terça-feira, 22 de julho de 2014

Quem tem medo de Ken Loach?

Ensaio [1]
22 de julho de 2014
Por Deni Rubbo, doutorando em Sociologia pela USP.

Filmes alegres de diretores “sérios” geram sempre desconfiança. E quando o cinema é engajado, “político”, diriam alguns, então a desconfiança parece se aflorar com toda potência. Na década de 1970, o renomado diretor Pier Paolo Pasolini filmou no auge de seu pessimismo e hermetismo a alegre Trilogia da Vida (Decameron, Os contos de Conterbury, As Mil e uma Noites). Questionado sobre a mudança, o cineasta italiano disse que sentiu “uma grande vontade de rir”, de “trabalhar contra sua angústia” e, daí, contar “pelo simples prazer de contar”.
Ora, seria essa a vereda tomada pelo cineasta inglês Ken Loach, com seu novo filme A parte dos anjos? A primazia da alegria, do humor, da ironia que ecoa durante toda a película não seria, afinal, um sinal de desengajamento da obra do cineasta de 76 anos?
A “mudança” parece conter novos adereços – como também em À procura de Eric –, mas definitivamente não está em contradição com o conjunto de sua obra: esquadrinhar processos sociais, os enlaces da vida cotidiana, os afetos e a diversidade cultural da classe trabalhadora, em especial a inglesa.
Mas atenção: a palavra classe adquire na filmografia da longa trajetória de Loach uma conotação empregada pelo historiador E. P. Thompson, como apontam alguns críticos, e não a das ortodoxias instituídas pelo marxismo “oficial”. Não se trata, portanto, da classe como sujeito unificado e consciente, como “categoria” ou “estrutura”, mas como um fenômeno histórico que ocorre nas relações humanas, ou seja, na subjetividade da classe trabalhadora. “Classes – dirá Thompson – não surgem como o sol numa hora determinada, ela está presente ao seu próprio fazer-se”. Em outras palavras, Loach está em sua melhor forma... Senão vejamos.

Costumes em comum
São jovens marginalizados que assumem o protagonismo de A parte dos anjos. Todos, em comum, contem em sua trajetória pequenas infrações, como destruição de monumentos públicos, bebedeiras, brigas, furtos; e, por isso, estão condenados a prestar horas a fio de serviço comunitário.
Um deles Robbie tem um currículo “invejável” de pequenas condenações. Escapa por um fio de ser condenado em cárcere e é obrigado a prestar 300 horas de serviço comunitário. Mas ele está disposto a mudar, já que sua namorada Leonie está prestes a ter um filho.
Por sorte, Robbie fará amizade com Harry, o responsável pelo serviço comunitário que tem uma feição fraterna com o jovem e seus colegas delinquentes, Rhino, Albert e Mo. Nesse tocante, Loach é um dos melhores cineastas que captam a pequena solidariedade dos marginalizados, um tempero de ternura em suas difíceis relações.
Harry leva o grupo para conhecer uma destilaria de uísque escocês. Durante as degustações Robbie percebe que possui uma sensibilidade para apreciação de cada uísque. Depois, o grupo fica sabendo de um leilão sobre um uísque raríssimo. Seria aqui – roubando algumas garrafas do desejado uísque – a maneira de recomeçar a vida? O dilema está posto. Roubar para ter uma chance? Ou uma chance para roubar?
Fascinados pelo conjunto do enredo, ou pelo desejo de degustar ao menos uma gota de um bom uísque escocês, a o fato é que nos posicionamos a favor do grupo. Secretamente torcemos para que o roubo se concretize, para que o planejamento e a estratégia não falhem, mesmo sabendo dos tropeços, das trapalhadas de nossos personagens. A parte dos anjos não perde o lado social, mesmo contendo humor.
Afinal, é muitas vezes assim que os jovens subalternos podem ter uma chance de reconstruir suas vidas. O pensamento hegemônico meritocrático veicula o chavão de que basta apenas ter vontade para superar as aflições e sua posição social na sociedade. No entanto, é preciso de condições concretas minimamente suficientes para conseguir superar esse impasse.
Ainda que se esforce um bocado, Robbie, por exemplo, está desempregado e sequer consegue marcar uma entrevista de emprego por causa das cicatrizes em seu rosto.
Loach não subverte pelo choque, mas pela sedução. Um filme soberbamente simples, firme e convicto. O contagiante não está apenas na trama, mas na sutileza de revelar as múltiplas condições sociais e afetivas dos personagens, do fazer-se das classes. As classes não são números, mas uma construção que ocorre na relação conflitual com outras classes.
Ademais não é preciso citar a política para fazer um filme político. Não é preciso de canhões e tiros. Seja qual for o tema que um filme escolha, nele esta implicada necessariamente uma participação na vida pública. Pois bem: os dominantes e vencedores da história que se cuidem, pois, repito, Loach está em sua melhor forma, ou melhor, do outro lado da trincheira.




[1] Deni Rubbo disponibilizará/escreverá outros textos para o blogsintese. Este foi publicado originalmente em Jornal Brasil de Fato, nº 525, São Paulo, de 21 a 27 de março de 2013, p. 12.

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