quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Para quem é útil o voto útil? | Pensar em movimento para além das urnas

Ensaio
08 de outubro de 2014
Por Betto della Santa, comunista-internacionalista, jornalista e doutor em Ciências Sociais pela Unesp Campus de Marília-SP.

No segundo turno de 2010, assim como acontece este ano, havia uma poderosa campanha pelo voto útil, o voto crítico em Dilma Rousseff (PT), incidindo sobre os trabalhadores e a juventude. A coerção social e política sobre a esquerda socialista foi tremenda, e em 2014 não é diferente. Luciana Genro (PSOL) declarou: "Aos que perguntam sobre como votarei: não pretendo abrir meu voto, exceto para dizer: Serra Não!".
A posição de Mauro Iasi (PCB) foi: "derrotar Serra nas urnas, vencer Dilma nas ruas". Isto é, mais aberta ou envergonhadamente, com maior ou menor sofisticação, a fórmula política do 'voto crítico' no PT e contra o PSDB. Mais uma vez foi necessário que a campanha de Zé Maria (PSTU) se postasse à contracorrente chamando o voto nulo. Uma posição de independência de classe.
Mas neste ano há uma novidade política em termos quantitativos e qualitativos. Às velhas e nada boas teorias-programa de cálculo eleitoral (e realpolitik profissional), com os velhos marketeiros políticos aliados aos novos analistas de rede social, soma-se agora o dado real e nada alentador de que desde 1964 não se elege uma bancada legislativa tão afeita ao neoconservadorismo mais reacionário: fundamentalistas, ruralistas e militares. Para que se tenha uma ideia não são poucos os neoanarquistas e neoautonomistas que já vestiram as insígnias black bloc e entoaram slogans anticapitalistas em 2013 colocando agora a máscara política do Avatar de Dilma em 2014 para chamar votos no PT e "derrotar a direita."
A velha redução do embate hegemônico a uma luta do bem contra o mal, ou do menos pior contra o mal maior, agora se traveste de uma espécie de Armagedon político-social de proporções bíblicas. Marilena Chauí se diz estarrecida com a votação paulista em Geraldo Alckimin. Emir Sader sataniza a aliança entre Marina Silva e Aecio Neves. Breno Altman vocifera contra o que ele chama de extrema-esquerda conclamando a todas e todos por uma Nova Santa Aliança. Mas nenhum deles se pergunta: quais são as responsabilidades da esquerda oficial (e governista) pelo crescimento eleitoral do que nós chamamos de extrema-direita? Vamos assistir um verdadeiro MMA onde a moral e a política do vale-tudo vão presidir o corpo-a-corpo entre o Partido da Imprensa Golpista e o Partido da Imprensa Governista, PIG I versus PIG II, estes dois nada simpáticos porcos chauvinistas.
O que a campanha eleitoral pelo voto útil impõe é a política da amnésia: o esquecimento coletivo do que aconteceu entre 2003 e 2014, sobretudo setembro de 2005 e junho de 2013. Não nos enganemos. Há duas candidaturas do sistema do capital. Votar em Aecio é legitimar Cesar Maia e Yeda Crusius. Votar Dilma é dizer amém a Collor e Maluf. E tanto pior: dizer amém a um governo que irá chafurdar mais fundo no esterco de contradições agora com cores e texturas semifascistas. Que irá se compromissar mais com a bancada da bala, com a cruzada moral antimulheres, com o preconceito racial antinegros, pardos e nordestinos e com o genocídio aberto contra indígenas, quilombolas e sem-terras. Quem está realmente preocupado com o recrudescimento da direita e o fortalecimento do conservadorismo, quem quer barrar a direita e parar os pés do fascismo, tem um compromisso: afinar o coro do voto nulo.
Mais a mais pode-se perceber outro fator presente nesta disputa. A intelectualidade mais sistêmica, os gestores políticos da ordem, começam a perceber o perigo dos abalos estruturais nesta forma de governo. A crise social e política atinge agora o sistema de eleições. Cresce o número de abstenções, brancos e nulos. O sinal molecular e embrionário que há algo de novo por aí.
Uma esquerda não-governista, não-institucional e antiburocrática, à esquerda da esquerda, tem uma missão. Enquanto eles estiverem disputando governos, mandatos e verbas; nós precisamos tecer a manhã. Este mundo não nos pertence. É preciso construir a cidade futura. Essa luta não começou ontem e não termina amanhã. O voto nulo não é mais que o começo.

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

Paulo Leminski

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.