segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Intervenção militar, o que significa?

Ensaio
17 de novembro de 2014
Silvio Aires, ativista político.

Tenho lido diversos textos defendendo a intervenção dos militares para salvar a pátria de diversos males. Apesar de serem minoria inexpressiva e utilizarem argumentos bastante sofríveis, entendo que temos que tratar esta questão com bastante seriedade. Busquei aqui apresentar o que de fato ocorreu durante a ditadura com relação aos principais temas tratados por estes cidadãos.

Reserva moral, para acabar com a corrupção
Há pouco ficamos sabendo da condenação da fiscal de transito Luciana Tamburini que parou em uma blitz da Lei Seca um veículo sem placa e com o condutor sem habilitação. Ela informou que o veículo teria que ser apreendido e levado para o pátio, apesar do infrator ser juiz de direito. Sua condenação indignou a todos.
Quem, como eu, viveu os anos da ditadura sabe o quanto era comum esse tipo de atitude por parte dos militares e seus familiares. Usava-se muito o “você sabe com quem está falando?”, para indicar que estava acima da lei e que não poderia ser punido como qualquer um. A impunidade é a maior alavanca para o crescimento da criminalidade, e no caso da corrupção não é diferente.
Tendo sido uma das importantes bandeiras dos golpistas de 1964, o combate à corrupção mereceu destaque na ação política dos militares. Tanto que a partir do AI-5, em 1968, se instituiu a Comissão Geral de Investigações (CGI) para acabar com a corrupção. Cinco anos depois, dos 1.153 processos abertos, ao menos 1.000 foram arquivados. Dez anos depois, a comissão foi extinta pelo general Ernesto Geisel, sem resultado concreto algum.
A respeito da corrupção, o comandante-em-chefe do Brasil, general Ernesto Geisel desabafou com o então ministro da agricultura, almirante Faria Lima: “A corrupção nas Forças Armadas está tão grande que a única solução para o Brasil é fazer a abertura”.

Salvar a democracia da ditadura bolivariana
Da mesma forma que em 1964 falava-se em defender a democracia da ditadura comunista, o golpe de primeiro de abril iniciou um período de vinte anos de terror, que pode ser aferido em números. Nos primeiros dias após o golpe o Ato Institucional nº 1 suspendeu os direitos políticos e casou os mandatos legislativos do presidente eleito, governadores, 50 deputados, 49 juízes, 1.200 militares e 1.400 civis. Nos primeiros meses foram presas mais de 50 mil pessoas. As prisões para averiguação, sob tortura, sem acusação formal nem direito à defesa, se tornaram comuns. Ao menos 1.843 presos políticos foram torturados, sem contar com os presos comuns. A tortura virou uma forma comum de obter confissões.

Resolver os problemas econômicos
Os militares deram um intenso combate aos sindicatos e sindicalistas: o direito de greve foi proibido, sindicalistas foram presos, torturados e alguns mortos. Sindicatos foram postos sob intervenção ou simplesmente fechados. Como resultado, o valor real do salário mínimo caiu 43% do início da ditadura até o seu final em 1985, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Os dados do IBGE indicam que os 20% mais pobres da população perderam 30% de seu poder aquisitivo entre 1960 e 1980, enquanto os 10% mais ricos no mesmo período aumentaram em 34% sua participação na renda nacional. Ou seja, um aumento brutal da concentração de renda e da miséria.

Em defesa da pátria
Os militares golpistas de 1964 contaram com o apoio dos Estados Unidos em diversos níveis. Porém o mais estarrecedor é o fato dos militares brasileiros, no momento do golpe, contarem com o apoio de uma frota americana com porta-aviões e contra torpedeiros em nossa costa, prontos para bombardearem o nosso amado país caso a resistência ao golpe tivesse sido mais acirrada. Que patriotas são esses?!

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