sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Unidade, divisão e ódio

Ensaio
06 de novembro de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

A presidenta da República, Dilma Rousseff, em seu discurso de agradecimento pela reeleição, falou em unidade, diálogo e recomposição política aproveitando "as energias mobilizatórias" da campanha eleitoral. Os adversários derrotados (Aécio Neves e Paulo Câmara) também enfatizaram a necessidade da união em prol do Brasil, do povo brasileiro e da federação brasileira. Nunca se viu, nos últimos tempos, uma campanha política majoritária tão despolitizada como esta.
Perdeu-se a grande oportunidade de se convocar os eleitores brasileiros para um debate sobre os grandes temas da agenda econômica do país e suas perspectivas, num momento, aliás, de grandes dificuldades econômicas na vida de cada brasileiro. Apesar do confronto entre duas propostas (neodesenvolvimentista e neoliberal) de gestão econômica do Brasil, suas vantagens e desvantagens: o histórico de dois governos do PSDB e três do PT, o tom da campanha ganhou o aspecto de uma cruzada moralista e de ataques pessoais (com muitas infâmias, calúnias, boatos e difamações), ao gosto do civilismo de certas classes médias urbanas tradicionais (como não lembrar da velha UDN?). Ao invés de uma "esfera pública" democrática onde se podia formar racionalmente as opiniões e a vontade política do eleitor, viu-se a antessala de uma delegacia de costumes cujo objetivo era escandalizar o espectador. Campanha marrom, de par com uma imprensa marrom, de resultados escusos e sensacionalistas. O desserviço prestado à democracia e ao esclarecimento dos eleitores ainda está por ser devidamente analisado.
A invocação por todos da palavra "unidade" significa desunião, divisão, preconceito, ódio e ressentimentos. Um psicanalista da sociedade brasileira diria que em lugar de cultura cívica, amor ao país e mentalidade republicana, viu-se um espetáculo de familismo amoral, de afetos e desafetos mobilizados para a disputa eleitoral, por conselho dos marqueteiros de plantão.
A entrada da ex-candidata Marina Silva mudou inteiramente os termos do debate eleitoral. Enquanto a campanha estava circunscrita a projetos políticos institucionalizados tendo como representantes Dilma, Aécio e Eduardo, ela seguiu um determinado rumo (situação, oposição e uma terceira via). Com a chegada da militante pentecostal, o tom do discurso político mudou, produzindo-se uma despolitização da campanha eleitoral. Infelizmente, com a derrota da candidata-suplente do PSB, o segundo turno não melhorou de qualidade nas argumentações e debates públicos entre os dois candidatos principais. Restou uma mágoa, um sentimento de raiva ou ressentimento, habilmente administrado pelos assessores dos comitês, tendo como alvo o eleitor mais suscetível a esse tipo de pregação política.
A administração do ódio contribuiu muito para potenciar as divisões latentes e manifestas da sociedade brasileira. Os preconceitos, o sentimento de hierarquia social, a apartação geográfica e social entre classes, regiões e camadas socais se ampliaram ou se reatualizaram de uma forma assustadora. Parecia a reemergência do neonazismo e do separatismo de anos passados no Brasil. Eram os ricos contra os pobres, os sulistas e sudestinos contra os nordestinos e nortistas. A classe média tradicional contra a nova classe média. A cidade esclarecida (?) contra o mundo rural atrasado e dependente de esmolas. Discurso fascista que levou muitos desavisados a vestir a camisa verde-amarela, sem entender o sentido da manipulação a que estavam sujeitos.
E, no entanto, as divisões existem, são de natureza objetiva e precisam ser enfrentadas com coragem e determinação. O país tem uma enorme concentração de renda. Os afro-brasileiros são os mais pobres e menos instruídos. As mulheres também são discriminadas econômica e socialmente. Os homossexuais são perseguidos e humilhados. Há uma enorme concentração industrial que se traduz de desigual repartição tributária nacional. O pacto federativo está aos pedaços. Grandes concentrações de terra nas mãos de poucos contrastam vivamente com uma maioria que não tem onde trabalhar no campo. Enfim, as causas da divisão persistem. Mas esta não é a hora de dramatizá-las e tirar delas dividendos eleitorais, como se tentou criminosamente fazê-lo. É hora de reflexão, de reconstruir canais de comunicação, do diálogo sincero e consequente entre o vitorioso e o derrotado. Deve haver um pouco de razão em todos os lados. É preciso uma agenda de reconciliação suprapartidária em benefício do povo brasileiro. Que haja sabedoria na nossa classe dirigente. O Brasil não é de nenhum partido, de nenhum candidato. É de todos nós, sobretudo daquelas que mais precisam da ação do Estado e do governo para melhorar a vida.  É para eles que deve ser voltada a atenção nesse momento, se quisermos acabar com as divisões e os péssimos sentimentos que elas alimentam e constituir um verdadeiro país, uma nação.

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