante de junho de 2013 foi apenas um ensaio geral. Quando a paciência do povo se esgotar de novo vai ser num novo patamar. Com certeza, 2015 não será um ano monótono. Otimismo do coração e pessimismo do intelecto!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.