quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O que a faixa de Gaza tem a ver conosco

Ensaio
06 de agosto de 2014
Por Tato Silva, ativista social, bacharel em Filosofia e bacharelando em Direito.

Se você for uma daquelas pessoas que acha que tudo que acontece fora do Brasil (fora do seu alcance) não lhe diz respeito, você certamente não concordará com este texto. Mas se você tiver um pouco do sentimento que Gilles Deleuze chamou de “começar pelo que está mais longe”, você me entenderá e poderá até ampliar a minha linha de raciocínio sobre o massacre que ocorre na Faixa de Gaza.
Independente do absurdo número de palestinos mortos – também de israelenses, diga-se de passagem – e da cobertura pouco espontânea das grandes emissoras mundo afora, nós temos um caso que nos aproxima muito do povo de Gaza: a opressão. Não vivemos num país cercado de arames farpados ou muros, com a autonomia nem sempre reconhecida. Mas nós vivemos num país que a violência nos oprime e nos condiciona a nem poder nos manifestar. De acordo com normas, regras postas e entendimento das forças armadas deste país, manifestar-se é perigoso e é um ato terrorista. Exatamente da mesma maneira que se tratam os palestinos por conta de uma metonímia mal feita com o Hamas, grupo dominante da Faixa de Gaza, considerado terrorista por Israel, EUA e Comunidade Europeia.
Tanto cá como lá o combate é opressivo e truculento. A prisão de vários manifestantes às vésperas da final da Copa do Mundo foi uma prova disso. Sem respaldo legal, a arbitrariedade desloca a compreensão das coisas. Lá em Gaza a busca por controle do gás natural da região é quem dita as regras do enorme esforço bélico. O Hamas diz não. O Hamas torna-se inimigo. Logo, nada impede a necessidade de controle e de ataque para desestabilizar o adversário. No Brasil, não há uma guerra externa, tampouco uma guerra civil, mas uma “batalha” contra os manifestantes. Contra quem queira e ouse falar outra língua que difira do governo que aí está. O terrorista nos dois casos citados – em Gaza e aqui no Brasil – é diferente, mesmo que acabem tendo o mesmo destino: a opressão.
Talvez a nossa maior expectativa pelo fim dos dois conflitos esteja deitada sobre a expectativa pelo fim da opressão. Não temos que estar oprimidos. Não temos que nos tornar pessoas extremamente encurraladas por conta de mecanismos políticos e legais. Todavia, a lição israelense culmina no contraponto do governo brasileiro: como o que se faz lá é proibido e o que se faz aqui é tido como lei e ordem?
Com essa correlação de coisas expressa eu tento deixar claro ao leitor o seguinte: em qualquer situação, a opressão é ilegítima. Não se pode suportar nem num lugar inóspito e por interesses econômicos (Gaza), nem para garantir eventos esportivos e prestígio político, além de ratificar um autoritarismo de governo (Brasil). Há, então, na dupla face da opressão, a resposta à pergunta título: o modus operandi é o mesmo e continuará sendo caso não prestemos atenção àquilo que subjaz nas duas políticas: os interesses da opressão.

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