segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Trotsky e a Europa Ocidental do entre guerras

Resenha [1]
24 de novembro de 2014
Por Mauricio Gonçalves, militante social e doutorando em Ciências Sociais pela UNESP [Araraquara].

Há um pensamento bastante difundido entre as esquerdas marxistas que estabelece uma distinção fundamental ou dualismo entre as mediações políticas necessárias para a conquista do poder e a transição ao socialismo e os diferentes tipos de sociedades. Para as centrais, ou “ocidentais”, o mais acertado seria impulsionar uma guerra de posição. Para as periféricas, ou “orientais”, a guerra de movimento. Segundo essa interpretação, advinda de uma ainda hegemônica leitura da obra de Gramsci, que talvez o próprio marxista sardo tenha ajudado a disseminar, a teoria da revolução permanente de Trotski seria inadequada para as sociedades de capitalismo avançado uma vez que estaria vinculada à mediação da guerra de movimento e seria incapaz de levar em conta formações sociais mais complexas com uma interação dinâmica entre Estado e sociedade civil.
O livro de Mendonça, dividido em sete capítulos, uma introdução, uma coda e um epílogo é no essencial um debate teórico e político que procura problematizar essa interpretação, tendo como matéria-prima os ensaios de Trotski sobre a Europa Ocidental do entre guerras feitos “a quente”, ou seja, na medida em que as lutas sociais e políticas na Inglaterra, Alemanha, França e Espanha do período se desenvolviam. Em suma, é um estudo, como bem coloca o subtítulo do livro, sobre marxismo revolucionário, democracia burguesa e a luta pela hegemonia. Depois de seu Trotski diante do socialismo real [São Paulo, Editora FGV/Faperj, 2010], este é o segundo volume de uma trilogia sobre a trajetória política e o legado teórico de Lev Davidovitch Bronstein que o autor se propôs a elaborar. O terceiro, seguindo mais ou menos o enfoque cronológico, levará Trotski ao “Novo Mundo” e o fará “defrontar-se, no fim da vida, com o grande refúgio de uma vida política burguesa expurgada do idioma de classe: os Estados Unidos” (p.169).
Os anos do entre guerras na Europa Ocidental, segundo Mendonça, “não seriam um período de miséria e agitação revolucionárias generalizadas, mas de recuperação limitada e indecisa, pontilhada por explosões de descontentamentos sem direção definida, de uma mistura entre a luta de classes mais ou menos espontânea e ocasionais insurreições proletárias, sobre o pano de fundo do descontentamento pequeno-burguês com os valores sociais, morais e políticos da velha burguesia” em que “na ausência da revolução proletária, o fascismo acabou por tomar a cena” (p.10). Assim, para o autor, a importância dos textos conjunturais de Trotski do período reside na capacidade que eles têm de nos fornecer ensinamentos para os dias de hoje, pois existiriam algumas aproximações entre tal período dramático e o nosso próprio tempo, onde uma crise estrutural se arrasta e coloca em contraposição crescente o desenvolvimento do capital e a democracia liberal-formal. Além disso, há pelo menos outros dois motivos que tornam o livro relevante: (a) o fato de nos dar mais alguns subsídios para um aprofundamento crítico sobre a natureza da dicotomia “Gramsci-Trotski” e “Ocidente-Oriente” já mencionada, e; (b) a possibilidade que nos oferece de entender e revisitar a própria evolução política e intelectual de Trotski, de sua teoria da revolução permanente e, com isso, dos caminhos e descaminhos do marxismo revolucionário na primeira metade do século 20.
Nas análises concretas de Trotski sobre a Inglaterra, o seu trânsito pelas esferas cultural e ideológica chama a atenção. Comentando-as, o autor afirma que Trotski chega “independentemente a uma expressão rudimentar do conceito gramsciano de hegemonia” (p.52). Além das observações penetrantes sobre a política de frente popular na França e na Espanha da década de 1930 feitas pelo autor de Questões do modo de vida, onde percebemos como frente única e frente popular são dois métodos políticos incompatíveis e com relações muito diversas com a questão da conquista da hegemonia, e uma vez que “está na Alemanha a chave da situação internacional” (p.75), é à ascensão, significados e consequências do fascismo alemão que o grosso do livro é dedicado. É aqui que podemos perceber de modo mais expressivo o método dialético de Trotski em ação: antirreducionismo, reciprocidade e autonomia relativa entre as esferas socioeconômica e política sob o primado da totalidade do capitalismo internacional aliado à ênfase na especificidade do “nível” político e sua capacidade de reincidir sobre a história em desenvolvimento. Foi com tal método, por exemplo, que ele conseguiu visualizar que em determinadas condições sociais dramáticas, e frente à incapacidade das classes sociais fundamentais em dar uma saída para a crise, que a pequena-burguesia foi alçada de modo desesperado à liderança política, levando a cabo um programa racista, nacionalista xenófobo, rancoroso, antipopular, implacável e ao mesmo tempo funcional à sobrevivência do capital em crise. Seguindo Trotski, Mendonça mostra que o nazismo hitleriano “desejava, de certa forma, salvar a burguesia de si mesma” (p.106). Ou seja, em condições de crise crônica do capital as mais singulares combinações entre as “esferas” da política e da economia são possíveis, sem que elas tenham que obrigatoriamente “corresponder” uma à outra.
Mas, o que unifica todos esses textos conjunturais de Trotski? Qual a sua atualidade? De modo resumido: “[...] que a política operária nas democracias liberais burguesas tem uma base material: as ilhas de democracia proletária (sindicatos, associações, etc.) no interior da democracia burguesa, as quais não são simplesmente um prolongamento das velhas instituições parlamentares, mas também o seu oposto, uma clareira no meio da floresta, onde a floresta continua, mas de uma forma transformada, oposta à sua dinâmica própria [...] Se as “ilhas” não forem preservadas e ampliadas, a floresta retomará todo o espaço. O que todas as apreciações de Trotsky à respeito das lutas políticas da esquerda na Europa Ocidental do entre guerras tem em comum está precisamente no exercício da democracia direta – sob a direção do proletariado organizado – no interior da democracia burguesarepresentativa”, de dar um conteúdo real ao invólucro democrático formal, dentro das possibilidades concretas oferecidas por cada situação específica. [...] trata-se de realizar uma tarefa originalmente burguesa – a emancipação política humana – sob a liderança política do proletariado. É precisamente na capacidade da classe operária de estender-se politicamente para além das suas “ilhas” [...] que se realiza a irrupção do discursivo dentro de uma concepção materialista da História” (p.185-86). Seja como for que entendamos a relação “Gramsci-Trotski” e ainda que a elaboração sobre a luta pela hegemonia civil no primeiro tenha um desenvolvimento teórico singular, a teoria da revolução permanente não pode ser entendida como incompatível com a luta pela hegemonia ou como uma mera guerra manobrada unilateral como muitos insistem ou querem acreditar.
Os escritos de Trotski analisados, das derrotas das lutas proletárias radicais principalmente na Espanha e França até especialmente a experiência da ascensão e consolidação do fascismo alemão, episódios para os quais o stalinismo teve responsabilidades longe de secundárias, e mesmo efetivamente criminosas, deixam-nos as seguintes lições: “se a burguesia imperialista tiver que escolher entre a democracia sem o imperialismo ou o imperialismo sem a democracia, ela inevitavelmente escolherá a segunda opção” (p.177), por isso é que “a esquerda mundial não pode subordinar suas posições à “luta antifascista”, isto é, apoiar governos imperialistas liberal-burgueses em oposição ao nazifascismo” (p.176).
Ao fim da leitura, a tese mais fortemente defendida é a de que a necessidade da constituição de uma liderança revolucionária é indispensável como um poder material fundamental para a emancipação, exatamente porque de uma dada situação de classe não surge imediata e necessariamente uma ideologia de classe politicamente correspondente. Será que também aqui podemos pensar em aproximações com a concepção de moderno príncipe em Gramsci?
Todavia, que combinação de fatores contribuiu para o não aparecimento ou consolidação de tal liderança revolucionária em nenhum dos países analisados durante o período enfocado pelo livro? Como se relacionaram os elementos da objetividade/materialidade do capitalismo com as “condições subjetivas” existentes à época? São algumas das questões que o texto nos suscita.
Quanto à sua trajetória intelectual e política, foi a partir dessas análises, especialmente após a chegada de Hitler ao poder e o consequente esmagamento das organizações dos trabalhadores no país da Europa Ocidental com uma das mais pujantes tradições proletárias, que o revolucionário russo fortaleceu sua convicção na necessidade da constituição de uma nova direção revolucionária, a partir do pano de fundo de sua análise de um capitalismo em agonia ou “putrefação”. Assim, ele afirmou algum tempo depois que “a crise histórica da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária”, assertiva influente ainda hoje, principalmente entre muitos círculos trotskistas. Essa redução terá que ser analisada criticamente em toda a sua profundidade por Mendonça, tanto em seu contexto como em seu horizonte de validade, inclusive com os seus rebatimentos para os dias de hoje, no terceiro e último volume de sua trilogia sobre Lev Bronstein. Dada sua alta capacidade teórica e analítica, esperamos ansiosamente pela última parte de seu estudo.
 
Notas
[1] Este texto é uma resenha do livro de Carlos Eduardo Rebello de Mendonça intitulado Trotsky e a Europa Ocidental do entre guerras: marxismo revolucionário, democracia burguesa e luta pela hegemonia. Rio de Janeiro, Editora Gramma/Faperj, 2012, 214p. Originalmente publicado na Revista Outubro n° 22: http://revistaoutubro.com.br/blog/

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