quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A morte também reclama o que é seu: impressões sobre 'Ventos de agosto'

Resenha
05 de novembro de 2014
Por Renato Kleibson Silva, Cientista Social pela UFPE e mestrando em Ciências Sociais pela UFRN.

Gabriel Mascaro talvez seja o cineasta mais profícuo na atual cinegrafia pernambucana. Há basicamente oito anos ele desenvolve trabalhos em várias linguagens – cinema, vídeo, instalações urbanas, etc. – e suportes – dispositivos móveis, câmeras em película e digital, etc. –, como podemos ver em sua homepage [1]. Mascaro tenciona em seus trabalhos os limites cada vez mais maleáveis entre a ficção e a não ficção, ou seja, busca formas híbridas na linguagem cinematográfica onde haja um diálogo entre o verossímil e o inverossímil.
Em sua mais recente produção cinematográfica, a etnografia experimental-fantástica filmada em digital, Ventos de agosto (2014). O longa narra a história de um pescador de apneia, Jeison (Geová Manoel dos Santos) que encontra um cadáver já há alguns dias boiando no mar, sem rosto porque os peixes já o comeram e com o ventre cheio de água. Daí há o périplo de Jeison para dar um enterro digno (cristão) ao defunto. Neste ínterim, o cerne do enredo é desenvolvido. Porém, a eterna tensão entre Natureza versus Cultura (imóvel versus móvel) já nos é apresentada antes mesmo de Jeison encontrar o cadáver no mar.
O conflito entre a natureza hostil e a simbologia que Jeison tenta implementar em sua relação com os mortos, é detonado a partir do momento em que ele encontra em meio aos corais o crânio de um homem morto há anos. O que o intriga, assim como à sua namorada Shirley (Dandara de Morais), são os dentes de ouro presente no crânio. A necrofilia de Jeison é, de início, apontada em seu desejo iconográfico de emoldurar a fotografia de sua finada mãe, em suporte diferente (vivo versus morto), com a dele e a do pai (vivos).
Agosto, além de ser um mês famoso por sua afinidade eletiva com a morte no imaginário, principalmente do litoral nordestino, é também o mês dos ventos e, estes, no filme, são captados de maneira modular como uma estretégia narrativa que chama atenção para a presença de movimento em uma natureza em plena ebulição. Como no Cavalo de Turim (Bela Tarr, 2011) o vento é a régua e o compasso de uma localidade que vive sob a linearidade do tempo. Ou seja, antes do advento da cultura cristã, o tempo era circular, regido principalmente pelas estações do ano, era um tempo pagão. E a vila de pescadores onde se desenrola a narrativa de Ventos de agosto aponta uma estranha relação do tempo com o espaço. Se o tempo é linear, pagão; o espaço é circular, cristão. Basta vermos a presença da rezadeira e do cemitério.
O ponto nevrálgico do filme aponta o choque entre o rito tanto pagão quanto cristão em rota de colisão com a natureza que não abre mão do que é seu, apesar das tentativas de circunscrevê-la em seu lugar como no caso do muro de arrimo para proteger o cemitério na beira mar feito por Jeison. O mesmo esmero no trabalho não é feito por ele para proteger a sua casa da cheia do mangue. Aos vivos, areia; aos mortos, pedra. Jeison é um homo simbolicus em meio à cultura (monetária) e a uma natureza (caótica) refratária a estas nuances do espírito humano.
O embate entre a modernidade (Coca-Cola, tatuagens, punk rock, motocicletas e parabólicas) e a tradição (a pesca, a rústica extração do coco e da suinocultura) é sedimentado, assim como a ausência do Estado (a polícia não chega nunca) e do mercado (a dificuldade do celular), pela profusão de arquétipos universais presente no filme: o barqueiro que conduz os mortos, o mar em conflito com o vento (Posêidon versus Éolos), a permanência da morte, etc. Se o mar quer o que é seu – o corpo –, o vento quer levá-lo para longe assim como lançou Odisseu de volta para a sua Ítaca, para sua terra, porque o homem também reclama suas raízes, seu rincão de terra mesmo à revelia da natureza.

Notas
[1] Disponível em http://pt.gabrielmascaro.com/ Acesso em 31 de outubro de 2014.

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