domingo, 16 de novembro de 2014

O que foi e o que é o stalinismo?

Ensaio
15 de novembro de 2014
Por Leal de Campos, militante socialista e ex-preso político

Muito se tem a dizer sobre o processo do aparecimento do que chamamos até o presente de “stalinismo” como fruto da derrota da Revolução Socialista na Europa, a partir início do século passado mesmo contando-se com a vitória de uma revolução na Rússia, o que refletiu a frágil ideia de que o Socialismo iria triunfar logo em todos os países. No entanto, as dificuldades são muitas para se passar esse conhecimento para os jovens militantes de hoje. Cerca de 90 anos se passaram desde então e o discurso burocrático de uma pretensa esquerda que se dizia e ainda se diz “marxista-leninista” complica a compreensão de todos.
Percebe-se, portanto, que algo de grande monta ocorreu naquela época fazendo com que uma única e determinada pessoa passasse a representar um domínio pleno, uma condição, um comportamento e, especificamente, uma concepção teórica baseada numa abusiva prática condicionada a subterfúgios e mentiras que levaram aos impasses das esquerdas em geral de ontem e de hoje. Essa pessoa foi Stalin com sua ânsia de poder e como expressão máxima de uma burocracia que também passou a ter como interesse maior o controle da máquina partidária e da estrutura administrativa da “república dos sovietes” pós-revolução, e ao mesmo tempo aceitando-o como o chefe incontestável, como um novo e temido “Czar”. E, neste sentido, com o apoio dos seus seguidores ele estimula o culto à sua pessoa, tendo como epítetos o de “Guia Genial dos Povos” e “Pai dos Povos” - entre outros. E para impor-se como tal se apresenta como herdeiro do “marxismo-leninismo”.
Ora, pode-se até se traduzir essa expressão como uma continuidade entre o que foi formulado por Marx/Engels e a posterior contribuição de Lenin que propiciou com suas teses a “tomada do poder” na antiga Rússia tzarista e viabilizou a “vitória de uma revolução socialista” num país atrasado e com uma maioria de camponeses analfabetos, e sem uma estrutura industrial consolidada. Mas, isso não passa de um simples equívoco, pois o processo histórico não é linear nem simplesmente somatório. Ou seja, as próprias “teses” de Lênin já alimentavam “polêmicas” quanto ao papel do que seria o “partido dito revolucionário” e à ascensão do proletariado como protagonista da revolução. Se não fosse assim a “ditadura do proletariado” não seria exercida por um grupo de “insignes” dirigentes, após a implantação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), inclusive com o esvaziamento dos sovietes.
Anteriormente, com o racha da direção central do Partido Operário Social Democrata (POSD) russo em 1903, no II congresso realizado no exterior, veio surgir duas frações: bolchevique (majoritária) e menchevique (minoritária). Numa disputa muito acirrada, dos 43 militantes socialdemocratas presentes 22 formaram a maioria (encabeçada por Vladimir Lênin) e os 21 restantes a minoria (liderada por Julius Martov), incluindo Leon Trotsky que apoiou as teses dos mencheviques, mas não se filiou a nenhuma das duas alas. A partir daí, as duas frações irão divergir sobre em que condições a Rússia se encontrava e quais seriam as tarefas para tirá-la do atraso e construir uma nova e promissora nação. Essas insolúveis divergências vão pontuar todo o processo revolucionário de 1905 a 1917, bem como muito tempo depois disso, ou seja, até os dias atuais, incluindo a falta de superação do stalinismo.
Todavia, no desenrolar daquele período anterior, Trotsky se manteve afastado das duas frações e somente adere ao “leninismo” em Abril de 1917, já tendo sido por duas vezes presidente do soviete de São Petersburgo (Petrogrado), a cidade mais importante da Rússia na época, que já contava com uma razoável base industrial e experimentava uma intensa atividade política revolucionária, com trabalhadores, soldados e camponeses se organizando. Então, vamos a alguns fatos já conhecidos:
- as designações relativas a “bolchevismo” e “marxismo-leninismo” foram criações eventuais que passaram a ser usadas a partir da consolidação do stalinismo como uma corrente burocrática e contrarrevolucionária. As expressões até hoje usadas de “partido bolchevique” e “bolchevismo” foram cunhadas por John Reed no seu livro “Dez dias que abalaram o mundo” - ao destacar as importantes contribuições de Lenin e Trotsky, entre outros mais, no desenrolar da Revolução Russa de 1917. Em especial, as ações atribuídas a Lenin, visto que antes de ser um “partido” bolchevique, a conhecida fração do Partido Operário Social Democrata da Rússia, era um agrupamento “leninista”. Isto é, era o “partido” de Lenin.
- em nenhum momento, Marx/Engels disseram que era possível se construir o Socialismo num só país, tendo por base a emancipação do proletariado em nível internacional. Ou seja, as revoluções deveriam se expandir por todo o mundo, a partir dos países mais avançados, da Europa, principalmente. E nem Lenin ou Trotsky defenderam esta estapafúrdia tese. Aliás, nenhum dirigente revolucionário defendia essa proposição naquela época. Mas, para justificar o domínio da burocracia soviética perante a derrota da Revolução Socialista nos países europeus (na Alemanha, principalmente), Stalin vai reforçar esta assertiva como se fosse uma verdade absoluta, induzindo a todas que URSS era a “pátria mãe do Socialismo” e que deveria ser defendida por todos os partidos comunistas do mundo inteiro.
- e para consolidar a defesa do “socialismo num só país” Stalin e seus asseclas vão cunhar o termo “marxismo-leninismo” para se designarem “revolucionários” e herdeiros de Lenin. E é nesse contexto que o stalinismo passou a pautar as atividades dos Partidos Comunistas em todo o mundo e, em particular, de todas as esquerdas, dos anos 20 em diante. Com insano ufanismo se negava as derrotas na Alemanha, Espanha, França e Itália, entre tantas outras, justificando que a existência da União Soviética, por si só, seria suficiente para manter vivo o “pensamento socialista” e fazê-lo triunfar amplamente em todo o mundo, contando com as experiências de um “socialismo real” no Leste do continente europeu.
- por fim, as academias de ciências da URSS passaram a elaborar “novas teses” que incluíam a ideia esquisita de preponderância de nações oprimindo outras mais frágeis como expressão dos imperialismos, mas por outro lado negando a existência da luta de classes e ignorando o capitalismo em cada país. Para eles as burguesias nacionais eram historicamente adversárias das burguesias de outros países, ou seja, o Capital nacional estava sempre em confronto com o Capital internacional, o que não era e nunca foi uma verdade, visto que os capitais se interagem e se associam sempre que possível. No dia a dia, tal como antes, o dinheiro se mistura em todas as negociações globais, tendo por base os ganhos financeiros, tão-somente.
- todas essas teses “construídas” pelo stalinismo junto com a burocracia soviética, da qual ele foi sua expressão política suprema, estimulou os PCs de todo o mundo a viabilizarem variadas alianças com as burguesias nacionais e levou o movimento de massas e os trabalhadores dos respectivos países a inúmeras derrotas. E enquanto isso ocorria, quase sempre, os burocratas stalinistas acenavam que a derrota era passageira, visto que a “pátria mãe do socialismo” estava “encurralando” todos os imperialismos, principalmente o estadunidense. Na Guerra Fria de então a URSS, representando o “Socialismo” iria se sair vitoriosa contra as potências capitalistas ocidentais. Um embuste deslavado que resultou em seguidas perdas dos movimentos revolucionários em vários continentes, sendo China e Cuba exceções por motivos específicos, peculiares a esses países.
- no X Congresso do PCUS, em 1921, os principais líderes da Revolução de 1917 e da então União Soviética (isto é, Lênin e Trotsky) defenderam e impuseram a todos a supressão de frações e correntes de pensamento no interior do Partido, implantaram o “centralismo democrático” e viabilizaram o funcionamento partidário baseado no “monolitismo” - o que não permitiria mais nenhuma discussão aberta e divergente sobre qualquer assunto ou decisão a ser tomada. Embora Alexandra Kollontai e outros mais tivessem se colocados contra estas medidas - através do agrupamento conhecido como “Oposição Operária” - não foi possível reverter essa situação crucial. Fato este que veio contribuir para a consolidação da latente burocracia soviética e, consequentemente, na ascensão do “stalinismo” como uma concepção política totalmente deformada e também como uma corrente antimarxista e contrarrevolucionária.
Portanto, na prática, o processo político de substituição das massas pelo Partido Comunista Soviético, bem como a sua substituição pelo Comitê Central, e deste por uma única pessoa “iluminada” – no caso, Iosef Stalin, o todo poderoso Secretário Geral –, liquidou de vez qualquer possibilidade de se retomar as autênticas concepções marxistas e as lutas revolucionárias, em todas as partes do mundo. Em troca, o regime stalinista induziu a todos insistindo na defesa do Socialismo num só país, e ainda enganou militantes políticos, sofismando que a União Soviética era um verdadeiro paraíso. E também veio a substituir a teoria marxista da luta de classes pelo “conflito” entre países que são exploradores e países que se deixam explorar. Negando assim a predominância da luta anticapitalista, em cada país!
Ora, sem esse entendimento fica muito difícil para qualquer um compreender o que se passou na época e tecer uma análise crítica consistente dos “desencantos do stalinismo; da queda do Muro de Berlim; e do fim da URSS”, como se fosse coisas que aconteceram naturalmente e, sobretudo, um dos principais fatores que levaram ao “ponto final da luta sistémica” contra todos os Imperialismos e, especificamente, contra o imperialismo estadunidense. A disputa entre dois mundos (Socialismo versus Capitalismo), tendo por propaganda a de que o primeiro seria vitorioso sobre o segundo, não tinha consistência e não passava de uma manipulação política de Stalin, endossada pela esquerda em geral. Com a agravante de estimular o “aparelhamento” como uma política de massas.
E para completar o seu domínio sobre tudo e todos, exercendo o mando político como um verdadeiro Czar, vai eliminar, um por um, todos os dirigentes que atuaram junto com Lenin e Trotsky durante a Revolução Russa, bem como traindo também os que lhes fora fiéis na disputa pelo poder, como “queima de arquivo”.

PS - Bom, as informações e análises expostas aqui talvez ainda não sejam suficientes para esclarecer de todo a consolidação da política stalinista e explicar o que de fato é stalinismo de ontem e de hoje, tal como se pretendia. Entretanto, podem até servir para estimular estudos e pesquisas sobre as teses marxistas como um meio, um instrumento, capaz de desvendar o processo de luta de classes e alicerçar a necessidade premente de se buscar a transformação da sociedade capitalista. E, neste sentido, Karl Marx afirmou, com muita clareza e propriedade, que a “tarefa de libertação dos trabalhadores seria obra dos próprios trabalhadores”. Sem a tutela de nenhum partido... Não se pode esquecer isto nunca!

Nota sobre Stalin (1879-1953)
O todo poderoso Joseph (ou Iosef) Vissarionovich Djugashvili, adotou definitivamente o nome de Stalin ("homem de aço") em 1912 quando ativista do Partido Operário Social Democrata (POSD) russo, na Geórgia. Após a vitória da Revolução em Outubro de 1917, passou a integrar o Soviete dos Comissários do Povo - tendo, então, como cargo de função administrativa o de “Comissário para as Nacionalidades”. Mas, em Abril de 1922, por indicação de Lenin, e com o apoio da burocracia partidária, assumiu a Secretária Geral do Partido Comunista da URSS. E a partir daí não parou mais de ascender politicamente, sempre eliminando adversários ou eventuais colaboradores, bem como acumulando e concentrando o máximo de poder, em suas mãos.

Um comentário:

  1. O comunismo tinha uma estrutura mitológica e um sentido escatológico. Apareceram na história pessoas liderando a ideia tentadora do homem ser transcendente de si mesmo. E aí apareceram um stalinismo, um nazismo entre outros paradoxalmente de consequências nefastas...

    ResponderExcluir

Adicione seu comentário.