quarta-feira, 16 de julho de 2014

Um vivo e um morto

Ensaio
15 de julho de 2014
Por Reila Miranda e Silvia Adoue, militante socialista, professora da Escola Nacional Florestan Fernandes [ENFF] e do Departamento de Letras Modernas da Universidade Estadual Paulista [UNESP] Campus de Araraquara-SP.

Tou de olho. Não posso cochilar. Aqueles moleques de ontem. Tão arrodeando. Se voltarem hoje vou mandar prender. Acham que tou de brincadeira? Faço meu serviço. Fico atento. Na fábrica ninguém entra sem permissão dos homens. Tem que mostrar o papel. Carimbado. Sou responsável por este negócio. Cuido do portão e das janelas. Esses moleques fazendo zoeira. Não pode jogar pedra não! O teu pai não te deu educação? É assim: faltou cinto, entortou. O pessoal que entra aqui é pra trabalhar. Tem três turnos, que a fábrica não para. Vagabundos, longe daqui. Eu cuido que não venham fazer vandalismo. Essa janela aí que quebraram foi quando eu não estava. Quando eu estou, boto os moleques pra correr. Fico aqui a noite toda. Fico de dia. Faço hora extra. Mas nessa hora não estava não senhor. Quando eu estou no turno não tem essa de jogar pedra.
Já trabalhei na produção. Oito horas na frente da injetora. Hora extra, eles pagam direito. Nunca faltei. Ganho prêmio de frequência. Prêmio de pontualidade. Deu pra comprar o lote. Deu pra fazer o barraco. Depois, alvenaria. Aos poucos. Comprava o material levantando primeiro um cômodo, depois outro. Aos domingos. A mulher queria cimentar tudo. Os meninos crescendo.
Lá vêm eles. Eu vou botar pra correr. Não brinco em serviço. Cês dois, pode voltar pelo caminho que vieram. Não quero ver vocês nessa calçada!
- Desculpe, tio.
Tio, uma ova! Não sou seu tio! Eu quero lá sobrinho vagabundo? Pode se mandar! Conheço esses dois. Conheço esses maloqueiros de boné. Boné é pichação na certa. Nesse muro da fábrica ninguém picha. Que eu tou aqui tomando conta. Não ta vendo o uniforme? Sou vigia! Já fui da produção. Agora cuido do portão e do muro. Comigo aqui não tem pichação. Aquele homem falou. Tem serviço procê lá na fábrica. Tinha colocação de pião. Diz que tinha cartaz: A-di-mi-te-se, serviço geral. Que é pião. Eu pegava no pesado. Fazia tudo que mandava. Depois fui pra injetora. Serviço de responsabilidade. Comigo não tinha essa de licença médica. Não tinha essa de greve. De sindicato. Vagabundage. Quero distância de vagabundo. Bando de moleque. Tenho mais o que fazer. Nunca deixei cair a produção. O supervisor confia.
Aquela vagabunda veio co’home dela pra dar cacho de banana. Joguei na cara dela as banana. Acha que eu sou macaco? Acha que eu sou pedinte? Não vê o uniforme? A firma dá calça nova todo mês. Que vigia é o cartão de visita da firma. Tem que andar alinhado. Não pode andar mulambento. E ela vem com banana? Não gosto de banana, sua vagabunda! Lá, na casa da minha mãe, enchi de banana. Mãe, deixa eu ir! Que vou fazer aqui neste fim de mundo? Não gosto de roça. Enchi de banana. Meu negócio é máquina. A senhora não gosta tanto do mano Euzébio? Que fique ele co’a senhora cuidando da roça. Eu vou arranjá serviço na cidade.
Nunca gostei de cuidar de roça. Cachorro sim, sempre gostei. Tenho aqui este cachorro, o Capitão. Ele é bravo. Quando aparece maloqueiro ele late. Avisa. Não pode ver boné. Se caminhar pela calçada da fábrica de boné, o Capitão vai pra cima. É cão de guarda. Gosto de bicho de quatro pata. Até de rato gosto. Aqui, do lado do meio-fio sempre passa rato. Eu jogo miolo de pão. De galinha e pomba não gosto. São nojentas. Digo pro senhor, rato é melhor que esses moleques.
Parei de trabalhar na produção quando tive o acidente com o braço. E a firma me deixou de vigia. Se aparecer pichador, boto pra correr. Chamo a viatura. Não gosto de kombi. Kombi enrola com aquela conversa mole. O senhor não tem frio? Tenho não, senhora. Não ta vendo o uniforme? A firma dá uniforme agasalhado. Calça nova todo mês.
 - Como a gente deixa as coisas chegarem nesse ponto?
- Pois é. Ta vendo aquele senhorzinho ali? Mora na rua, na frente da fábrica abandonada. A assistente social diz que ele próprio mutilou o braço. Acha que é vigia da fábrica. Aquela que fechou faz anos. Não queria vir pro albergue. Mas uma manhã o encontraram desacordado. Trouxeram para aqui. Parecia gordo. Quando a gente foi dar banho, tirando a roupa dele vimos que tinha umas seis calças, uma acima da outra. E entre uma calça e outra encontramos dois ratos. Um vivo e um morto.

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