quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Encantado conselheiro

Ensaio
20 de agosto de 2014
Por Paulo Magon, servidor público e poeta.

Nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa-PB, em 1927. Assassinado seu pai na Revolução de 1930, a família transferiu-se para a cidade de Taperoá, interior da Paraíba. Ainda infante vem ao Recife e adota coração pernambucano. Humanista, dramaturgo, romancista, desenhista e poeta, foi dos poucos intelectuais a colocar sua obra a serviço de uma “utopia”. Ambicionou “armar” um povo, amar e liderar um movimento chamado Armorial; e o fez. Tentar unir o erudito com o popular em diversas expressões: música, dança, literatura, teatro, artes plásticas, etc.
Visionou nosso “Dom Quixote” - adorava o epíteto – que nós nordestinos fossemos a “encarnação” do mundo medieval e artístico dos nossos irmãos ibéricos. Em sua lucidez psicológica de homem interiorano, vivenciado nos rincões do dia a dia sertanejo, despertou e escreveu experiências entranhadas e emolduradas de simbologia matuta. Vide sua alegórica estupenda e inebriante obra-prima escrita em 1971: “Romance d'A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta”.
Suas convicções literárias, monarquistas-aristocráticas, mostram-se transparentes em diversas obras advindas dum sentimento mítico popular que ainda hoje espera a volta de Dom Sebastião I (O Desejado); jovem rei português, filho unigênito da coroa, morto (supostamente morto) em batalha contra os mouros na África em 1578. A partir daquele momento o reino lusitano ficava à mercê da realeza espanhola por longos sessenta anos.
Em terras do pau-brasil, antigos campônios portugueses e europeus de diversas cepas, forçados marinheiros pelos armadores e nobres mercantilistas, embrenham-se pelos interiores nordestinos. Tais “ajudantes” duma nova ordem civilizatória, então novamente camponeses, miscigenados com índios e negros, revivem o mito sebastianista. Oprimidos no velho mundo e no novo, os esquecidos dos poderosos bradam sua redenção: 'O Rei há de voltar e libertar seu povo!'.
Antônio Conselheiro, místico intimorato, encarnou tal demanda no imaginário libertário dos mendigos esfaimados e desvalidos; era monarquista e sua “comuna” foi dizimada pelos “republicanos”. Ora, “Os Sertões” de Euclides da Cunha é a maior e melhor referência do genocídio praticado. Ariano Suassuna, sua obra e seu movimento vêm a ser a memória do “espírito” e de alguma autoestima daquele povo, desse nosso povo setentrional. “A memória é o escriba da alma” - Aristóteles.
Sim! Apoiou o processo iniciado em 1964, regime civil-empresarial-militar, em seu começo “hipnótico-esfuziante”. Com sua interferência e suave bom humor, salvou da degola vários amigos artistas, escritores e poetas, incluindo o saudoso educador Paulo Freire. Filia-se ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). Uma certa mágoa de muitos das antigas esquerdas não tem fundamento. Ariano preferiu não enfrentar o duelo do “faca a faca” do “mata ou morre”; escolheu outra estética, uma luta amparada na performance dos seus personagens inesquecíveis, matreiros e divertidos: João Grilo e Chicó (Auto da Compadecida - 1957); que sempre conseguiam seus intentos com artimanhas e sutilezas.
Trotski um dia disse que os escravos usam sua astúcia e esperteza para se livrar das correntes dos seus opressores. Ariano Vilar Suassuna “encantou-se” em julho de 2014.

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