sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A luta dos rodoviários de Pernambuco e as perspectivas para o transporte público

Ensaio
08 de agosto de 2014
Por Diogo Xavier, estudante do curso de História da UFRPE.

Na luta da classe trabalhadora todas as vitórias, por menores que sejam, são conseguidas a duras penas e com muitas dificuldades. A vitória que os trabalhadores rodoviários conquistaram no dia 30 de julho de 2014 no Tribunal Regional do Trabalho é a demonstração de que os avanços da classe sempre serão conquistas e de que lutas por avanços pontuais dão o norte para o fim e superação do sistema capitalista.
O Sindicato dos Rodoviários do Recife e região metropolitana passou 33 anos nas mãos de um homem. Patrício Magalhães assumiu o poder em um momento em que os trabalhadores estavam se organizando, tinham acabado de fazer uma greve de uma semana e ganhavam cerca de 5 (cinco) salários mínimos. A chegada de um pelego a um sindicato tão importante como esse foi fundamental para a burguesia local. Os rodoviários ficaram reféns do sindicato, a opressão crescia a cada momento, o salário real ia diminuindo e o grau de exploração aumentou a níveis insuportáveis. O presidente do sindicato chegou a criar uma empresa para fazer a dedetização dos ônibus e comprou empresas de ônibus na Paraíba, servindo de anteparo entre a classe e os patrões. As greves de ônibus eram sempre iguais. O sindicato mandava os funcionários ficarem em casa, diminuía a frota fazendo com que apenas novatos e diaristas trabalhassem. Sofria a população, mas havia ônibus na rua e os aumentos eram sempre insignificantes.
No ano de 2011 começou a se formar uma oposição mais contundente ao sindicato. Cansados de tantos anos de humilhação, os trabalhadores entenderam que era necessário superar o sindicato para tocar as suas lutas. Entretanto, o sindicato reprimia esse grupo com intimidações e entrega de nomes de funcionários para que as empresas realizassem demissões. Apesar disso, esse grupo se fortaleceu e conseguiu aglutinar uma primeira vanguarda que foi à luta mesmo com todas as dificuldades.
A greve de 2013 foi uma grande virada na história da categoria pois naquele momento ficou nítido que o sindicato não mais representava os trabalhadores e que existia um outro grupo dirigindo as ações. Todo o período até a greve foi cercado de muita insegurança e de muita preocupação pelo fato desses trabalhadores terem sempre o risco de demissões, além dos já conhecidos ataques físicos que grupos ligados ao sindicato faziam contra oposicionistas. Aldo Lima se levantou como a voz mais forte dentro do grupo. Ele tornou-se a figura pública da oposição e acabava sendo o escudo para os outros companheiros. Essa oposição ainda claudicante fez várias paralisações e fortaleceu as lutas até a greve de 2013. Contando então com o conhecimento jurídico, a categoria entendeu que algumas batalhas também precisavam ser vencidas nos tribunais.
No segundo dia de greve os patrões ofereceram 7% e o sindicato aceitou. Mas este não mais dirigia a categoria e a greve continuou. Isso aconteceu num período pós-manifestações de junho e o clima de mobilizações impulsionou a categoria. Pararam de rodar ônibus nas ruas por diversas vezes e a semana foi muito turbulenta para todos. Os rodoviários lutaram, foram contra todos os riscos, mas na sexta- feira a greve encerrou de forma derrotada e a proposta inicial acabou prevalecendo. Entretanto, os trabalhadores deram um grande passo rumo à vitória e como dizia Rosa Luxemburgo, “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Os trabalhadores estavam em amplo processo de movimentação e de mudança.
Após a greve, começou um longo processo de lutas em todas as esferas para a retirada de Patrício do sindicato. Depois de muitas querelas judiciais, uma eleição foi marcada para o dia 13 de maio. Nessa disputa, três chapas concorreram: a chapa 1 era a de Patrício com apoio da Força Sindical; a chapa 2 era ligada a CUT e a chapa 3 era da CSP-Conlutas. A chapa 3 ganhou as eleições e após 33 anos os rodoviários se libertaram da antiga direção sindical e rumaram para lutas maiores.
A entrega do sindicato formalmente só se dará em novembro e com o dissídio coletivo marcado para julho, o impasse se manteve. Havia uma direção eleita e uma direção legal. A princípio, as duas sentariam na mesa de negociação. Mas a direção formal se absteve tendo em vista o desgaste que já tinha diante da categoria. Muitos trâmites judiciais ocorreram até que no dia 28/07 deu-se o início da greve. Essa greve já começou com grandes empecilhos burocráticos, pois a justiça decretou que nos horários de pico a frota de ônibus deveria ser de 100%. Nitidamente, 100% não é greve e os rodoviários tinham de transpor as barreiras legais.
A greve começou diferente das outras, respeitando as barreiras legais e parando a cidade em pontos estratégicos e em horários específicos, além de fechamentos de terminais e paradas temporárias. A mídia cumpriu o papel de tentar criminalizar a greve, mostrando integrações lotadas e um péssimo transporte público. Esqueceram que esse caos é vivido cotidianamente por todos que precisam utilizar o transporte público. Só da malha viária, estimam em 2 milhões os usuários na região metropolitana do Recife. Integrações que parecem currais e ônibus que não dão a mínima dignidade para os que pagaram um preço altíssimo por um direito que deveria ser público e de qualidade para todos.
Na terça- feira, a patronal ofereceu 6% de aumento no salário e no ticket. Esse valor não cobria nem a inflação, e no ticket o absurdo era ainda maior tendo em vista que este percentual representava 38 centavos por dia, subindo apenas para R$ 5,98 por dia para a alimentação dos motoristas e cobradores. A proposta foi negada e a quarta- feira era aguardada como o grande dia. O dissídio iria para as mãos da justiça. E nesse dia os trabalhadores foram para a Encruzilhada (bairro do Recife) e após um período de paralisação começaram a fazer com que os passageiros subissem por trás dos ônibus, colocando o passe livre em prática e fazendo um diálogo com a população de que o preço das passagens serve para manter os altos lucros dos empresários.
A reunião no TRT começou às 16h. Uma grande caminhada saiu da Praça 13 de Maio e foi até o local. Rodoviários e apoiadores andaram pelas ruas do Recife proclamando que aquele era o dia da mudança e que aquelas pessoas estavam dispostas a transformar a realidade imposta. O apoio da população crescia e os rodoviários criaram uma grande esperança. A rede de solidariedade à causa tomou grandes proporções. Desde trabalhadores da construção civil de Fortaleza a funcionários do SINASEFE, passando por professores do SIMPERE que cederam o espaço físico para a realização de tarefas, os apoios mostravam que a classe operária necessita de organização conjunta e que é a união da mesma que transforma a vida dos trabalhadores.
Em todos esses processos o apoio dos estudantes foi muito notado pelos rodoviários. De diversos locais, os estudantes se somaram às lutas e atividades em todos os momentos. A união entre os dois setores ancorou as lutas e incentivou os processos. O grito que ecoava era de aliança operário-estudantil.
No começo da noite chegava a primeira resposta: o ticket alimentação recebeu um reajuste de 75%, passando de R$ 171 para R$ 300. Esta conquista foi muito comemorada e muitos já entendiam que havia chegado o momento da vitória. Pouco tempo depois a resposta de que o salário recebeu aumento de 10%. Os trabalhadores sentiram com aquela vitória que a luta organizada dá resultado e muda não só o salário, mas a vida dos trabalhadores. Outra vitória importante foi a legalidade da greve. Num ano onde as greves eram tidas como ilegais antes de começarem, a justiça ter decretado a legalidade da greve foi uma vitória para os trabalhadores e uma defesa contra a forte repressão que sempre se abate em movimentos de luta, perseguindo os grevistas e atacando principalmente os líderes do movimento.
A greve dos rodoviários deve servir como um momento histórico, momento onde o acúmulo de vários anos e de muitas lutas se concretizaram em uma vitória que dá coragem e esperança à categoria e que mostra um futuro grande e cheio de conquistas e desafios. Para o conjunto dos trabalhadores fica a necessidade de uma luta organizada e que se contraponha aos modelos implantados para desconstruir os anos de lutas dos trabalhadores e que vem tirando direitos. Só com mobilizações e confronto direto com a burguesia é que se poderá arrancar avanços. A luta não será apenas por melhorias, não será apenas por reformas, mas sim pela conscientização de que é necessário haver mudança no sistema. Retirar os que oprimem os trabalhadores e eles mesmos tomarem o poder. Os trabalhadores não temerão derrotar o capitalismo.

“Derrota após derrota até a vitória final” (Ernesto Che Guevara).


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