sexta-feira, 24 de outubro de 2014

As acomodações cíclicas e os seus impasses

Ensaio
23 de outubro de 2014
Por Leal de Campos, militante socialista, ex-preso político e economista.

Nos casos do Brasil e da América Latina, o pós-ditaduras nos encaminhou para uma volta ao populismo “esquerdizante” e “nacionalista” - que se expressa num aparente enfrentamento contra o imperialismo estadunidense. Todavia, os ditos “avanços políticos” obtidos com os tais governos populistas que se apresentam como “soberanos e independentes” tem resultado na desagregação do movimento de massas, com as centrais sindicais e as uniões estudantis, por exemplo, desfiguradas e atreladas aos aparatos governamentais, constituindo-se assim num “freio de arrumação” para conter ganhos muito mais significativos.
Por isso, deve-se deixar claro que não cabe às esquerdas o papel de gerenciar o Capitalismo para torná-lo um sistema ameno, plausível e menos agressivo. A lógica que o move é a da própria movimentação do mercado, que está alicerçada na ganância em busca da lucratividade onde os meios empregados justificam os fins alcançados a qualquer custo, desde que o Capital seja “devidamente” remunerado. A cobiça pelo lucro, com taxas de retorno cada vez mais elevadas quanto possíveis, impede os capitalistas de abdicarem da alta rentabilidade nos negócios.
De outro lado, não é tão difícil se esclarecer que as “ondas à direita” sempre ocorreram e vão ocorrer em variadas ocasiões, sejam na Europa ou em outros continentes, desde que os impasses por avanços mais firmes e duradouros não encontram soluções nos marcos da sociedade capitalista. A sociedade do “bem estar” que perdurou no pós-guerra mundial, principalmente no continente europeu, e ainda se mantém até hoje em alguns países como a Finlândia e a Noruega, representou um esforço do Capitalismo para “neutralizar” as propostas revolucionárias na direção do Socialismo, a partir da vitória da Revolução Russa. Enquanto isso, todos os países europeus que alcançaram expressivo crescimento econômico junto com um consistente “desenvolvimento” social, somente puderam manter os excelentes padrões de vida de suas populações a troco da exploração dos outros povos da Ásia, da África e das Américas, principalmente.
Então, o que está novamente “em jogo” é a capacidade de percepção por parte das esquerdas de como construir “uma ponte” na direção da transformação da sociedade capitalista, possibilitando que se concretizem revoluções políticas e sociais, complementares. Em contrapartida, a centro-direita, especificamente, sabe o que faz em cada uma dessas situações e, aos poucos, ela se recicla a tempo de “assimilar” algumas propostas populares. Já os programas ditos sociais, de conteúdo assistencial, mas que refletem certa redistribuição de renda, por mínima que seja, não são acompanhados de uma melhoria na conscientização política da população. Muito pelo contrário, pois os tais governos considerados como “populares e de esquerda” se colocam acima dos interesses das massas, combinando ações populares com concessões aos principais grupos econômicos, através das quais possam gerar um razoável crescimento da economia e viabilizar uma continuidade administrativa e governamental. E, desta forma, deixam de explicar as causas da exploração socioeconômica recorrente e não procuram conscientizar as massas sobre o papel nefasto do Capitalismo com as suas mazelas de concentração da renda e, consequentemente, de bolsões de pobreza e miséria que se perpetuam ao longo do tempo, na outra ponta.
Com toda a certeza, sabe-se que não se pode ficar na dependência e à mercê das oscilações ideológicas à direita ou à esquerda, subordinadas a ciclos que se reproduzem sempre, refletindo as influências políticas dos segmentos antagônicos por toda a sociedade e tornando-a refém dos interesses próprios de cada grupo organizado, sejam em partidos tradicionais ou não. A imaginária neutralidade de um “Estado Democrático de Direito” não existe na prática, pois só serve para administrar o Capitalismo em situações de calmaria. Quando não, a opção usada é a da implantação de um regime de exceção, ditatorial, para combater uma possível ascensão revolucionária da parte dos segmentos explorados da população em geral. É o emprego dos órgãos de segurança e das Forças Armadas a serviço da contrarrevolução e em defesa do Capitalismo, gerando uma reação preventiva imediata. Por isso, é preciso que as esquerdas não abandonem a concepção da luta de classes como um motor da História, confundindo-a com a luta contra um inimigo externo, os Imperialismos. Ela se dá internamente, no dia a dia, em qualquer país de economia capitalista.
E não é nenhuma novidade que as forças conservadoras da burguesia sempre procuram tirar algum proveito das situações que se apresentam cotidianamente, tendo por objetivo assegurar ou retomar o “controle” e o “domínio” sobre as demais classes sociais. E o governo, que vai gerenciar o Capitalismo, tem certa relevância porque define políticas de sustentabilidade do Estado, tal como se apresenta, afastando as ameaças que porventura venham a colocar “em xeque” a ordem vigente, o estado de coisas que as beneficiam sempre. Por conseguinte, fica até mais interessante para elas contar com a participação efetiva de forças que “se dizem” de esquerda, mas que não se dispõe a eliminar a economia capitalista e só querem apenas exercer o “poder administrativo”.
Portanto, não se trata de uma luta tenaz contra “o inimigo que vem de fora”...  Sabe-se, pois, que a luta de classes é o principal referencial das esquerdas para não se aliarem a grupos políticos da burguesia, mesmo que eles se mostrem como “progressistas” e “desenvolvimentistas”. O retrocesso em evidência já estava estabelecido antes, desde que grupos de esquerda não cumprem com seu papel de organizar o movimento de massas com total independência e autonomia, explicitando didaticamente o caráter de classe do Estado e o “poder” das classes dominantes. Uma condição fundamental para se avançar na luta ideológica contra o sistema capitalista. Neste processo, as eleições que se promovem ciclicamente, como se fossem um “exercício democrático” exclusivo e único, somente interessam a elas e não às esquerdas. Esta “democracia” tem sua importância crucial, numa situação na qual se luta por questões pontais de ampliação das liberdades democráticas em geral, tendo-se o direito de associação e expressão assegurado até onde é possível exercê-lo, mas não resolve o problema da necessidade de conscientização das massas e das possibilidades de se organizarem de forma plural para modificar a relação de forças a favor da transformação social e política da sociedade em que vivemos.
Com efeito, pode-se concluir então que a restauração conservadora se dá justamente pela incapacidade das esquerdas avançarem junto com as massas, num enfrentamento decisivo contra o Capitalismo em todos os níveis, evitando cair no engodo de que se pode reformá-lo ou até mesmo impedir as ações imperialistas condicionadas à sua própria existência.

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