quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Crônica do cabelo duro

Ensaio [1]
28 de agosto de 2014
Por Deni Rubbo, doutorando em Sociologia pela USP.

Reparem. É ainda muito preliminar, mas algumas salas de cinema da capital paulista têm exibido filmes de países “esquecidos” da América Latina. Um tempo de certa projeção para filmes latino-americanos. E para a surpresa de alguns, uruguaios, paraguaios, chilenos, peruanos, colombianos, venezuelanos têm se mostrado provocativamente soberbos e eficientes na sétima arte. Eis porque conseguem extrair a partir de histórias simples, banais e despretensiosas um mundo social extremamente complexo, que vai muito além das caricaturas que os jornais enunciam sobre os dramas sociais de nossos países vizinhos.
Desse modo é pela porta da frente que chega o filme venezuelano Pelo Malo, de Mariana Rondón, ganhador da Concha de Ouro no Festival de San Sebastián de melhor filme.
Na cidade de Caracas, mãe e filho correm atrás de seus objetivos. Junior, de 9 anos, menino mulato, deseja alisar seu cabelo para a foto da escola, enquanto Marta, sua mãe, quer recuperar o emprego perdido de vigilante particular. A corrida pelo que almejam é árdua porque são socialmente fracos e individualmente fortes. Alisar cabelo e tirar foto pressupõe dinheiro; recuperar o emprego pressupõe agendar uma conversa com o patrão.
As esperanças e frustrações dessas veredas simultâneas fundem-se na imagem de uma cidade que tem os mesmos problemas crônicos de toda capital da periferia do capitalismo. A maior parte das cenas ou se passa no pequeno “apartamento” de Marta ou no trânsito interminável e nos transportes públicos lotados. A periferia da capital amontanha-se em intermináveis cortiços-apartamentos, habitações de cores descoloridas, de varais amontoados, de sujeira nas ruas, da alimentação dos pombos, do trabalho informal como regra. Há uma correspondência que mantem diuturnamente entre a situação cotidiana da classe trabalhadora da Venezuela sob as lentes de Mariana Rondón e a etnografia social feita por Engels da situação da classe trabalhadora inglesa de meados do século XIX.        
A intimidade cotidiana entre mãe e filho nutre-se pela ausência. A relação é uma convenção. Existe uma ausência não apenas da companhia, mas de respeito. O desamparo é criado pela dúvida, dúvida na maneira de se comportar com outro.  Além do emprego, Marta perdeu o marido. Está sozinha, solitária, no limite, na beira do desespero.
Todos os ingredientes psicológicos e sociais são colocados em Pelo Malo: o racismo, a homofobia, o gênero, a (falta de) informação, o abandono, o sonho, a raiva, o desejo. Uma passagem é emblemática: a declaração de desamor que Junior transmite à mãe: “Eu não te amo”. Ela responde: “Eu também não”. Não se trata de ódio, mas de ausência e de feridas que não cicatrizaram.
Inexiste o maniqueísmo nesses personagens, e por isso provoca dores horríveis nos protagonistas (e no público) como nas ocasiões em que maltratamos alguém e não conseguimos sequer uma explicação para essa atitude. Pelo Malo tem o cuidado de não julgar os personagens em uma construção de enredo delicada, em que cada movimento pode suscitar um julgamento.
Politicamente, o filme tem um trunfo ainda maior (a história se passa na época em que o presidente Hugo Chávez estava tratando de seu câncer). Consegue o distanciamento crítico entre a política de culto da personalidade chavista e o conservadorismo da elite venezuelana. Não parece ser um filme da esquerda chavista, tampouco da direita venezuelana. Vislumbra uma esquerda artística independente e radical. É no mínimo irônico o cartaz de propaganda governamental da Constituição pela República Bolivariana pregado em um dos grandes prédios-cortiços habitacionais. Na realidade, homens e mulheres da periferia da capital venezuelana vivem ainda em condições precárias e insalubres inadmissíveis.
Pelo Malo é arte engajada latino-americana da melhor estirpe. Da pobreza social e da solidão da vida humana. Uma pequena crônica da cidade de Caracas. Mas é aquela crônica invisível. Das coisas miúdas, belas e sujas. Uma navalha na carne, e, por isso, uma obra prima terrivelmente bela.

Nota
[1] Publicado também no Jornal Brasil de Fato.


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