terça-feira, 11 de novembro de 2014

Considerações sobre o resultado das eleições 2014

Ensaio
10 de novembro de 2014
Por Igor Calado, campeão brasileiro de matrículas mal sucedidas na academia e militante da FIP – Praiera.

"A política burguesa é a arte de separar os amigos e unir os inimigos".

Duas coisas chamam a atenção no resultado das eleições presidenciais esse ano: O número alto de pessoas que rejeitaram os candidatos apresentados e a vitória apertada da atual gestora. Não se pode fazer uma analise coerente sobre o seu resultado sem levar em consideração duas questões: As manifestações de junho 2013 e a realização da copa no Brasil. Vejamos como essas questões apareceram nas eleições esse ano.
O PT que ao traçar sua estratégia a alguns anos previa uma reeleição fácil esse ano, com direito a anestesia geral da população e amnésia nacional, numa grande confraternização embalada pelo ufanismo da realização da "copa das copas no país do futebol". Em 2013, João Santana, marqueteiro do PT, afirmava sobre as eleições em 2014: "A Dilma vai ganhar no primeiro turno, em 2014, porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer, lá embaixo, e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo.” Mas a copa, para o povo, se materializou em 250 mil famílias removidas de suas casas, em repressão sistemática aos movimentos de contestação e por fim nos gângsteres da FIFA anunciando pomposamente que saiam do país carregando 4,2 bilhões, sem precisar pagar um centavo de impostos. As eleições começaram antes mesmo que terminassem os jogos, no entanto, como se tivessem combinado entre si, nenhum dos candidatos falou da Copa! A copa, principal debate do semestre anterior, trunfo que deveria garantir a reeleição da atual gestora, não apareceu em nenhum dos programas eleitorais, de nenhum dos candidatos. A Copa não deu votos porque a avaliação da população em relação ao evento foi negativa. Portanto não teve Copa!
A realização dos grandes eventos esportivos no Brasil, usados como desculpas para que empresas internacionais, empreiteiras, grandes conglomerados e bancos saqueassem o país foi didático para o povo, o fez perceber algo que apesar de acontecer diuturnamente passa despercebido para o cidadão comum: A espoliação da nação e os privilégios garantidos ao grande capital. As isenções de impostos, a revogação de leis (inclusive a constituição), a criação de áreas de exclusão, a remoção de milhares de famílias e principalmente a construção de estádios bilionários, os mais caros da história, fizeram o brasileiro se questionar sobre o abismo existente entre o tratamento dado pelo Estado a essas grandes empresas e a assistência reservada a população. A confiança na passividade que os movimentos sociais atrelados ao governo impõem a sociedade era tão grande, e a subestimação do povo tamanha que levou a presidente a negociar o aumento de passagens de janeiro para junho pra poder maquiar a inflação. Dilma apostou na imobilização do povo frente a alienação da copa das confederações! Mas esse contraste, entre o tratamento dispensado a FIFA e o direcionado a população, estava agora visível ao Brasileiro comum, fez com que o povo rompesse com a camisa de forças dos movimentos sociais e sindicatos atrelados ao governo. Depois de 11 anos de governo petista o dique da indignação rompeu-se e se materializou na rebelião popular das grandes manifestações de junho de 2013, a verdadeira festa da democracia ainda em construção no Brasil.
Em 2014 todos os partidos e candidatos tentaram canalizar essas manifestações em votos. A insatisfação expressa nas ruas ano passado materializou-se nas eleições esse ano, tanto no voto na 'oposição' a atual gestão, como na rejeição completa a todos os postulantes, o boicote. A esquerda institucional não teve qualquer ganho político nesse sentido.
A morte de Eduardo Campos marca uma reviravolta nas eleições. A campanha que começa com total apatia e indiferença dos eleitores vira tragédia potencializada pela cobertura da rede globo explorando de todas as formas o defunto, e termina como comédia pastelão com candidatos quase se esbofeteando na disputa por apontar a sujeira do outro.
Para se ter uma ideia de como as manifestações influenciaram nas eleições esse ano observemos o discurso construído pelos marqueteiros da candidata Marina Silva sobre a "nova política" no primeiro turno e a opção entre a candidata que "muda mais" versos o candidato que "muda de verdade" no segundo. Ou até a tentativa de desvinculação da atual gestora de sua própria gestão sob o slogan de "novo governo, novas ideias", ou ainda a campanha plebiscitária do medo que construiu a ideia da ameaça catastrófica da "volta da direita" que por fim mobilizou parte significativa da juventude e movimentos sociais vinculados ao governo. Enfim, os enganadores, os ingênuos e os que gostam de se enganar.
A vitória apertada do PT nesse segundo turno foi sem dúvida o melhor cenário possível do ponto de vista do avanço das forças que defendem a revolução em nosso país. Pra se eleger esse ano o PT teve que se pintar de "esquerda" pra juventude, usando e abusando da imagem da jovem Dilma, transformada pelo marketing político numa versão feminina de Che Guevara, na verdade em oposição a tudo que seu governo é e defende. Pra se reeleger ela também precisou mostrar as grandes empresas e bancos que financiam sua campanha e sustentam seu governo que não tem nenhuma inclinação democrática a esquerda, que manterá o esquema de 'segurança' da copa, que tomará as medidas necessárias para assegurar os lucros dos monopólios e que ainda é capaz de mobilizar e amordaçar os movimentos sociais em torno de seu projeto. Se levarmos em consideração a pequena diferença entre os votos que separou Dilma e de Aécio no segundo turno, pouco mais de 3 milhões, ou seja, que o PSDB poderia ter se elegido retirando do PT pouco mais de 1,5 milhões de votos. Pode-se concluir que os ”votos críticos” elegeram Dilma! No entanto o PT fará o governo mais a direita de todas as suas gestões.
O Boicote, por outro lado, teve esse ano o seu melhor desempenho, além da criação em todo o país de um movimento de contestação as eleições burguesas, aumentando a politização e o nível de consciência dos que rejeitam a farsa eleitoral. No Rio, o número de abstenções, brancos e nulos superou nos dois turnos, o candidato eleito. Que legitimidade tem um governador que assume o cargo nessas circunstâncias?
A crise que se avizinha e que a atual gestão escondeu até o momento, vendendo tudo que pôde do patrimônio dos brasileiros (portos, aeroportos, reservas de petróleo etc) finalmente aparecerá de corpo inteiro no próximo ano. Ter permanecido no poder foi a maior contribuição que o PT poderia ter dado a revolução em nosso país. Serão 4 anos didáticos que terminarão com Lula, se este não for inteligente o suficiente pra querer voltar, dizendo que fará as mudanças que o país precisa!
No mais, nenhum dos candidatos apresentou qualquer proposta para resolver a questão mais central de nosso subdesenvolvimento: A questão da concentração de terra. O que poderia dar independência e soberania alimentar a milhões de pessoas no campo. Em contraposição ambos se comprometeram em manter e ampliar o “Bolsa família”. Repassar recursos para famílias miseráveis é o mínimo que se pode fazer. Transformar essa ação em uma política estratégica de duração indefinida visa unicamente o controle político de camadas empobrecidas.
Nas ultimas eleições o PT tem usado o slogan “A esperança venceu o medo” como resumo do resultado das eleições, não por acaso esse slogan não apareceu esse ano, já que o triunfo do medo foi a condição necessária para vitória eleitoral do PT. Nas redes sociais os que entraram no discurso da possibilidade catastrófica da “volta da direita”, criado pra fabricar divergências convenientes, transformaram os possíveis apoios críticos em uma espécie de novo governismo, que só se manterá, nos que evoluírem para o conservadorismo. Nos últimos meses, todos nós compartilhamos textos e imagens ultra-tendenciosas como se fossem a revelação da verdade. A verdade é que todos perdemos a razão e é preciso um tempo para que a realidade se imponha. A boa notícia é que ela ha de se impor.
Por fim, o fato de o povo não ter construído ainda a sua alternativa fez muita gente ver no Aécio uma falsa alternativa a Dilma, fez muitos de nós também optarem pelo menos pior e outros ainda, rejeitarem ambos. Em comum o fato de que todos almejam uma mudança verdadeira, nisso deve residir nossas esperanças!
Como dito no começo "a política burguesa é a arte de separar os amigos e unir os inimigos".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.