sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Eduardo Campos: a morte como espetáculo na sociedade unidimensional

Ensaio
21 de agosto de 2014
Por Felipe Gallindo, historiador.

"Eduardo, guerreiro do povo brasileiro!", "Eduardo, guerreiro do povo brasileiro!". 
Coro entoado por alguns populares e muitos cabos eleitorais no corredor urbano no centro do Recife organizado pelo governo de Pernambuco entre a sede deste e o Cemitério de Santo Amaro no dia 17 de agosto de 2014.
"O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem atual faz a respeito de si mesma, seu monólogo laudatório". 
Guy Debord, "A sociedade do espetáculo".
"Independência de pensamento, autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica numa sociedade que parece cada vez mais capaz de atender as necessidades dos indivíduos através da forma pela qual é organizada. Tal sociedade pode, justificadamente, exigir a aceitação dos seus princípios e instituições e reduzir a oposição à discussão e promoção de diretrizes alternativas dentro do status quo. A esse respeito, parece fazer pouca diferença o ser a crescente satisfação das necessidades conseguida por um sistema totalitário ou não-totalitário".
Herbert Marcuse, "Ideologia da sociedade industrial".
A alienação produzida pela sociedade capitalista remonta aos primórdios da Revolução Industrial em fins do século XVIII na Inglaterra. Karl Marx estudou sua gênese no seu clássico tratado de economia política "O Capital". Numa das seções do primeiro tomo desta obra, figura um subtítulo um tanto incomum, "O fetiche da mercadoria". Analisando o caráter "sobrenatural" das mercadorias produzidas em série pela indústria capitalista, a partir do uso das máquinas e da divisão do trabalho na produção, Marx constatava a progressiva perda da percepção de seu papel no processo produtivo pelo operário. O caráter "mágico" atribuído as mercadorias (tidas como algo distante e fantasmagórico) era comparado por Marx a idolatria de alguns povos africanos a "fetiches" utilizados como talismãs em seus corpos.
Esse superdimensionamento de uma característica imaterial de um bem material, a mercadoria, foi percebido e analisado por Marx no início de seu processo de consolidação como um dos elementos subjetivos estruturadores do capitalismo. O que o velho Marx não poderia prever era como a representação da realidade (espetáculo) se tornaria mais importante do que a realidade e seria no chamado capitalismo tardio um dos alicerces do pensamento unidimensional.
O caso da trágica morte do ex-governador Eduardo Campos nos ajuda a revelar algumas das engrenagens do sistema de dominação e de manipulação grosseira da realidade.
A "nova política" proposta pelo falecido candidato a presidência reproduzia um antigo recurso já utilizado por outros políticos em diferentes lugares e épocas, isto é, batizar como "novo", algo que já nasce "velho". As ditaduras de Salazar em Portugal (1933-1974) e de Getúlio Vargas no Brasil (1937-1945) foram batizadas de "Estado Novo". A nossa restrita democracia pós ditadura empresarial-militar denominada de "Nova República" também, com a devida contextualização, pode ser adicionada a esta linha de análise.
Dessa forma a plataforma política do candidato Eduardo Campos tentava combinar o legado de seu criador político, o avô e mito Miguel Arraes (político considerado de esquerda, mas sempre financiado pelo empresariado pernambucano), com o velho discurso do novo, anunciando um novo modelo de gestão moderno e eficiente. Nada mais, nada menos do que o conhecido receituário neoliberal, bem conhecido do funcionalismo público estadual durante seus 7 anos a frente do executivo. Aviltamento da carreira do magistério público no estado, com os professores estaduais recebendo o pior salário do Brasil, além de terem seu Plano de Cargos e Carreiras destruído por uma Assembleia Legislativa dominada pelo "moderno" Eduardo Campos. Fim das eleições para diretores de escolas públicas (uma das bandeiras históricas do movimento da categoria e do movimento estudantil). Privatização da gestão da saúde do estado através de contratação de empresas particulares. Incremento da repressão policial aos movimentos sociais, principalmente a partir das jornadas de junho de 2013, com lideranças estudantis espancadas, presas e incomunicáveis. Além do cerceamento da atuação de advogados ativistas em defesa dos presos políticos. Endividamento do tesouro do estado com os constantes empréstimos junto ao Banco Mundial a fim de fechar as contas do estado. Nepotismo descarado com a colocação de diversos parentes no aparelho do Estado.
Isso tudo não foi abordado pela mídia (que funciona como um partido político tal qual a concepção gramsciana) e pelos seus partidários quando da tragédia que vitimou o candidato à presidência...
Os principais candidatos, tanto ao executivo nacional como o estadual, não se cansarão de louvar o jovem político tão precocemente desaparecido... Todos eles, sem exceção, reproduzem uma visão de sociedade que não admite crítica ou alternativa. O inatacável capitalismo! Dilma Rousseff, Aécio Neves e agora Marina Silva navegam com a corrente da sociedade unidimensional, não apresentando propostas alternativas, ou mesmo reformistas, ao capitalismo. A única dimensão vislumbrada é da aceitação explícita do que está estruturado como a realidade! Não importa tanto ao sistema que um desses três ganhe uma eleição acomodada na falta de debates sobre a natureza do sistema econômico e na força do dinheiro. Quando cada um deles elogia o legado de Eduardo Campos elogiam a si mesmos como reprodutores do neoliberalismo e da repressão aos movimentos sociais.
São atores bem treinados da "sociedade do espetáculo" teorizada pelo situacionista Guy Debord. Todos participaram do espetáculo da morte do jovem candidato morto. Morte exposta à exaustão pela mídia, com profusão de detalhes e selfies a beira dos caixões.
Morte estilizada desde a véspera do sepultamento, com os arredores do cemitério de Santo Amaro repleto de banners de Eduardo Campos, e a notícia de que centenas de ônibus repletos de partidários chegariam do interior do Estado, trazidos pelos prefeitos e cabos eleitorais.
A dor da família (legítima e que merece todo respeito) foi vitrine política. Vitrine de um legado político que busca sobreviver depois da morte de seu líder. Ainda mais quando este líder, tal qual um caudilho civil, não preparou sucessores políticos...
A morte no mesmo dia e o sepultamento no mesmo espaço que o avô Miguel Arraes fecha o ciclo histórico da ilusão do mito atemporal. O grito de guerra: "Eduardo, guerreiro do povo brasileiro!" também foi entoado quando dos rituais fúnebres do patriarca Miguel Arraes em 2005 - "Arraes, guerreiro do povo brasileiro!". Naquele momento eles prenunciavam a vitória eleitoral de seu neto em 2006 para o governo do Estado.
Agora podem anunciar o fim de um ciclo político familiar em Pernambuco. E talvez abrir espaço para uma candidatura nacional que se disfarça no discurso da moderna sustentabilidade na economia, carregando no seu seio o caráter reacionário do fundamentalismo pentecostal....
O político morre. Fica a imagem, a representação... Espelho que mostra a face da reprodução do sistema capitalista no teatro servil das eleições...
Representação da realidade brilhantemente analisada por um hegeliano radical, na primeira metade do século XIX, que influenciou os jovens Marx e Engels, nas suas críticas a religião e que infelizmente permanece tão atual.  Trata-se de  Ludwig Feurbach, no seu livro "A essência do Cristianismo": "E sem dúvida o nosso tempo... prefere a imagem à coisa. A cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e a ilusão cresce, a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado".


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.