terça-feira, 21 de outubro de 2014

Notas sobre o PSDB e a política externa

Ensaio
20 de outubro de 2014
Por Silvia Adoue, militante socialista, professora da Escola Nacional Florestan Fernandes [ENFF] e do Departamento de Letras Modernas da Universidade Estadual Paulista [UNESP] Campus de Araraquara-SP.

Uma pergunta que fazem insistentemente companheir@s da América Latina é como será o alinhamento do Brasil no caso do PSDB ganhar o segundo turno. Um exercício de "imaginação sociológica" vale a pena neste caso. No calor das disputas eleitorais, aponta-se para Dilma alinhando um projeto neodesenvolvimentista e Aécio associado ao capital norte-americano. Creio equivocado, do ponto de vista da análise objetiva, e não apenas como agit-prop (agitação e propaganda), afirmar tal coisa. Porque a questão não é simplesmente de uma ou outra direção política.
A "opção" neodesenvolvimentista é uma questão de Estado, e não apenas de governo. Perguntam-me se num eventual governo Aécio Neves, o Brasil entraria para a Aliança do Pacífico. O que respondo é que a economia brasileira não é a do Peru, a do Chile e nem a da Colômbia. Os interesses do capital aqui encontram no BRICS e na Unasul um mercado fundamental para sua expansão. Uma política externa que renuncie a esses mercados em nome de qualquer opção de natureza ideológica é suicídio para os interesses do capital que vêm predominando aqui. Mesmo no governo FHC, ainda que mais timidamente, apontava-se para isso. Tanto que uma brincadeira comum na época entre aqueles que defendiam uma política externa mais independente dos EUA, era que FHC era um presidente "pomada" ("só serve para uso externo"). Não era bem assim, mas a brincadeira serve para iluminar uma questão de fundo.
Qualquer governo que renuncie ao projeto em curso teria uma grande instabilidade. Não apenas porque enfrentaria uma massificação das lutas dos de baixo (o que já vem ocorrendo no governo PT), mas porque os interesses do capital vão ser afetados. Se um eventual governo Aécio quiser conquistar uma mínima estabilidade terá que dar continuidade a essa política de financiamento e investimento da expansão do capital na região e na África.
Aqui um parêntesis para aprofundar com um exemplo paradigmático: o próprio governo Cartes, que acenou com um alinhamento com a Aliança do Pacífico, terminou privilegiando acordos com Brasil. O candidato (derrotado) à presidência do Paraguai pela Frente Guasu me perguntava porque nem Lula nem Dilma haviam topado um encontro na sua viagem para o Brasil no ano passado. É a economia, companheiro. Cartes, e não Aníbal Carrillo, é o homem que interessa para o Brasil. A opção não é ideológica. E os projetos do Estado brasileiro, de expansão dos negócios da região, estão indo melhor com Cartes do que iam com Lugo. Há 34 maquilas brasileiras no Paraguai (muito mais da metade do total de maquilas). O projeto da ampliação do porto de Assunção tem sido um grande negócio e um "trunfo" para o governo brasileiro (e as construtoras que representa, assim como o Banco Itaú). O Itamaraty, tanto no governo de FHC como nos governos do PT, tem representado muito bem os interesses dos “sojeiros brasilguaios”, numa ingerência surpreendente nos assuntos internos do país vizinho, intercedendo para que a lei paraguaia seja burlada e se reconheçam as propriedades dos “brasilguaios” na faixa de fronteira. Isto sem falar nos acordos sobre Itaipu ainda no governo Lugo. Mas há políticas externas que favorecem a expansão dos negócios na Argentina, Equador, Venezuela, Cuba, Moçambique, Guiné Bissau e inclusive no Peru e no Chile, membros da Aliança do Pacífico. Aécio vai renunciar a isso? São, claro, hipóteses prospectivas, para além da agit-prop (agitação e propaganda). Mas temos a responsabilidade de pensar nessas questões para a preparação das lutas que temos pela frente.

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