sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Recife em transe

Ensaio [1]
01 de agosto de 2014
Por Deni Rubbo, doutorando em Sociologia pela USP.

O cinema pernambucano é o que suscita maior qualidade crítica na história do cinema contemporâneo brasileiro. Infelizmente, as produções audiovisuais da “Veneza brasileira” têm sido distribuídas a pouquíssimas salas do país e, consequentemente, não conseguem disputar o trono dos subfilmes descartáveis e indigestos com que as megaproduções nacionais faturam. É preciso, pois, ao menos saudar a coragem dos pernambucanos pela entrega ao violento ofício de cineasta e por seu posicionamento incômodo, infernal, desobediente no espectro da cultura política do país. Existe uma ansiedade do cinema pernambucano em se comunicar com sua tradição regional, mas também com as transformações mais gerais pelas quais o país tem passado a partir de diversos ângulos e temas. Há um compromisso com a identidade regional e nacional. Mas Recife e o Brasil são misteriosos. Enigmáticos. Para onde se está caminhando, afinal?
Os mecanismos de criação do longa metragem de estreia de Kleber Mendonça Filho, “O som ao redor”, em cartaz nos cinemas de São Paulo, ressuscita uma “antiga” obsessão por avaliar as conexões do arcaico e do moderno, a partir dum foco extremamente particular, raro – e ousado: as idiossincrasias de um bairro de classe média e seus diversos moradores.
Os personagens se cruzam e entrecruzam através de situações sociais diversas. É um filme em que o protagonista não é o “eu-individual” (o morador), mas um “eu-coletivo” (os moradores), como fez a inesquecível tradição do cinema soviético dos anos de 1920. Por isso, pelas reações dos moradores que parece se configurar uma maneira interessante de perceber o movimento ideológico e histórico que eles ocupam.
Basta mencionarmos dois exemplos para que possamos visualizar a ossatura dessa classe em composição. Quase de início uma briga de mulheres vizinhas entra em cena. Tudo por causa da compra de uma televisão, de maior polegada, causando numa delas ciúmes e iniciando a peleja. O curioso é que quem está consumindo a TV “melhor” é uma mulher negra, supostamente com menor renda. Seria um exemplo de recepção da famigerada “nova classe média” no seio do bairro da classe média antiga? Talvez. Por outro lado, a ofensa e a humilhação de ter sido agredida explicitamente pela vizinha invejosa não implica que ela tenha um comportamento ameno com sua empregada. Ao queimar alguns de seus produtos na tomada, a empregada é completamente destratada por sua patroa, outrora humilhada.
Outro exemplo quase cômico – para não dizer trágico – é a cena em que os moradores do prédio se reúnem para resolver a permanência do porteiro, antigo empregado do edifício. O argumento central dos moradores para que seja despedido é o fato de dormir durante o trabalho, considerado pela maioria como um verdadeiro “absurdo”. O descrédito com o empregado é tamanho que uma das moradoras o denuncia por receber sua sagrada revista Veja fora do plástico...
Mas é justamente a relação entre empregados (não apenas o trabalho doméstico, mas também os seguranças privados que trabalham no bairro) e patrões que dá o mote para reflexão dessa tensão não anunciada, mas presente: ora cordial, ora populista, ora autoritária. Lembremos de que o ritmo desse atrito de classes não será de modo algum, por exemplo, como de um filme como “Os companheiros”, de Mario Monicelli, ou “Eles não usam Black-Tie”, de Leon Hirzmann. O motor dos conflitos ocorre sempre no terreno privado, apresentado e “superado” em quatro paredes. Não existe um lugar público, uma estratégia coletiva. Tudo está contido na minudência da trama. Ao ser confundido como um pedinte, o guarda-carros toma a atitude de riscar a traseira do carro de uma dondoca enquanto a proprietária está absorvida pela conversa no celular.
Tais tensões assume uma flagrância melhor na relação entre os guardas e o “proprietário do bairro”, que atende pelo nome de Claudonildo Fernando. Desde a primeira conversa entre eles é evidente que a aristocracia, o coronelismo, a oligarquia da terra de Chico Science não está morta. Os guardas comparecem para pedir a “benção” e o “coronel” os atende com todos os requisitos de dominação pessoal e desprezo social. Os indícios de roubo no bairro que, tudo leva a crer que seja o neto do oligarca, tornam-se “intocáveis” nas atividades dos guardas: “façam seu trabalho, mas não mexam com ele”.
Realmente permanecem os resquícios das formas arcaicas de dominação, do poder pessoal, da vingança e da morte. Ora, na realidade, os guardas já conheciam o “sinhozinho” e planejam uma vingança contra aquela figura que eliminou um familiar no passado. O ímpeto da vingança pessoal permanece, mas não na forma “épica” dos tempos antigos, como apresentada na narrativa de “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. Nada de facões, enxadas, mas de celulares e armas. Afinal de contas, para explicitar a contemporaneidade brasileira, ou melhor, apresentar uma radiografia de sua fratura social, a partir de classes emergentes e decadentes, seria ingênuo supor que o arcaico é um entrave para o moderno. Contrariamente, os arcaísmos em países especiais da periferia do capitalismo são a condição congênita de produção e reprodução da ordem constituída. Inserido e consolidado em um capitalismo globalizado, o arcaísmo se adaptou muito bem na estrutura moderna e dependente que o Brasil reproduz atualmente.
Parece mesmo que o diretor de “Recife Frio” está incomodado sobre o que lê e sobre o que vivência cotidianamente. Trata-se de um filme de confissão e de posição. Não resta dúvida de que é nas manifestações da vida cotidiana da classe média que o filme capta uma face de nossa recente transformação truncada, já que por de trás do programa nacional de “distribuição de renda dentro da ordem”, como avalia o cientista político André Singer, há também novas contradições e novos problemas. “O som ao redor” tem a influência estética do realismo cru, mas sem a obsessão da câmera móvel como nos filmes dos irmãos Dardenne. Ao que tudo indica, essa “tendência” recifense dialoga secretamente com os segmentos libertários do cinema novo e o cinema marginal de outrora, mas numa chave menos “totalizante”, como recentemente interpretou o crítico Ismail Xavier, sobre a “questão nacional”. E a nação “imaginada” marcha numa vereda errada, catastrófica, desapiedada. Recife está em transe, e o Brasil também.

Nota
[1] Publicado anteriormente no Jornal Brasil de Fato.

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