segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Rodoviários: as lições da vitória

Ensaio
03 de agosto de 2014
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT. Hoje colabora com o Síntese Socialista.

Na última quarta-feira, dia 30 de julho, depois de três dias de greve, os rodoviários encerraram a paralisação. O Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região (TRT) decidiu pelo deferimento do pleito da categoria, determinando assim a legalidade do movimento paredista e consequentemente concedeu um reajuste no piso salarial de 10%, o que representa um novo salário de R$ 1765 para os motoristas e R$ 811,80 para os cobradores. As outras conquistas foram: (a) o aumento do vale refeição que era de R$ 171 e foi para R$ 300, ou seja, teve um reajuste de 75,43%; (b) a inclusão na convenção coletiva da indenização por morte/invalidez e auxílio funeral, além de diárias em viagens especiais com aumento percentual de 6,06%, e; (c) o que não poderia faltar, o não desconto dos dias em que a categoria esteve em greve.
Isso foi muito importante. E diante desses números e da pauta de reivindicações apresentada pela categoria aos empresários do transporte, não podemos afirmar outra coisa: foi uma grande vitória a campanha salarial dos trabalhadores rodoviários de Pernambuco!
Após receber a notícia de punhos fechados dentro do Tribunal, os ativistas e a nova diretoria demonstraram que só a luta pode mudar a vida. Fora do Tribunal, a categoria, que estava misturada a outros trabalhadores e estudantes em apoio, se confraternizou pela vitória. Ficamos com o sentimento de que a vitória da greve será uma referência para as lutas de todos os trabalhadores neste segundo semestre.
Diante de uma vitória como esta é normal que muitos companheiros devam estar se perguntando: o que levou o TRT a julgar a greve em favor dos trabalhadores rodoviários?
De nossa parte, devemos falar sempre a verdade aos ativistas. Isso serve para as vitórias e derrotas. A greve foi muito importante. Porém, por si só não basta para explicar a vitória. Não achamos que só com a ação da categoria, tomada isoladamente, arrancaríamos as conquistas.
Uma percepção é importante: ainda que a Justiça do Trabalho tenha dado ganho de causa aos rodoviários, vários fatores contribuíram para que ela tomasse a decisão que tomou. Não podemos imaginar que o poder judiciário, por ele mesmo, tenha sido o responsável ou o principal sujeito da vitória e que esteja irremediavelmente ligado aos interesses do trabalho contra o capital ou mesmo que seja neutro. A vitória conquistada através da decisão da Justiça do Trabalho precisou de várias combinações para ocorrer. O jurídico e o político se articulam de variadas formas e as lutas judiciais também refletem um clima social mais amplo, um determinado ambiente político. O poder judiciário não se expressa de maneira independente. Suas ações são produto das contradições dos interesses de classes na sociedade.
Em nossa visão, os fatores sociais e políticos que se combinaram para a vitória da greve foram: (1) uma conjuntura nacional favorável. Não foram poucas as manifestações, inclusive um número considerável de greves no setor dos transportes desde o ano passado em várias capitais; (2) que greve tivesse uma forte adesão por parte da categoria e uma disposição inclusive para sair dos trilhos da legalidade, ou seja, para a continuação dela mesmo que o judiciário a considerasse ilegal; (3) o apoio de massas da população pelas justas reivindicações dos rodoviários, como ficou demonstrado nos terminais integrados frente às manipulações do monopólio midiático da Rede Globo e de outros jornais; (4) a proximidade das eleições e a queda/estagnação nas pesquisas pelas intenções de voto do candidato a governador indicado por Eduardo Campos dividiu o campo governista, que pressionou pelo final da greve buscando evitar desgaste político por conta da disputa pela reeleição; (5) um histórico recente brutal de intensificação da exploração da força de trabalho dos rodoviários, inclusive com uma piora continuada das condições de trabalho de motoristas, cobradores e fiscais.
Assim, todos esses fatores se combinaram, mesmo que de maneira desigual, nesse processo. Hoje as vitórias ou derrotas estão condicionadas à superação do corporativismo sindical e à conquista dos corações e mentes da população para a compreensão da necessidade de lutas de massas. Só as mobilizações permanentes dos trabalhadores, em articulação e combinação com uma série de outros setores sociais, em direção ao debate e questionamento mais amplo sobre o sistema e o direito de transporte público de qualidade, além do entendimento de sua captura pelos interesses empresariais e do capital, podem nos conduzir a outras vitórias mais estruturais. Em suma: a luta sindical é uma luta social e precisa ser encarada e conduzida como tal!
De alguma forma, para que novas vitórias aconteçam, a população tem que perceber que a melhoria das condições de trabalho dos rodoviários é parte da melhoria do sistema de transporte público. E os rodoviários precisam entender, cada vez mais, que a melhoria das condições de trabalho deles depende da melhoria e alteração do próprio modelo vigente de transporte público. Esse caminho foi ensaiado nesta vitoriosa greve. A catraca livre foi um exemplo. Precisamos desenvolver ainda mais ações que sigam essa lógica.

       

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