quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Abelardo da Hora (1924-2014) – Arte e Comunismo: paixões compartilhadas

Ensaio
25 de setembro de 2014
Por Felipe Gallindo, historiador.

Nascido em São Lourenço da Mata (PE) em 31 de julho de 1924, Abelardo da Hora foi um dos principais artistas pernambucanos no século XX e um histórico militante do PCB durante gerações. Escultor, ceramista, gravurista, desenhista, poeta e professor, Abelardo da Hora foi um artista múltiplo que expressou em boa parte de sua vasta produção artística uma profunda consciência política e uma constante denúncia das desigualdades sociais. Sua atuação como artista era compreendida e expressa coerentemente como uma ação/organização coletiva que estava a serviço da política cultural do PCB. Nos anos 1940, ao lado de Paulo Cavalcanti entre outros, participou da fundação da Associação Brasileira de Escritores (seção Pernambuco).
Em 1946 realizou sua primeira exposição de esculturas numa entidade proletária - a Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco. Nos anos 1950 foi um dos líderes da Sociedade de Arte Moderna que reunia diversos artistas plásticos. Neste período criou o Ateliê de Arte Moderna. Segundo Paulo Cavalcanti no seu quarto volume da série "O caso eu conto como o caso foi - A luta clandestina", Abelardo da Hora fazia uma política de Frente Única no campo artístico pernambucano, buscando articulações com artistas de diversas orientações políticas além do PCB.
Muitas vezes Abelardo da Hora participou das atividades partidárias pichando muros com as palavras de ordem da época: "Abaixo a bomba atômica!" ou "O petróleo é nosso !". Discursava nas portas das fábricas para os operários e participava dos comandos que faziam o trabalho de divulgação do jornal do PCB: Folha do Povo.
Numa passagem bastante pitoresca, e muito comentada na época, Abelardo da Hora, amarrado pelos pés, de cabeça para baixo, pintou a palavra PAZ na murada que cerca o Rio Capibaribe, que estava com a maré baixa, bem na frente da antiga sede do DOPS na Rua da Aurora. No dia seguinte, foi mais uma vez preso e espancado pela polícia.
Já nos anos 60, na prefeitura de Miguel Arraes, Abelardo da Hora foi um dos principais líderes do Movimento de Cultura Popular - MCP. Como um de seus diretores construiu e dirigiu a Galeria de Arte, às margens do Capibaribe.
Também no MCP, Abelardo da Hora idealizou e realizou a instalação das "Praças da Cultura", com bibliotecas, palcos para encenações teatrais e para concertos de orquestras nos bairros populares do Recife. Participou das lutas populares em Pernambuco durante toda sua vida.
Com o golpe empresarial-militar de abril de 1964, veio a repressão generalizada aos movimentos sociais. Abelardo da Hora, dirigente estadual do PCB, foi preso durante a ditadura mais de 70 vezes.
O escultor relatou em depoimento à Comissão da Verdade Dom Hélder Câmara, em novembro de 2013, que, ainda em 1964, uma de suas obras – a Torre de Iluminação Cinética do bairro da Torre – foi destruída pelos militares, que interpretavam a obra como alusiva ao comunismo e, portanto, subversiva. Saiu do PCB logo após a vitória do golpe, pois discordava da orientação do partido de que não houvesse reação. No entanto, permaneceu comunista convicto toda sua vida. Artista, militante e intelectual, Abelardo da Hora representou uma geração que fez da utopia socialista uma prática de vida em sua totalidade. A Revolução perdeu um de seus mais antigos guerreiros...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.