sábado, 11 de outubro de 2014

A eleição em São Paulo e o desempenho da esquerda socialista

Ensaio
10 de outubro de 2014
Por Henrique Carneiro, professor doutor em História Social pela FFLCH/USP.

O crescimento do voto de direita em São Paulo, com a vitória de [Geraldo] Alckmin [PSDB] no primeiro turno deve ser compreendido à luz do cenário existente. Quando uma ordem é desafiada por mobilizações populares radicalizadas, a ausência de uma alternativa viável a essa ordem existente leva a uma exasperação social que empurra o eleitorado ao reforço da ordem. Isso ocorreu na França e também nos EUA com a eleição de George Pompidou e de Nixon respectivamente, em 1969, após as rebeliões de 1968.
O PT não foi uma alternativa, pois se apresentou no mesmo perfil do PSDB, um partido da ordem, marcando seu completo afastamento dos movimentos sociais, das manifestações e das greves. A desmoralização do petismo em São Paulo, centro desse partido e de suas principais figuras públicas, levou a redução de sua bancada pela metade com o atual mais bem eleito deputado federal sendo um cartola do futebol sem nenhuma relação com os movimentos sociais.
O setor que protagonizou junho pode explicar uma parte do aumento dos votos nulos e brancos, que chegaram a 17% e que, junto à abstenção de 19,5%, totalizam 36,60% do eleitorado fora do processo eleitoral. Um contingente que é o dobro da votação de [Alexandre] Padilha (PT)!
A eclosão de junho foi prolongada numa sucessão de atos e passeatas que mantiveram táticas equivocadas de destruição de lojas e bancos em manifestações de poucas centenas de pessoas, o que contribuiu para a exasperação da classe média e de setores populares. A realidade de violência do Estado na periferia aumentou e também ocorreu um aumento das reações populares com incêndios de ônibus e bloqueios de vias.
Por outro lado, a nova situação despertada por junho abriu uma enorme onda de greves, especialmente nos transportes, e outra vaga de mobilizações e ocupações populares dos sem-teto. Ambos os movimentos sofreram, no entanto, pesada repressão, com as duas derrotas emblemáticas dos metroviários e da ocupação São João, na capital.
A Frente de Esquerda PSOL/PSTU conseguiu preencher uma pequena parte da oposição popular, com o crescimento da votação de Luciana [Genro] (PSOL) que chegou a ter no estado 2,41% dos votos (Zé Maria – PSTU manteve os minúsculos 0,08%). 554 mil votos de Luciana [Genro] (PSOL) e 19 mil de Zé Maria (PSTU) no estado (mais os 10.662 mil do PCB e 3.968 mil do PCO) representam uma expressão pequena, mas ascendente do peso da extrema-esquerda, que se repetem nos votos para a Câmara, embora em menor proporção: 462.992 (2,21%), o que mostra que parte do eleitorado de Luciana [Genro] (PSOL) não votou para os deputados da Frente.
Com o PV ocorre um fenômeno oposto, os 236 mil (1,03%) de Eduardo Jorge em São Paulo se multiplicam por mais de quatro vezes nos 953.373 (4,55%) deste partido para a Câmara Federal, elegendo 3 deputados, todos conservadores, um dos quais pastor evangélico e outro católico do ‘Canção Nova’.
A Frente de Esquerda em São Paulo foi um triunfo, pois houve enormes dificuldades, com objeções dentro dos dois partidos que dificultaram a sua viabilização. Pior, isso ocorreu com a substituição burocrática do candidato Vladimir Safatle em meio ao processo, desmoralizando parte da militância e preferindo um crítico acerbo dos black blocs e filo-petista como [Gilberto] Maringoni (PSOL), ao invés de um perfil mais alinhado com a rebelião de junho.
Esses acertos e negociações ocorreram de forma burocrática, em cúpulas partidárias restritas, sem apelo a assembleias das bases pela frente de esquerda, única forma de tornar a escolha dos nomes um processo democrático e não um jogo de pôquer secreto dos dirigentes.
A forma de constituição da Frente desmobilizou, desmoralizou e desacorçoou uma parte do ativismo, especialmente o juvenil engajado em junho.
Além disso, no âmbito nacional a Frente se inviabilizou com a escolha (quase imposição) do nome de Randolfe [Rodrigues] (PSOL). O PSOL tem a responsabilidade de manter setores de direita como este senador, além de Heloísa Helena em Alagoas e o vereador Jefferson [Moura] no RJ (entre outros) que são quinta-coluna de Marina ou de qualquer aliança espúria, como a que se deu no Amapá, em que o PSOL se aliou com o PSB, o PCdoB e o PT para apoiar Capiberibe, do PSB.
Por outro lado, com a entrada de Luciana [Genro] (PSOL), após desistência de Randolfe [Rodrigues], deveria ter havido uma postura mais frentista do PSTU que deveria ter se aberto a uma rediscussão de uma frente nacional encabeçada por Luciana [Genro] (PSOL). Foi um erro não haver uma frente nacional e em todos os estados entre PSOL, PSTU e PCB, e a responsabilidade maior desse erro foi do principal partido, o PSOL, com a recusa à frente no RJ e a escolha inicial do nome de Randolfe [Rodrigues], embora o PSTU e o PCB também tenham oposto resistências e hesitações em relação à frente que debilitaram essa possibilidade necessária.
Como a esquerda que vota nestes partidos é muito mais ampla do que a militância orgânica que os compõem, e como tudo se decide por conchavos burocráticos e não por um debate público, franco e programático, a esquerda permanece refém de métodos que impedem a massificação do processo de suas escolhas de candidatos.
Todos estes processos também influenciaram para que em São Paulo o alcance da proposta da Frente fosse menor e mais divorciado dos setores céticos e desiludidos desde junho.
Se Luciana [Genro] (PSOL) ocupou uma parte do espaço nacional chegando em quarto lugar, em São Paulo houve muito pouco protagonismo da esquerda no debate eleitoral e nenhum figura conseguiu uma expressão maior, além dos deputados eleitos como Ivan Valente (PSOL) que, mesmo com votação menor em mais de vinte mil votos em relação a 2010, ainda alcançou 168 mil votos, e os estaduais [Carlos] Giannazi (PSOL) e Raul Marcelo (PSOL) que ampliaram a representação na AL [Assembleia Legislativa] com votação expressiva.
A votação de Toninho, do PSTU, com 22 mil votos foi importante para colocá-lo como primeiro suplente da bancada federal, mas não representou uma superação do mesmo pequeno nicho eleitoral que o PSTU ocupa em São Paulo desde que disputa eleições como fração do PT e depois como partido próprio, em torno de duas dezenas de milhares de votos no estado (com a exceção de 2002, quando chegou a 58 mil votos para a Câmara, dos quais 39 mil de legenda!).
Zé Maria, na quarta eleição, já tendo chegado a 401.130 votos em 2002, aumentou um pouquinho em relação a 2010 (84.609, ou seja 0,08%) para 91.209 (0,09%).
O desafio da esquerda não é apenas eleitoral. Na verdade, o aspecto eleitoral deve se subordinar ao objetivo estratégico e programático, que deve ser a inserção nas lutas práticas da classe trabalhadora e contra todas as formas de opressão.
A vitória do PT ou PSDB no segundo turno não vai alterar o consenso de uma política econômica financeirizada, a serviço dos bancos, de uma ampliação do agronegócio predatório, de uma governamentalidade baseada na corrupção institucional, no loteamento dos cargos entre “aliados”, num aumento da repressão por meio da polícia militar, do exército ou da Força Nacional, de uma manutenção da intervenção militar no Haiti, de uma capitulação aos setores fundamentalistas evangélicos em relação aos direitos civis, e, especialmente, de uma política de austeridade com cortes nos gastos sociais e privatizações que deve se abater com força sobre a população, após o término das eleições.
Os planos econômicos de ataque ao interesse social e de defesa da renda financeira serão impostos por qualquer um dos governos que assumir e vai se enfrentar com uma enorme reação popular. Em São Paulo, a crise da falta de água não deve facilitar a estabilidade da situação social.
A esquerda socialista deverá discutir um programa de Frente para a atividade cotidiana na luta contra os novos governos e na preparação da resistência aos ajustes que virão em curto prazo.

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