segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Da fúria das ruas ao eleitorado conservador

Ensaio
13 de outubro de 2014
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT.

Ao findar o primeiro turno das eleições em nível nacional, o quadro institucional eleitoral estabelecido pelas urnas parece desalentador. O mapa eleitoral de 2014 demonstra de maneira pragmática que um voto conservador teria se instalado e conduzido figuras emblemáticas como Marco Feliciano, Russomano, Bolsonaro, Tiririca, entre outros. A vitória de Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno do maior Estado industrializado do Brasil representaria essa tendência, além é claro do pântano em que se meteu a candidatura Dilma Rousseff (PT) no 2º turno na disputa à presidência da república, que pelas previsões do próprio PT, não aconteceria.
Em consequência dessa situação, novos e velhos militantes que se reivindicam da esquerda brasileira chegaram à triste conclusão: “as mobilizações das jornadas de junho protagonizadas pela juventude e por um proletariado precarizado serviram para trazer de volta o governo neoliberal de Aécio Neves (PSDB)”. E arrematam: “o governo Dilma está em perigo, chamemos o voto em Dilma!”. E outros, mais envergonhados – mesmo conservadores –, optaram por dar o nome de "voto crítico", que nada mais é do que uma variante reformista, na defesa do regime democrático burguês. Os que assim o fazem, revelam seu grau de adaptação ao regime.
Não pensamos assim. Concordamos que as candidaturas tem históricos distintos. Dilma como Lula tem origem nos movimento sociais. Ela foi na juventude uma ex-guerrilheira, presa e torturada nos anos de ditadura militar. É como seus marketeiros gostam de representá-la, como na foto característica, sentada no banco dos réus diante de uma junta militar com a frase "Coração Valente". Por outro lado, Aécio Neves é um político de família tradicional de Minas Gerais, ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de formação neoliberal. Ambos fundadores do PSDB. Mas, votar em Dilma deveria ser balizado por isso? Isso por si só a credenciaria como representante dos interesses históricos da classe trabalhadora? As aparências que o marketing de campanha nos tenta passar seriam suficientes a ponto de nos revelar as verdadeiras relações sociais da candidatura Dilma Rousseff (PT)?
A forma de governo do PT está mais para unidade nacional do que para uma forma clássica de frente popular (do tipo chileno). A base de sua representação é um leque de alianças que integram figuras como Fernando Collor, Kátia Abreu, Paulo Maluf e José Sarney, com partidos burgueses que tem o PMDB como sua maior expressão na governabilidade. Aqui não se encontra diferenças na essência com o próprio PSDB, que se caracteriza como um partido burguês e que tem como estratégia recuperar o controle do seu Estado e o dirigir juntamente com sua base social. Bem, desprezemos as aparências, reconhecendo seus protagonistas pelas relações de classe na qual eles estão envolvidos. O PT e sua candidatura tem uma dualidade. Social, por continuar se apoiando na base dos muitos movimentos sociais, mesmo que em nossa opinião esse círculo já tenha se fechado, e uma tendência à estagnação econômica já seja real. Porém, sua política revela a colaboração de classe explícita com os setores mais reacionários da burguesia. Isso tem a ver com a base social que eles representam na atualidade.
Há muito tempo a burocracia petista não depende financeiramente dos aparatos dos movimentos de massas do qual faziam parte. Essa burocracia ascendeu ao patamar do Estado e passou a ser financiada agora pelas empresas transnacionais das quais se alimentam há anos. O ex–sindicalista Luis Inácio Lula da Silva (PT) chegou à presidência em 2003 e em dois anos o BNDES financiou cerca de R$ 5,4 bilhões em projetos realizados pela Odebrecht na África e América Latina. O desembolso/financiamento da empresa para o PT em 2006 foi de R$ 7,8 milhões, e em 2010, quando Dilma foi eleita, foi de R$ 10,8 milhões. Assim, o PT como superestrutura da sociedade, com seu programa de colaboração de classes, não pode senão refletir essa contradição. Ou seja, apontar ou não numa lógica de ruptura com a classe dominante do seu país e suas relações com o imperialismo? Não encontramos mais nada adequado, senão o de trovejar contra a ignorância ou a traição consciente.
Retomemos agora ao centro da nossa polêmica. Se é verdade que governo Dilma está em perigo, este adviria da possibilidade de uma ataque brutal às conquistas criadas nessa construção dialética do movimento de massas em relação ao seu governo. Algo concreto seria a defesa das reivindicações históricas da nossa classe. Nesse sentido, estaríamos prestes a uma mudança na relação de força entre as classes na sociedade, em que o momento eleitoral consolidaria tal mudança sob a liderança da burguesia através do PSDB. Dessa maneira, o PSDB conseguiria implementar os planos de ajuste fiscal, corte nos gastos públicos, quebra do monopólio das riquezas naturais, apoio militar à política externa do seu próprio imperialismo, flexibilização dos direitos trabalhistas, privatizações, as comissões dos Direitos Humanos seriam entregues à bancada evangélica, haveria a paralisação dos setores da reforma urbana assim como nos assentamentos para a reforma agrária. Colocando em disputa dois projetos antagônicos ou opostos pelo vértice. O que do nosso ponto de vista não demonstra estar ocorrendo.

Dilma: "o mal menor!"
Nesse tempo turvado pelo "mal menor", que significa votar em Dilma mesmo que de "forma crítica", vale clarificar que a “carta ao povo brasileiro” foi um compromisso político com seu próprio imperialismo. Infelizmente, é o que os sucessivos governos encabeçados pelo PT nesses últimos 12 anos vem tentando aplicar contra a vontade da juventude e dos trabalhadores que se rebelam das universidades aos canteiros de obra.
A dívida pública brasileira alcançou a marca histórica R$3,6 trilhões, ou seja, 82% do PIB. A dívida externa, de R$ 442 bilhões, tem sua maior parte como dívida privada com garantia do governo federal. A concentração de capital especulativo, produto da finacerização da economia, já está em curso e as taxas de juros são as maiores do mundo. A cumplicidade é a marca indelével em se tratando da política externa de países semicoloniais, como o Haiti. Segundo Frank Seguy, haitiano pesquisador pela Unicamp, "o objetivo da Minustah é ser uma missão de escravidão e não de paz". As tropas brasileiras tem garantido a missão de estabilização para os trabalhadores viverem com U$ 4 dólares por dia. E não para por aí. A criminalização dos movimentos sociais no ano passado chegou ao Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro, que sentiu o peso da tropa de choque enviada pelo governo federal quando da mobilização contra a quebra do monopólio das reservas de petróleo da bacia de Libra.
No entanto, entre junho e julho, cerca de 7 milhões de pessoas saíram às ruas em mobilizações abrindo uma nova situação nas lutas de classes no Brasil, que na minha opinião está longe de retroceder. Vejamos as campanhas salariais pós-jornadas, muito radicalizadas e questionando as direções burocráticas e colocando-as em xeque. É bom lembrar que essa mesma mobilização desmascarou e pôs abaixo a negociação da bancada governista com Marcos Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos. A derrota eleitoral do PT no 1º turno é parte de um processo que expressa de forma contraditória o fim do ciclo petista, e o rompimento político dos trabalhadores com esse partido que perdeu por completo sua identidade e se apresenta igual aos partidos da direita. Nesse sentido, sem alternativa concreta à esquerda, a oposição de direita tendeu a capitalizar eleitoralmente. Pelo bem da verdade, a esquerda socialista não conseguiu ainda apresentar esta alternativa, mesmo com o bom desempenho da candidatura de Luciana Genro (PSOL).
Independente da derrota da Dilma Rousseff no 2º turno, não podemos ter a falsa ideia de que haverá um retrocesso na situação aberta das lutas de classes, já que a não aplicação do receituário neoliberal pós-eleições dependeria de sua vitória nas urnas. No 2º turno das eleições: voto nulo! As ruas, as greves, as ocupações, as sublevações das periferias nos apontam mais mobilizações contra os planos de arrocho. Nesse processo, podemos dar um salto na construção de um pólo de esquerda com um programa anticapitalista junto aos movimentos da juventude e dos trabalhadores. Essa deve ser a tarefa da esquerda socialista.


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