sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Injustificável apoio a Aécio

Ensaio
17 de outubro de 2014
Por Mauricio Gonçalves, militante social e doutorando em Ciências Sociais pela UNESP [Araraquara].

Mesmo que a polarização PT-PSDB ainda pareça ter fôlego no desgastado sistema socioeconômico e político-cultural brasileiro, é completamente inconcebível para os que lutam por uma sociedade justa e igualitária apoiar ou mesmo votar em Aécio Neves (PSDB), qualquer que seja a justificativa que se queira utilizar. Uma coisa é o ciclo PT ser fechado pela esquerda, a partir das organizações dos trabalhadores e movimentos sociais populares em luta, ou seja, de modo progressivo. Outra, bem distinta, é ser fechado pela volta regressiva do PSDB e das forças sociais classicamente antipopulares, violentas e preconceituosas. Tentar colaborar para a saída do PT do governo apoiando forças sociais de direita com a justificativa de renovação e a possibilidade de mais avanços para o país pode ter vários motivos: ingenuidade, perda da “razão política”, venda de mais e piores ilusões, defesa de interesses corporativos ou ato de má fé. Quando falamos de Cristovam Buarque (PDT) ou Marco Aurélio Nogueira (ex-PCB), para citar apenas alguns, fica difícil acreditar em ingenuidade política.
A necessidade e tentativa de constituição de uma “terceira via” político-social, resultado de uma conjugação de forças sociais progressivas, apareceu como farsa já em duas eleições presidenciais seguidas com Marina Silva (PSB-Rede). As esquerdas antissistêmicas e antigovernistas mantêm-se marginais quando considerados os parâmetros nacionais mais amplos, ainda que tenha aumentado o seu espaço social e o terreno para sua influência. Devem continuar crescendo, num cenário de maior polarização social, uma vez que o horizonte socioeconômico brasileiro e mundial não se encontra tão favorável à continuidade e à ampliação de programas sociais importantes, ainda que sempre enviesados, deturpados e unilateralizados pelos governos “sociais liberais” do PT nos últimos 12 anos. O atraso na produção de uma terceira via que consiga remodelar os pilares nos quais se apoiam a corrupta e fisiológica política nacional, sempre a serviço da manutenção dos interesses das classes dominantes de fora e de dentro, gera fenômenos políticos curiosos e mesmo aberrantes.
Na tentativa de justificar seu apoio a Aécio Neves (PSDB) e às forças sociais que o suportam no segundo turno das eleições 2014, intelectuais, políticos e ativistas que outrora estiveram em partidos, movimentos e organizações das esquerdas antissistêmicas ou democráticas dizem que a possibilidade de renovação, oxigenação e avanços para o Brasil se liga ao apoio à candidatura tucana. Para a vergonha indelével de seus passados progressistas. Cansados, desmoralizados e/ou marginalizados pela própria política levada a cabo pelo petismo, que se afastou dos apoios históricos ligados às classes trabalhadoras que caracterizaram sua formação e desenvolvimento e se vinculou ao fisiologismo nu e cru que qualquer projeto social alternativo tem que combater com vigor e pela incapacidade ou atraso das esquerdas antissistêmicas de iniciar a produção de uma autêntica alternativa popular de massas , eles mostram um desencanto e um desespero por atalhos e falsas soluções. Apoiar Aécio vendo nele alternativa progressista ao petismo é um malabarismo político nauseante. Não deixa de ser deprimente perceber até que ponto Cristovam Buarque (PDT) e Marco Aurélio Nogueira, ex-PCB, por exemplo, estão chegando. Eles são apenas representantes típicos de um setor social mais amplo. Diz o manifesto assinado por Marco Aurélio Nogueira (colocado mais abaixo): “Chegou a hora de as oposições mostrarem que podem governar o País. Esperamos que frutifique a aliança programática que se constituiu em torno de Aécio Neves, impulsionada por PSDB, PSB, PPS e PV, entre outros partidos, e pelo apoio de lideranças políticas importantes, como Marina Silva. Esta aliança será importante para que se consolide uma perspectiva de renovação. Trará ideias e temas novos, bem como novas modulações. Agregará mais pessoas comprometidas com a democracia. E ajudará a que se supere o quadro de estagnação em que se encontra a política nacional, quebrando a prevalecente polarização e criando um polo progressista novo, alargado e requalificado”.
Os sentimentos de mudança atingem de modo diferente os mais diversos segmentos sociais. Um desses modos é votar em Aécio esperando avanços e renovação, uma vez que a política de conciliação de interesses sociais inconciliáveis, e o modo petista de realizá-la, vai chegando ao limite. É uma linha de argumentação que se diz de esquerda, mas defende o voto e apoia forças sociais de direita. Uma “esquerda” com a qual a direita se identifica. Uma “esquerda” para a qual a distinção entre esquerda e direita parece ter perdido o sentido. Uma esquerda à sombra do poder e distante das lutas e dos movimentos sociais populares. É triste ver autodenominados “reformistas democráticos de esquerda” chegar a tal ponto: “Como democratas de esquerda, votaremos neste segundo turno em Aécio Neves e na aliança que se forma em torno de sua candidatura. Conclamamos eleitores e políticos dos diferentes partidos a nos acompanharem nesta opção. Ela se mostra hoje o melhor caminho para a reforma da política, a recuperação das boas práticas de governo e a preservação das conquistas sociais tão duramente alcançadas nas últimas décadas”.
Aos ativistas sociais e organizações sindicais, estudantis e populares, cabe continuar na luta direta – mas também institucional – pelas demandas e interesses históricos das classes trabalhadoras, sem ilusões em forças sociais que há décadas se locupletam do sistema político nacional. Cabe àqueles, produzir um campo político-social capaz de se constituir como alternativa autêntica aos partidos da ordem e à falsa polarização PT-PSDB. Por mais difícil e sacrificante que isso seja. Se a conjuntura política nos colocou mais uma vez diante da opção entre as duas formas representadas pelo PT ou PSDB de gerir a hegemonia das classes dominantes no Brasil, optar pelo PSDB é realmente, para aqueles que se dizem democráticos, reformistas e de esquerda, uma opção completamente inaceitável.

Abaixo as argumentações e malabarismos dos dois (que são típicos de uma “camada social média ilustrada”).

Cristovam Buarque (PDT):
“Com Marina Silva (PSB) fora da briga, Cristovam afirmou que não acredita que nenhuma das duas candidaturas em jogo vá trazer reais mudanças para o Brasil, mas anunciou que o tucano ao menos renovará os quadros administrativos. "Representaria um passo para a oxigenação. Seu governo não começaria com um cansaço de 12 anos", explicou o senador”.
Fonte:http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/politica/2014/10/08/interna_politica,534935/a-contragosto-cristovam-buarque-escolhe-aecio.shtml

Marco Aurélio Nogueira, ex-PCB [1]:
Democratas de esquerda com Aécio: valorizar os direitos sociais, a sustentabilidade e a democracia para poder avançar.

1. Somos intelectuais, ativistas, profissionais de diferentes áreas e cidadãos de esquerda. Temos participado da vida brasileira mediante engajamentos em causas variadas. Alguns de nós estão ou estiveram vinculados a partidos. Outros jamais tiveram qualquer ligação deste tipo. Nossas posições independem de orientação partidária. Nosso partido é a esquerda democrática, amplo e diversificado universo de homens e mulheres que defendem a democracia política, o pluralismo e a justiça social como base para uma sociedade mais igualitária, fraterna, onde os direitos humanos sejam valorizados, a sustentabilidade sirva de plataforma para a defesa do trabalho e impulsione um crescimento econômico não agressivo e não predatório.
2. Sempre respeitamos o PT. Muitos de nós votaram várias vezes em seus candidatos, ainda que não em todas as eleições e nem para todos os cargos. Sempre pensamos que o rico pluralismo da esquerda deve se combinar com a recusa a qualquer posicionamento rígido e inflexível, regido por princípios abstratos ou comandos partidários. Não aceitamos que nenhum partido fale em nome da esquerda, como se fosse seu único representante coerente.
3. Partidos e candidatos mudam ao longo do tempo. Nós, cidadãos, também. Políticos e governos nascem de um jeito, mas não permanecem iguais. O que se fez num período não pode ser repetido sem mais em outro período. Realizações de um tempo servem de base para conquistas de outro tempo, mesmo que governos sejam distintos ou adversários. A capacidade de valorizar conquistas cumulativas, de buscar consensos mais que divergências, é um caminho que se mostra particularmente importante em um país como o Brasil, que tem vivido uma intensa modernização econômica e social sem o devido acompanhamento de uma modernização política, como demonstraram as grandes manifestações de junho de 2013.
4. Nas eleições de 2014, nos decepcionamos com o PT. O partido e o governo Dilma enveredaram por um caminho ruim nos dois últimos anos. A polarização com o PSDB foi levada ao absurdo, tendo sido corroborada pelos tucanos. Converteu-se num fator que dificulta o deslanche das reformas sociais e a ampliação da democracia. O sistema, envenenado demais, precisa de ar, de novos quadros e novas linguagens. A campanha petista no primeiro turno expressou o enfraquecimento do PT como partido de esquerda. Valeu-se de táticas e subterfúgios que desonram o bom debate. Caluniou, difamou e agrediu moralmente a candidatura de Marina Silva, sob o pretexto de que seria preciso fazer um “aguerrido” confronto político. Atropelou regras procedimentais e parâmetros éticos preciosos para a esquerda e a democracia.
5. Chegou a hora de as oposições mostrarem que podem governar o País. Esperamos que frutifique a aliança programática que se constituiu em torno de Aécio Neves, impulsionada por PSDB, PSB, PPS e PV, entre outros partidos, e pelo apoio de lideranças políticas importantes, como Marina Silva. Esta aliança será importante para que se consolide uma perspectiva de renovação. Trará ideias e temas novos, bem como novas modulações. Agregará mais pessoas comprometidas com a democracia. E ajudará a que se supere o quadro de estagnação em que se encontra a política nacional, quebrando a prevalecente polarização e criando um polo progressista novo, alargado e requalificado.
6. Entendemos que Aécio Neves e aliados representam a oportunidade de que se retomem os fios rompidos da vasta tradição do reformismo democrático no Brasil. Damos a ele nosso apoio na expectativa de que seu eventual governo dê seguimento às vitoriosas políticas sociais dos últimos anos. Programas bem sucedidos e de grande impacto social, como o Bolsa Família, o Mais Médicos e o Minha Casa Minha Vida, podem e devem ser aperfeiçoados e ampliados. O Estado precisa continuar a ser recuperado como fator de regulação e de promoção do progresso social.
7. Um país onde haja mais participação e os movimentos sociais sejam ouvidos, onde não se criminalizem as mobilizações populares e a polícia atue nos marcos do Estado de Direito, onde se governe para todos e se respeitem as diversas minorias, as sociedades indígenas, as comunidades quilombolas e seus territórios, e se valorizem a educação, a saúde, a previdência e a Seguridade Social – é o que imaginamos como meta a ser privilegiada. Queremos um Brasil onde todos possam viver e conviver em paz, sem medidas que sacrifiquem e comprometam a juventude ou reprimam a criatividade e diversidade cultural do país. Não aceitamos que se aprisione a sociedade brasileira num maniqueísmo “povo” x “elite”, que leva os cidadãos a simplificar o que não pode ser simplificado. Nem que se deixe solto o poder econômico e se permita que empreiteiras e grandes empresas invadam o processo político e eleitoral, corrompendo e deformando a democracia.
8. Pensamos que se deva adotar imediatamente uma visão mais abrangente do desenvolvimento e que se introduza com clareza a sustentabilidade nas decisões sobre políticas públicas, fazendo com que ela esteja presente tanto no campo quanto nas cidades. Numa sociedade como a brasileira, a agricultura familiar e camponesa precisa ser fortalecida, por inúmeras razões econômicas e sociais, assim como se deve atuar para proteger nossos territórios, seus recursos naturais e suas populações.
9. Precisamos de governos que bloqueiem a corrosão que os interesses privados vêm promovendo no campo público, como ocorre no SUS, na educação e na política assistencial. O capitalismo brasileiro se consolidou sob os governos do PSDB e do PT, tendo sido modelado pelas mesmas elites econômicas e pela predominância do capital financeiro. Agora, temos de avançar para um novo patamar de modernização e superar o liberalismo que presidiu àquela consolidação. Não dá para aceitar que os setores mais pobres da população sejam abandonados à própria sorte ou transformados em consumidores, em vez de cidadãos. Os direitos humanos não são negociáveis e nem se pode postergar a expansão dos direitos sociais e dos trabalhadores, seja mediante o aumento e a qualificação dos empregos, seja mediante a melhoria geral das condições de vida.
10. Como democratas de esquerda, votaremos neste segundo turno em Aécio Neves e na aliança que se forma em torno de sua candidatura. Conclamamos eleitores e políticos dos diferentes partidos a nos acompanharem nesta opção. Ela se mostra hoje o melhor caminho para a reforma da política, a recuperação das boas práticas de governo e a preservação das conquistas sociais tão duramente alcançadas nas últimas décadas.

Notas
[1] Para mais informações sobre a posição de Marco Aurélio Nogueira, intelectual representativo do “reformismo democrático de esquerda”, ver: http://marcoanogueira.blogspot.com.br/2014/10/a-hipotese-socialdemocratica.html

Um comentário:

  1. Compreendo o temor poético do poeta Aldir Blanc, com respeito ao nosso querido Brasil: "Se cobrir, vira circo... Se cercar, vira hospício..." (Paulo Magon).

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