quarta-feira, 30 de julho de 2014

Rodoviários: crônica de uma greve anunciada

Ensaio
30 de julho de 2014
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT. Hoje colabora com o Síntese Socialista.

Quando o jovem Aldo Lima caminhou por entre os manifestantes sob os olhares atentos dos ativistas e dirigentes da esquerda socialista e tomou pela primeira vez nas mãos o microfone dirigindo-se assim à categoria dos rodoviários, não passava pela sua cabeça, nem por um minuto, com seu humilde conhecimento e grande eloquência, que ele representaria ali juntamente com outros tantos jovens trabalhadores o fim de uma etapa de refluxo das lutas sociais e seria parte importante do início de um novo ciclo de lutas no Brasil. Nós estamos falando de junho de 2013.
Foi nessa conjuntura explosiva onde milhares de jovens e trabalhadores precarizados foram às ruas pelas mais diversas reivindicações que os também precarizados trabalhadores rodoviários de Pernambuco foram à greve. Eles enfrentaram uma dura campanha salarial junto com seus líderes, então integrantes da oposição sindical. Naquela conjuntura, quatro fatores estiveram na base do processo: (1) o esgotamento da política econômica do governo federal baseada na isenção do IPI para bens duráveis e oferta de crédito por parte do mercado para população consumi-los. Tudo isso acompanhado do retorno da inflação que deteriorou rapidamente os salários; (2) a existência de um pelego como Patrício Magalhães que se mantinha encastelado por 30 anos no sindicato dos trabalhadores e que sempre contou com a aprovação dos empresários e dos governos do Estado de plantão; (3) a ingerência pelo governo de Eduardo Campos em favor dos mafiosos empresários do transporte nas negociações através do judiciário e, por fim; (4) a postura da CUT, não de omissão, mas de participação direta com uma oposição fantoche que ao final da campanha fecharia um dos piores acordos para a categoria dos rodoviários conjuntamente com Fernando Bandeira, presidente da URBANA, e próprio Patrício Magalhães.
Um ano após aquele fatídico acordo sucedido por demissões, o novo ciclo de lutas parece demonstrar uma energia para além das eleições deste ano. Foi de forma acachapante que a oposição rodoviária da CSP-Conlutas elegeu a nova diretoria e agora encaminha uma das greves mais aguardadas pelo movimento sindical de Pernambuco. Independentemente das limitações desta greve, afinal de contas trata-se de uma diretoria jovem e com pouca tradição no enfrentamento à patronal, a disposição de lutar muitas vezes caminha mais depressa do que a capacidade de se organizar a diretoria. A greve deve ser uma referência para outras categorias em data base nos meses de agosto e setembro.

Agora é greve!
Os rodoviários decidiram de forma democrática cruzar os braços em assembleia no dia 23 do mês corrente. A categoria tem como principal reivindicação um percentual de 10% e aumento do vale alimentação de R$ 171 para R$ 320. Hoje, um motorista recebe R$ 1605 e os cobradores R$ 738. Valores muito aquém das necessidades básicas de uma categoria profissional que tem como responsabilidade transportar diariamente milhares de passageiros nas mais precárias condições de trabalho.
Para o bem da verdade, as reivindicações da categoria extrapolam e muito as demandas econômicas. 10% não irá resolver os graves problemas enfrentados pela categoria. Porém, a proposta dos empresários de conceder 5% parece abusiva já que nem repõe as perdas com o acumulado da inflação que hoje se encontra, de acordo com o índice do INPC, em 6,06%.
A jornada de trabalho, os problemas de saúde física e mental pelas horas ininterruptas, o estresse diário, a exposição a altas temperaturas produzidas pelo motor à frente dos veículos, muitos já obsoletos, demonstra o modelo de exploração a que esta categoria está submetida. Sentados em cadeiras que não se ajustam à forma anatômica do profissional ocasionando esforços repetitivos de alto impacto, os chamados agentes ergonômicos (LER/DORTs), muito mais ainda se tomarmos como referência as péssimas rodovias e estradas nas periferias do grande Recife, essas reivindicações estão cruzadas a outras mais estruturais da sociedade como a mobilidade urbana, e que nem de longe vão ser temas em uma mesa de negociação.
Com falei anteriormente, as jornadas de trabalho não começam quando o motorista ou a cobradora chegam ou finalizam seu expediente nos ônibus. Começam nos terminais de madrugada. As jornadas dessa categoria são tão cruéis que não é humanamente possível que os trabalhadores frequentem uma universidade. E arrisco dizer: sequer uma educação secundária. Os números em estatísticas precisas serão trazidos à tona certamente pela nova diretoria nos próximos anos. É necessário fazer uma mobilização desde baixo e trazer todos os males e brutalidades que os governos e empresários impuseram aos rodoviários por décadas.
No tocante às mulheres, elas devem chegar a 40% da categoria em média. Nós não conhecemos nenhuma empresa na região metropolitana que tenha o sistema de creche. A situação da mulher com a dupla jornada é ainda de mais sacrifício.

O estado de ânimo da população
A paralisação do sistema afeta diretamente cerca de 1,5 milhões de usuários que se movimentam diariamente através de 385 linhas de ônibus na região metropolitana do Recife. Nos terminais integrados, o ânimo da população é de indignação com o transporte como um todo. Não se trata de aversão à greve em si.
Para a população, a greve dos motoristas é justa. Isso se deve em parte à construção de uma consciência de solidariedade da classe trabalhadora. Tanto é assim que a mídia, em especial a Globo, que passa o tempo todo tentando desconstruir essa relação, não conseguiu ter espaço entre a população e as matérias dos telejornais caíram por terra. A velha tática da burguesia midiática de jogar a responsabilidade do serviço precário do transporte coletivo nas costas dos trabalhadores em greve parece ter chegado ao fim. Nos diversos terminais integrados, a população, enfurecida com os desmandos do governo Eduardo Campos com o transporte, trata de depredar e queimar os ônibus. Essa é a forma de radicalização que um setor da população hoje encontra para expressar sua indignação. Isso faz parte da nova conjuntura e parece que não vai retroceder por hora.
A greve continua forte e venceu o seu segundo dia. A expectativa de vitória das reivindicações depende de várias combinações. Porém, o que nós efetivamente precisamos é romper o atual estágio do corporativismo sindical. A política corporativa adotada na greve anterior foi um desastre. Novos sujeitos sociais podem entrar em cena ajudando a construir um debate na sociedade em torno do transporte público de qualidade. O passe livre para todos os estudantes, e também para os desempregados, e não esta maquiagem que a prefeitura do PSB aprovou e tratou de estampar nos jornais com o intuito de dividir a sociedade. Cabe à CSP-Conlutas fazer um chamado amplo a todos os movimentos sociais que estejam dispostos a se integrar na luta pela vitória dos rodoviários e contra o seu isolamento na sociedade.

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