quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O primeiro debate na TV com os presidenciáveis

Ensaio
27 de agosto de 2014
Por Mauricio Gonçalves, militante social e doutorando em Ciências Sociais pela UNESP [Araraquara].

Ontem, 26 de agosto, às 22h, ocorreu o primeiro debate televisivo com os candidatos a presidente nas eleições 2014 organizado pela Rede Bandeirantes. Em uma oportunidade como essa é possível perceber, pelo menos de modo mais efetivo do que nos guias políticos mercadológicos comandados pelos efeitos especiais das agências de propaganda, o desempenho e principalmente as ideias defendidas por cada um dos postulantes. Pela esquerda antigovernista, apenas uma candidata foi convidada: Luciana Genro (PSOL).
Estiveram presentes 7 dos 11 candidatos. Muitos, se comparamos com os debates da Rede Globo. O critério utilizado foi provavelmente o de representação parlamentar no Congresso Nacional, já que ficaram de fora Zé Maria (PSTU), Mauro Iasi (PCB), Rui Costa Pimenta (PCO) e José Eymael (PSDC), cujos partidos não tem mandatos de deputados federais ou senadores. Assim, os candidatos com propostas anticapitalistas não puderam expressar suas opiniões. Critério democrático?
Mas, ainda que não seja comum vermos 7 candidatos a presidente lado a lado em um debate televisivo, é bom notar o seguinte: quando dos blocos de perguntas dos jornalistas da Band, via de regra sempre eram os três mais pontuados candidatos que eram inquiridos. A regra do debate poderia ter evitado a concentração de perguntas nos três mais pontuados candidatos da ordem. Curiosa e simbolicamente, a Band não colocou nenhuma jornalista para fazer perguntas aos candidatos. As opções ideológicas conservadoras, liberais e/ou preconceituosas dos jornalistas ficaram mais ou menos claras a cada pergunta, ainda que Boris Casoy tenha sido o campeão do reacionarismo, com menções ao “bolivarianismo chavista” ou à “censura da liberdade de imprensa”, quase sempre tendo Dilma Rousseff (PT) como alvo. O anticomunismo da Band não pode deixar de ser notado por um telespectador minimamente atento.
Quais as imagens que nos foram legadas por cada um dos candidatos?
O Pastor Everaldo (PSC) mostrou todo o seu programa neopentecostal, neoliberal, reacionário e violento, uma espécie de “protestantismo intolerante, ascético e bastante capitalista” que nos faz lembrar, guardadas as proporções históricas, o clássico estudo de Max Weber. Disse que iria privatizar quase tudo, elogiou os heróis do livre mercado e do empreendedorismo, louvou os valores da família monogâmica e patriarcal brasileira e deixou implícito seu preconceito contra tudo o que não fosse parecido com ele.
Marina Silva (PSB-Rede) procurou mostrar que vai governar com os “melhores”, os mais “competentes”, como se eles fossem técnicos neutros sem preferências e opções políticas, e que vai buscar “unir” e não “separar” o Brasil, ainda que tenha deixado claro que seguirá à risca o modelo econômico neoliberal vigente. Como tem uma boa retórica, para o chamado grande público acabou sendo uma das que melhor apareceu, podendo ter passado a imagem de que é uma alternativa à falsa polarização PT-PSDB e de que “é possível mudar tudo, mantendo tudo como está”. Mas os mais atentos não deixaram de notar seus sofismas: cunhou uma nova noção moral para a categoria “elite”, dizendo que o problema do Brasil era não estar sendo governado pelas “elites”, conceito tão elástico que comportaria Chico Mendes e o dono da Natura ao mesmo tempo; quando atacada sobre a questão do agronegócio, defendeu um “agronegócio sustentável”, não mencionou a reforma agrária, mostrou como foi generosa com as grandes obras neodesenvolvimentistas agressoras do meio-ambiente quando era ministra e ainda fez loas ao tripé ortodoxo e monetarista macroeconômico neoliberal.
Aécio Neves (PSDB) passou mais ou menos sem brilho, pois sua posição é bem difícil: como defender o governo de FHC e ao mesmo tempo mostrar que pode fazer “mais e melhor” do que o a gestão social-liberal de Dilma Rousseff (PT) que foi muito mais eficaz na gestão do capitalismo brasileiro? Mas ter assistido o debate foi interessante, pois ele explicitou a agenda neoliberal mais clássica que defende para o país: mais privatizações e comando hegemônico sem questionamentos do capital financeiro, com a independência do Banco Central e a nomeação de Armínio Fraga como seu presidente, caso eleito. Um candidato bastante representativo das classes dominantes nacionais, dos credores internacionais, dos bancos e dos monopólios. Um retrocesso claro.
A presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) foi evidentemente a mais bombardeada. E o pior, atacada principalmente pela direita: Aécio Neves (PSDB), Pastor Everaldo (PSC), Levy Fidelix (PRTB) e os jornalistas da Band, justamente nos pontos em que ela é menos conservadora do que eles. Fez uma série de propagandas de seus programas governamentais (Pronatec, Ciências sem Fronteiras, ProUni, Bolsa Família, Mais Médicos, etc.), mas não mostrou em que seu programa de governo iria se modificar para “continuar com  os avanços sociais”, já que o social-liberalismo começa a dar sinais de esgotamento. Diante do tom mais ou menos conservador do debate, tanto pela composição dos candidatos, como pela dos jornalistas, Dilma Rousseff (PT) não se destacou, mas também não foi mal para posição governista e oficial que defende. Diante dos ataques de vários lados dos conservadores, seus eleitores podem mesmo ter achado que ela defendeu uma posição de esquerda avançada. Foi competente na postura de guardiã das conquistas da sociedade brasileira exatamente porque conseguiu passar tal ideia sem ser claramente atingida, apesar dos ataques isolados de Luciana Genro (PSOL), pelo fato de manter a mesma moldura e o mesmo consenso macroeconômico mais geral, comungados aliás por todos os demais candidatos presentes.
Levy Fidelix (PRTB) mostrou-se o mais raivoso defensor da “lei e da ordem”. Se teve o feito de enfatizar a necessidade de uma auditoria da dívida pública, mais do que todos os outros candidatos, a economia monetária feita com essa medida parece que seria usada para proporcionar a criação de um Estado administrativo e repressor. Também propôs a redução da maioridade penal para 16 anos. Está no pólo oposto do espectro político e ideológico das esquerdas. Não deverá ter repercussão considerável durante a campanha.
Eduardo Jorge (PV) pode ter sido visto pelos ativistas que estiveram em mobilização a partir de junho de 2013 como um dos que conseguiu captar minimamente o espírito das ruas. Defendeu pautas progressistas nos costumes, como as legalizações e regulamentações do aborto e das drogas (especialmente da maconha), além de propor a auditoria da dívida pública e o financiamento público de campanha. Mostrou, mesmo que de forma abstrata, a necessidade de uma relação complementar entre democracia representativa e democracia participativa. Mas é autocontraditório, pois ao enfatizar a ideia de “paz e amor”, não colocou quais interesses precisam ser contrariados para que um novo Brasil possa surgir. Procurou ser o “reformador liberal” dentro da ordem institucional atual. Alguns setores de classe média poderão passar a prestar mais atenção nele, apesar (ou mesmo por conta) de sua postura mais informal e diferente da estética do poder.
Luciana Genro (PSOL) conseguiu cumprir com a tarefa de apresentar um programa claramente de esquerda e democrático-radical de modo muito mais satisfatório do que Heloísa Helena o fez em 2006 e do que Randolfe Rodrigues, antigo candidato a presidente pelo PSOL antes da própria Luciana Genro, vinha fazendo. Defendeu os direitos das mulheres e dos LGBTT, os direitos humanos, a reforma agrária, os jovens negros exterminados da periferia, uma auditoria da dívida pública, um imposto sobre as grandes fortunas, elevação parcial do salário mínimo até o índice DIEESE, além de atacar os interesses do capital financeiro e da gestão macroeconômica neoliberal. Foi a única a apresentar claramente ideias e propostas de vários movimentos sociais e populares das esquerdas. Por essas razões, a não composição de uma frente entre os partidos socialistas de oposição antigovernista (com inacreditáveis 4 candidaturas) torna-se ainda mais lamentável e mesmo difícil de entender, a não ser por motivos menos nobres, especialmente quando levamos o programa de 2006 composto pela frente PSOL-PSTU-PCB como parâmetro. Uma frente eleitoral qualificaria ainda mais as propostas por ela apresentadas, pois, por exemplo, poderia ter sido colocada a necessidade de uma alternativa ao sistema político atual de gestão do Estado: a ideia do PCB de um “poder popular” poderia ter ajudado aqui.
O saldo final para as propostas e programas dos movimentos sociais e populares de combate não foi ruim, já que a única candidata presente cumpriu a contento com o seu papel, tendo apresentado vários anseios históricos dos lutadores sociais e conseguido se diferenciar positivamente de todos os demais, expressando muitas vezes desejos difusos dos novos tempos abertos pelas manifestações de junho de 2013.
Mas com as firulas argumentativas de alguns, os sofismas implícitos de outros e a impossibilidade de aprofundamento em muitas questões, é possível que o público médio telespectador de debates, ainda não consciente ou convencido da necessidade de alterações estruturais, possa ter percebido com destaque a presença de Marina Silva (PSB-Rede) e, para alguns setores mais simpáticos à pautas progressistas, Eduardo Jorge (PV).
Isso pode ser explicado pelo fato de que a hegemonia político-ideológica, mesmo depois de junho de 2013, não foi abalada no fundamental, estando muito ligada à noção de conciliação, “paz e amor” e de “união do Brasil”, ainda que, contraditoriamente, um sentimento e mesmo um desejo de mudança esteja mais presente. É nessa contradição entre permanecer e mudar, mas sem ir muito fundo, que a ordem estabelecida vai se mostrando bem flexível também no campo da retórica e das opções políticas eleitorais, sendo capaz de produzir pseudoalternativas ao consenso neoliberal metamorfoseado em social-liberal, seja com o “capitalismo financeiro verde” de Marina Silva (PSB-Rede), da Natura e do Itaú ou com a pauta anti-conservadora nos costumes, mas tradicional na gestão macroeconômica de Eduardo Jorge (PV).

2 comentários:

  1. Bom ensaio. Por minha parte tentei ver os debatedores como se vendedores fossem; minha opinião diz que dois se destacaram, por vias diferentes, na venda do seu pescado: Luciana Genro e Marina Silva. Luciana com seu falar suave, por mostrar seu "peixe" por fora, guelras e olhos, e nas entranhas; Marina de rosto severo e olhar beatífico, por erguer seu "peixe" e reluzir as escamas contra a luz. Uma exibindo e a outra dourando a pílula.
    Paulo Magon - paulomagon13@gmail.com

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