sábado, 20 de setembro de 2014

A memória obstinada

Ensaio [1]
19 de setembro de 2014
Por Deni Rubbo, doutorando em Sociologia pela USP.

Há quarenta anos o Chile vivenciou, durante dezessete anos, uma traumática experiência social e promoveu uma das páginas mais sangrentas da história da América Latina: a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Nesse reino da mentira e da escuridão, da aparência e da hipocrisia, foram postos em funcionamento “modernos” métodos da cultura do terror em mulheres, idosos e crianças, todos contagiados pela peste do medo e da humilhação. Não é novidade que existem várias dificuldades, atualmente, de encontrar centenas dos desaparecidos desse período. Também não são nenhuma novidade as inúmeras tentativas simbólicas e políticas para que a população chilena engavete esse passado.
Não é de se espantar: os vencedores provisórios da história apostam que os vencidos não voltarão a juntar pedaços que os fizeram possíveis. Apostam errado, pois. Com sorte, restam ainda românticos e revolucionários obstinados pela memória social chilena, que vagam pelo país e pelo mundo como estrelas solitárias, que trazem sempre a centelha da esperança.

Patrício Guzmán
Na rua Titon, em Paris, mora uma dessas estrelas. Seu nome é Patrício Guzman, 72, documentarista, conhecido mundialmente pela direção da trilogia “La Batalla de Chile”, de 1973. Após o golpe militar de 1973, Guzmán foi, de início, internado no Estádio Nacional em Santiago do Chile, de onde seguiu depois, passando por Cuba, para o exílio na Espanha e na França.
Em seu website [www.patricioguzman.com], na primeira página, está grafada uma frase de sua própria autoria que serve, inclusive, como síntese de sua carreira artística: “Um país sem documentários é como uma família sem álbum de fotografias”.
Não por acaso, obras dirigidas por Guzmán, como “La Memoria Obstinada” (1999), “El caso Pinochet” (2002) e “Salvador Allende” (2005), são exemplos de sua carga obstinada pela razão histórica de não deixar de confrontar seu país com seu passado. “Nostalgia de la Luz”, último filme de Guzmán, não foge à regra de sua produção cinematográfica.

A odisseia de Nostalgia da Luz
Mesmo com amplo reconhecimento internacional, Guzmán teve o projeto cinematográfico de Nostalgia... negado por mais de quinze canais da televisão europeia. Evidentemente não se trata de um caso isolado.
“Entristece-me verificar que – com o tempo –, aumenta a falta de confiança da indústria com relação aos autores, particularmente que inventam obras públicas insólitas, atípicas, singulares”, desabafa o documentarista chileno.

Do sonho de criança...
À primeira vista pode parecer estranho um documentarista essencialmente político versando sobre as estrelas do deserto do Atacama. É que, durante toda vida, Patrício Guzmán foi um aficionado pela astronomia. O encantamento pela beleza do céu foi, quando criança, pela leitura insaciável dos romances de Julio Verne. Aliás, outra paixão do diretor, que chegou a dirigir o documentário “Mi Julio Verne” (2005).
Durante a infância, Guzmán descobriu o mundo através do céu, viajando o planeta no balão com os personagens de Verne, que após conhecer países e continentes descansavam nas nuvens. Foi o precursor da ficção científica, portanto, que despertou a paixão pela aventura e ativou uma emoção de liberdade nunca sentida antes pelo documentarista, nascido na bela cidade de Val Paraíso.
A paixão pela imaginação levou aos mistérios das estrelas, do céu e da lua. Guzmán teve sorte. Afinal, o deserto do Atacama chileno é um lugar especial para contemplar o universo cósmico. Os maiores telescópios do mundo foram construídos nessa região. Astrônomos de vários países descolam-se para lá.
Para uma criança, estar no deserto do Atacama, era a possibilidade de tocar nas estrelas... Na realidade, não somos nós que observamos seu brilho noturno, são as estrelas que nos observam. A beleza das imagens do filme confirma a proposição.

... ao pesadelo de adulto
O deserto do Atacama é composto de sal. A terra está totalmente castigada. Não há pássaros. Guzmán mostra que tal região não é apenas o bastião internacional da ciência astronômica e geologia. Ela está carregada de história, de memória. Porque não existe céu sem inferno. Camadas de mineiros, indígenas e operários formam uma segunda pele no deserto do Atacama. Como se sabe, durante o “pródigo” século XX foram instaladas modernas minas de salitre na região, submetendo os trabalhadores às condições mais degradantes.
Particularmente a região de Chacabuco, patrimônio cultural nacional na época de Salvador Allende, transformou-se em campo de concentração durante a era Pinochet.
Um dos prisioneiros, Miguel Lawner, cartógrafo, detalha milimetricamente a arquitetura da prisão. Tudo gravado por sua mente. Muitos dos encarcerados tinham ilegalmente aulas de astronomia, já que os militares haviam proibidos cursos dessa natureza. Para os prisioneiros, olhar para céu ou localizar constelações era muito mais que um mero passatempo: era uma maneira de se sentirem livres mesmo que por um só instante.

O trabalho da memória
O passado nunca está em paz. O caldo da memória vem sempre acompanhado pela indignação e pela raiva. “A memória é sempre guerra”, disse bem Walter Benjamin.
Basta olhar para as mulheres que, até hoje, perambulam pelo deserto em busca dos desaparecidos durante a ditadura militar. Enquanto os astrônomos rastreiam incansavelmente a terra para reunir partículas – e com isso descobrir a verdade sobre elas –, as mulheres de Atacama rastejam por um pequeno osso de seu passado, de seus ancestrais, para remediar suas dores e angustias. “É impossível esquecer nossos mortos”, disse uma delas. A obstinação dessas mulheres comove. Comove porque são reais. Comove pela fé.
Ao relacionar o tempo do universo com a história humana, cabeça nas estrelas e os pés na terra, o filme “Nostalgia da Luz” reflete uma indispensável reflexão sobre o trabalho da memória. Gravitando entre a razão e a emoção, Guzmán encontra-se na fileira dos artistas raros – como afirmava José Carlos Mariátegui, em seu texto “A imaginação e o progresso” (1924) – em que a força criadora da imaginação germina e amadure nas entranhas obscuras da história.

Para meu tio, Hugo Alfaro, chileno e lutador contra a ditadura de Pinochet.

Nota
[1] Publicado também no Jornal Brasil de Fato

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