sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A morte de Eduardo Acioly Campos

Ensaio
15 de agosto de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

A trágica (e prematura) morte do ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) põe a nu uma das maiores deficiências do sistema partidário brasileiro: a baixíssima taxa de institucionalização das instituições partidárias. Morto o presidente do partido e candidato à sucessão presidencial, não tem - no momento - quem o substitua na cabeça da chapa do PSB ao lado de Marina Silva. O alto grau de personalização do sistema partidário faz os partidos, os programas e as candidaturas dependerem única e exclusivamente da vontade do "dono" do partido. É como se os partidos não fossem instituições de direito privado, com vida interna. Mas atendessem pelo nome de Michel Temer, Eduardo Campos, Fernando Henrique Cardozo, Lula, etc. Naturalmente esse grau de personalismo obriga uma fidelidade canina dos subordinados ao chefe. Sua vontade é a lei. Mesmo quando se trata de uma aventura pessoal e não um projeto coletivo, institucional. Em geral, em momentos decisivos na vida dessas agremiações, muitos interesses são contrariados. Prevalece a vontade unipessoal do chefe. Ou se resigna ou se retira do partido. Dizia o mestre Pinto Ferreira: a vida do político é engolir sapos, grandes e pequenos. Ele mesmo tendo que engolir um enorme batráquio com a derrota de sua candidatura ao senado na convenção do velho MDB.
A morte do ex-mandatário de Pernambuco é um duro golpe para o PSB regional, deixando órfão uma enorme coligação de interesses eleitorais, a começar do desconhecido Paulo Câmara. Mas vai além, porque compromete profundamente a viabilidade das pretensões eleitorais de Marina Silva e do próprio partido em nível nacional. Sem o candidato principal, não há até agora um nome que posso substituí-lo sem prejuízos para a campanha. É como Neymar e a seleção brasileira. Não há um reserva ou plano B para essa lacuna. Por outro lado, se não for preenchida, o projeto da Irmã Marina de se manter viva no cenário político brasileiro, até ela obter a licença do TSE para o registro do seu próprio partido, e do PSB eleger deputados e senador para o Congresso Nacional, sofrerá grandes dificuldades. O desempenho da legenda em nível federal pode ter um influxo negativo em todos os Estados onde o partido de candidatos majoritários e proporcionais.
De toda maneira, o desaparecimento prematuro do candidato pesebista só confirma a hipótese de uma firme polarização entre Aécio Neves e Dilma Rousseff, mesmo com a possibilidade bem real de ser explorada emocionalmente a morte trágica do político pernambucano pelos seus confrades e aliados. A política brasileira é feita de uma enorme dose de pragmatismo e cálculo. Os partidos que hoje estão na base aliada do ex-governador podem sair se acharem que correm o risco de não eleger ninguém ou muito menos candidatos do que esperavam.
A se confirmar a hipótese de polarização, ficamos - como disse o outro - sem muita opção. Ou escolhemos "mais do mesmo" ou voltamos à agenda gerencial do Estado brasileiro. E aí é esperar a alienação criminosa do que resto do patrimônio público do Brasil, leiloado na bacia das almas, a preço de banana, com preço mínimo e financiamento do BNDES.

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